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Política

Entrevista - Fernando Lattman

"É um problema achar que a política se resolve só com ética e coragem"

por Marcelo Pellegrini — publicado 26/11/2015 05h02, última modificação 26/11/2015 05h05
Professor da UERJ critica o debate político simplista e a busca por soluções fáceis, que abrem espaço para a volta de "caçadores de marajás"
Tasso Marcelo/ Fotos Públicas
Intervenção militar

Manifestantes pedem o retorno da ditadura militar em protesto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff , no Rio de Janeiro, em março

O ano de 2015 foi marcado por manifestações pró e contra o governo e pelo reaparecimento de grupos minoritários, mas organizados, que pediam a volta do regime militar. Em todos os protestos havia um mote comum: o combate à corrupção e o desejo por uma moralização da política brasileira. 

Em entrevista a CartaCapital, Fernando Lattman-Weltman, professor de Ciência Política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), alerta que o descontentamento da população com a política, aliado ao reaparecimento de uma direita conservadora e a uma busca incondicional por ética pode levar ao retorno dos "caçadores de marajás" e, até mesmo, a um retrocesso democrático.

Segundo ele, ao se dividir políticos e eleitores entre bons e maus, "se desqualifica o processo eleitoral e abre-se espaço para radicalizações". Para o professor, as redes sociais e a crise do Partido dos Trabalhadores (PT) permitiram o reaparecimento da direita na opinião pública e o ressurgimento do udenismo, um conceito que orienta a política brasileira em torno de valores morais, não de propostas, e que geralmente é de cunho elitista. Confira: 

CartaCapital: O senhor estuda o udenismo como fenômeno comum da vida política brasileira. Do que se trata o udenismo?

Fernando Lattman: O udenismo está associado a uma dificuldade em se aceitar o resultado eleitoral que, no limite, chega ao ponto de desclassificar o eleitor brasileiro, pregando que ele não sabe votar. A perspectiva udenista defende que problemas do País decorrem de falta de competência e moralidade nos representantes eleitos pelo voto popular. Segundo eles, somente os seus candidatos têm a disposição moral e intelectual para conduzir o País. Isso mostra que há uma dificuldade enorme, nesse pensamento, de aceitar o jogo democrático como ele é e de aprender a disputá-lo com chances de ganhar.

CC: De onde surgiu este termo?

FL: O conceito se refere à trajetória política da UDN, um partido de oposição ao governo, no primeiro período democrático brasileiro (1945-1964). Foi nesse período em que surgiram os primeiros partidos nacionais, existindo três principais: o Partido Social Democrático (PSD), ligado à máquina montada na ditadura de Getúlio Vargas, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), ligado aos sindicatos, e a União Democrática Nacional, uma frente que congregava todos os opositores de Getúlio Vargas. A UDN tinha uma bancada importante no Congresso e disputou três eleições à Presidência (1945, 1950 e 1955) com chances de vitória, mas perdeu todas. A única vitória do partido veio em 1960, em uma aliança com Jânio Quadros, que durou pouco tempo porque logo o presidente se desentendeu com o partido.

Em função das suas derrotas, a UDN começou a desenvolver táticas como a interpretação da Constituição para beneficiar interesses próprios, por exemplo. Era uma oposição que usava chicanas [ação de impedir o andamento de um processo com argumentos irrelevantes ou aspectos técnicos] e outros mecanismos constitucionais para derrubar o governo.

Por outro lado, tinha uma parte do partido que conspirava abertamente contra o governo e considerava apoiar uma intervenção militar. Este era o caso do Carlos Lacerda. Por isso, de maneira geral, o conceito está associado ao golpismo e a uma oposição que usa-se de chicanas e reinterpretações da Constituição para chegar ao poder.

CC: O movimento da oposição, em 2015, de fazer uma auditoria da eleição seria uma forma de neo-udenismo?

FL: A questão não é tão simples assim. Se existir elementos que realmente mostrem alguma violação das regras, o que não se mostrou verdadeiro, é natural que haja investigações. A tática do udenismo, por outro lado, é reinterpretar as regras do jogo para tentar obter benefícios eleitorais, aliada a uma moralização do processo de maneira elitista, ingênua ou mal intencionada. É muito problemático pensar que alguém tenha o monopólio da moral e da ética. É como se o problema de governar se restringisse a uma questão de ética. A ética, por si só, é um pressuposto, uma obrigação e não uma plataforma política ou eleitoral. Na verdade, essas pessoas não têm propostas concretas para colocar na mesa. Isso é uma simplificação grosseira da capacidade política de governar e de legislar.

CC: Quais as implicações deste discurso?

FL: É viver o jogo político por baixo e defender a ideia elitista de que apenas algumas pessoas bem intencionadas e qualificadas podem votar. Outra consequência é que, ao invés de estimular o debate entre candidatos que tenham propostas e soluções para os problemas do País, privilegia-se o surgimento de caçadores de marajás. As atividades de governo são complexas e demandam discussão e negociação. Esta simplificação grosseira vai contra a negociação democrática e é maniqueísta. Passa-se a dividir políticos e eleitores entre bons e maus e, com isso, se desqualifica o processo eleitoral e abre-se espaço para radicalizações.

CC: O udenismo é um fenômeno limitado a um espectro político ou pode ser tanto de direita como de esquerda?

FL: Ele abrange todos os espectros. A desvalorização do eleitor ocorre tanto na esquerda quanto na direita e a desvalorização vai desde argumentos como a alienação ideológica até a desqualificação por motivos financeiros. Sempre é um problema achar que a política se resolve só com ética e coragem. Isso simplifica o debate, leva a decisões simplistas e, muitas vezes, equivocadas e autoritárias. A maioria das pessoas que defendem este argumento desconhece a realidade do povo e o que o levou a escolher determinado candidato em meio a um leque de opções.

