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A juventude e o descontentamento

por Cultura e Juventude — publicado 23/08/2011 17h08, última modificação 23/08/2011 17h10
No maio de 68 francês ou nos levantes chineses dos anos 80, reivindicava-se uma mudança profunda e, agora, o que se pede é uma solução às profundas mudanças

Por Fernando Vicário*

Os protestos dos jovens do século XXI são muito diferentes dos do século XX, não só pelos meios tecnológicos agora utilizados para convocá-los mas, principalmente, porque o que foi um dia está deixando de ser. No maio de 68 francês ou nos levantes estudantis chineses dos anos 80, reivindicava-se uma mudança profunda e, agora, o que se pede é uma solução às profundas mudanças que vem ocorrendo e que deixam os jovens sem saber que saídas lhes oferecem a continuidade. As instituições perdem força diante dos jovens. A política se desvirtuou em muitos lugares do mundo e, em muitos outros, está começando a se tornar suspeita. As religiões não são capazes de adaptar sua linguagem a um século de profundas mudanças e parecem continuar pregando no deserto. Diferente do que foi um dia, o exército já não é refúgio para ninguém. A família tradicional está mudando a uma velocidade absurda. Os empregos não oferecem a mesma segurança que há 20 anos, e a formação já não é garantia para que se encontre uma vaga no mercado de trabalho desejado. O Reino Unido, a Espanha, o Chile, a Itália e os países árabes são a ponta de um iceberg que está emergindo, e ao qual parece que ninguém está dando a devida importância. As novas tribos urbanas estão mudando o conceito de identidade e pertencimento que formaram as regras sociais do século XX.

As cidades são um quebra-cabeça cultural disperso, em torno do qual continuam se concentrando os desejos dos jovens. Hoje, não só a música como também as imagens, os videogames, as danças, as roupas e os desenhos tecnológicos formam à sua volta novos grupos e coletivos, dispostos a levar seus “fetiches” a lugares inimagináveis. Além destas novas manias se nota também um profundo desencanto com as já existentes. Seria pretensioso nos atrevermos a prever o triunfo dos que vão prosperando, mas seria tolice não darmos conta da raiz comum de todos eles: a cultura. Este espaço simbólico onde se geram novas esperanças. Esta porta que serve de entrada e saída para a memória.

Talvez, o grande erro cometido hoje em dia nas abordagens sobre o futuro, seja o de não levar em conta a presença destes movimentos, de não escutar seus gritos, de manter uma visão superficial ao invés de se colocar na pele do outro, algo imprescindível para saber fazer política. As reformas educativas continuam sendo pensadas e tratadas com a mesma mentalidade do século XX, ficando para segundo plano em todos os governos. Já as políticas culturais, não conseguiram nem mesmo sair do XIX e são deixadas ainda mais de lado em todos os países, seja na America Latina, na Europa ou no mundo Árabe. Os líderes falam de assuntos que não chegam a ser colocados em prática – e isso todos já sabemos– o importante é ter a consciência de que está em jogo um novo modelo a ser construído, mas parece que as pessoas não entendem que as peças que estão em cima da mesa agora, não são as mesmas de antes. Não valem as mesmas regras, pois este é um novo jogo. Não vale continuar falando da juventude sem escutá-la. Continuar falando da cultura, restringindo-a a museus e bibliotecas. Não vale. Porque depois, quando as nossas casas forem queimadas, as nossas lojas destruídas, os nossos bairros invadidos e a nossa confortável existência perturbada, perguntaremos: “Mas eles não tinham tudo? O que aconteceu?”.

Não, eles não têm tudo, nós nos encarregamos de destruir o que existia, os deixamos sem chão, destruímos o meio ambiente, menosprezamos a educação, pervertemos as instituições, banalizamos a mídia e corrompemos a política. A criatividade é o que lhes resta, a cultura como espaço de criação de sentido, mas parece que não queremos, ainda assim, colocar os nossos recursos à sua disposição...  Depois, não podemos nos queixar.

O Brasil está em uma posição privilegiada para dar um passo a frente neste momento. Toda a America Latina e grande parte da Europa observam o país com grande curiosidade, para saber se vai fazer alguma coisa ou se nada fará. A janela está aberta para o mundo, a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 fazem com que todos queiram olhar por esta janela, e todos vão olhar por ela. Os jogadores de futebol, os atletas e os esportistas, são todos jovens, não vamos usá-los somente como fonte de diversão visual... A Grécia já foi... Agora é o Brasil.

Tradução: Daniella Castanheira

Fernando Vicário – É Diretor da Empresa Consultores Culturais (Espanha), presta serviços para diversas instituições internacionais Ibero-americanas e para projetos de Cultura e Educação em países da América Latina e Europa.

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