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Política

Marcha das Vadias

Uma Marcha de Respeito?

por Redação Carta Capital — publicado 18/07/2011 08h59, última modificação 18/07/2011 18h35
O protesto contra a violência sexual, realizado no sábado em Curitiba, é analisado pelo presidente da ABGLT, Toni Reis

Um protesto contra a violência sexual sofrida pelas mulheres no Paraná resultou, no sábado 16, em mais uma edição da chamada Marcha das Vadias, a exemplo do que havia ocorrido em São Paulo, em junho.

O movimento ganhou apoio de Toni Pires, uma das mais importantes lideranças do movimento gay do País. Presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, Reis escreveu um artigo analisando a reivindicação das mulheres, organizada por meio das redes sociais e sob inspiração de movimentos similares ocorridos pelo mundo após um policial do Canadá afirmar que as mulheres de Toronto deveriam evitar se vestir como “vadias” para evitarem estupros.

Confira abaixo o artigo e o manifesto do movimento assinado por uma de suas lideranças, Ana Carolina Lima.

Por Toni Reis*

No sábado 16, as ruas do centro de Curitiba foram tomadas durante mais de duas horas por uma manifestação inusitada, espontânea, ousada, solidária, ao mesmo tempo ordeira e irreverente, bem humorada mas com uma mensagem muito séria.

A “Marcha das Vadias” usou o termo pejorativo com ironia para chamar a atenção para o machismo e pedir o respeito às mulheres e à sua autonomia e o fim da desigualdade, do assédio sexual e da violência que sofrem, dando visibilidade a um problema gravíssimo na sociedade brasileira: a cada 24 segundos uma mulher é vítima de violência e aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano no país.

Em Curitiba, segundo a delegacia das mulheres, no ano de 2009 nove mil mulheres registraram queixa de algum tipo de violência. Com certeza, estes números ainda são subnotificados. Não é ficção, é nossa realidade. O Manifesto da Marcha (abaixo) explica os objetivos.

A Marcha das Vadias também vem reafirmando a força das redes sociais na mobilização de movimentos sociais, sindicais, acadêmicos, artísticos, estudantis, políticos, entre outros, no processo do fortalecimento da democracia e da contestação das iniquidades e injustiças sociais. E não só no Brasil, mas internacionalmente.

Tudo começou em janeiro deste ano, quando um policial em Toronto, Canadá, afirmou durante um fórum sobre segurança pública que “as mulheres deveriam evitar vestir-se como vadias (sluts) para que não fossem estupradas.” A indignação com a culpabilização das vítimas do estupro, em vez de uma atitude de repreensão a quem estupra, foi o pontapé de manifestações – a Marcha das Vadias (Slutwalk) – em diversos países e regiões do mundo. No Brasil, a Marcha já passou por nove das principais cidades do país.

Sim, a Marcha das Vadias é uma marcha de respeito. Respeito às mulheres, respeito a todos os seres humanos.

*Toni Reis é presidente da ABGLT

Confira abaixo o Manifesto da Marcha das Vadias de Curitiba:

A Marcha de todas as bandeiras

O Movimento Slutwalk surgiu no Canadá, no início de 2011, e ganhou o mundo levantando a bandeira contra a culpa da mulher em casos de agressão sexual.

Em Curitiba, a organização da Marcha tem gerado calorosos debates. Muitos jovens, mães de família, políticos, têm expressado a compreensão da urgência em se realizar um ato a favor do RESPEITO. O respeito ao outro, personalizado na mulher, na criança - em todas as vítimas de agressão que todos os dias são atendidas em delegacias e hospitais. O respeito à todas as vítimas anônimas, humilhadas, abandonadas e destruídas. Infelizmente a civilidade curitibana não afastou esse fantasma e não podemos mais ser coniventes com todas as formas de desrespeito que presenciamos todos os dias.

Por isso queremos todas as bandeiras na nossa marcha!

• A bandeira da luta contra a violência sexual, a submissão, a exploração do corpo da mulher. A luta contra o conservadorismo que nos diz que, se não quisermos ser estupradas, não devemos provocar.

• A luta contra o moralismo, que nos diz que não podemos usufruir de nossa sexualidade, sensualidade e • O feminismo, renovado, que acolhe as mulheres e orienta na melhor forma de exercer a feminilidade, com força, determinação e respeito.
• A cidadania, que busca a criação de políticas públicas efetivas de proteção aos direitos da mulher, que puna agressores e estupradores.

• O fim do preconceito contra os grupos LGBT, pelo respeito às diferentes formas de orientação sexual.

• A assistência às prostitutas, maiores vítimas de violência e agressão sexual, pelo reconhecimento profissional e por uma condição mais digna, sem exploração.

• O apoio às mulheres agredidas, que tenham a segurança de o Estado irá defendê-las de seus agressores.

Acompanhamos as discussões acerca da dificuldade de ressignificar um termo tão carregado de preconceito, como VADIA, e consideramos que é urgente que todos os nomes pejorativos como puta, biscate, vagabunda, piranha, “mulher fácil” sejam reapropriadas e que a discussão sobre a sexualidade feminina, e tudo o que ela representa, seja pauta política e social.

Se você também não concorda com uma sociedade que aplaude piadas sobre estupro, que segue lideranças que afirmam que, se a mulher foi estuprada, é porque de alguma forma ela consentiu, que banaliza a agressão física, moral e sexual, marche com a gente.

Na “Marcha de todas as bandeiras” traga o seu respeito.
Vista-se como quiser, traga a família, ensine ao mundo que as mulheres devem ser respeitadas.

Diga não à violência!

Por Ana Carolina Lima

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