Fernando Lattman
Para professor, defender que beneficiários de programas sociais não possam votar 'é puro preconceito de classe'

CC:  Nesse sentido, a parcela minoritária do eleitorado que defende que pessoas que recebem benefícios sociais não podem votar porque são influenciados por esse auxílio é, de certa forma, udenista?

FL: Em primeiro lugar, quem é que não vota influenciado por motivos econômicos ou pelas decisões do governo. Por que o cidadão que vota influenciado pelo Bolsa Família tem menos capacidade de raciocínio para escolher um candidato? Ou seja, o certo seria que uma pessoa que recebe o Bolsa Família votasse em quem fosse contra o programa para ela morrer de fome, feliz e contente com sua consciência?

Isso é um argumento absurdo e presunçoso que desqualifica o voto do outro, cuja realidade não se conhece. Além disso, parece que todos os eleitores que recebem o Bolsa Família votam do mesmo jeito. Isso é uma desqualificação brutal e preconceituosa.

O eleitor que vota pensando na manutenção de um programa, que melhora sua vida, é infinitamente mais racional do que outro que vota pensando em uma revolução que pode acontecer daqui a cem anos ou nem acontecer, por exemplo. Isso é puro preconceito de classe. Isso é preconceito contra pobre, uma das coisas mais antigas deste País.

CC: Qual é o papel da imprensa no crescimento deste fenômeno no Brasil?

FL: O papel da imprensa é grande por várias razões. A imprensa, em geral, reproduz os parâmetros mais comuns da cultura política do País porque essa é a matéria-prima do trabalho jornalístico. Como essa visão ingênua, moralista e preconceituosa é predominante na nossa política, a imprensa acaba por repercuti-la e, em busca da audiência, tem a tendência de transformar tudo em espetáculo para atrair a atenção dos leitores. Ou seja, há uma tendência natural de espetacularização e de simplificação dos eventos políticos para o público. Ao largo do bom jornalismo que aprofunda os temas e busca informações, essa simplificação dos fatos facilita a reprodução de uma visão simplista das coisas, uma divisão entre bem e mal.

CC: As redes sociais reforçam a simplificação?

FL: Assim como na grande mídia, as redes sociais possuem uma pluralidade de vozes e, por isso, há coisas maravilhosas em matéria de reportagem e apuração, mas também se permite uma mobilização de pessoas com pouca experiência política e que se sentiam isoladas, sem espaço para colocar suas opiniões. Nesse sentido, a rede acolhe e favorece a mobilização de vários grupos. Isso faz parte do avanço democrático.

Por outro lado, de fato, o que tem um potencial maior de “viralizar” e se tornar popular é o que é mais superficial, fácil e rápido de ser transmitido. Em última análise, o que viraliza nas redes sociais não é muito diferente do que se massifica na imprensa. Ou seja, conteúdos que têm um apelo imediato. Há um estímulo a uma certa superficialidade de argumentação que é normal e um reflexo da nossa sociedade de massa.

CC: Os algoritmos de redes sociais como o Facebook oferecem informações que são do interesse e do círculo de amigos do usuário. Por conta disso, um maior engajamento nas redes levaria necessariamente a uma visão limitada da política e a uma polarização?

FL: Essa lógica de cada vez mais do mesmo faz com que o usuário receba e reproduza só aquilo que está dentro e faz sentido para o seu grupo. Este tipo de mecanismo de fidelização do usuário leva a este tipo de coisa, sim. Mas não podemos culpar exclusivamente a tecnologia. Na televisão, também há a reprodução dos tipos de conteúdos que agradam a audiência. Isso faz parte da dinâmica de massificação. O mais importante, contudo, é: por que isso é importante para as pessoas? O que as leva a se mobilizar? Agora, as pessoas se sentem capazes de participar de grupos ou de expressar suas ideias em ambientes que antes não julgavam possíveis. Por isso, a questão não se esgota no algoritmo. Há processos, culturais, sociais e políticos mais amplos nesses fenômenos. Em uma democracia, nós temos que conviver e tolerar as vozes que algumas pessoas não querem ouvir. O problema é quando isso ultrapassa o Estado de Direito.

CC: A direita brasileira sofreu um ostracismo simbólico da mídia, no período pós-ditadura. Este ostracismo está sendo revertido nas redes sociais?

FL: Isso precisa ser investigado em uma perspectiva histórica de longo prazo. Há dez anos, um grande jornalista me perguntou por que a direita não se assumia no Brasil. Não que não houvesse representantes da direita, mas eles não se assumiam. A impressão é que, hoje em dia, as pessoas estão começando a se identificar como de direita, seja no aspecto econômico, no de costumes ou político, como é o caso dos defensores de um intervencionismo militar.

O fim da ditadura militar e as tendências políticas do País levaram a uma marginalização da direita na mídia. Nesse sentido, o Partido dos Trabalhadores representou o suprassumo do ostracismo para os defensores da direita. Neste momento de crise do partido, com o aparecimento das denúncias de corrupção e por conta de governabilidade no mandato da presidenta Dilma, uniu-se a chance de reafirmação da direita com uma nova tecnologia gratuita e acessível a todos. Por isso, as redes sociais se tornaram um canal disponível a essas manifestações da direita.

Durante muito tempo, a direita se sentiu pouco à vontade para se manifestar e nutriu seus ressentimentos à sombra. Quando o jogo político brasileiro mudou, esse setor começou a recuperar sua voz. Também é importante lembrar que o ressurgimento da direita é um fenômeno global e tem a ver com as crises que estão acontecendo no mundo e com uma questão geracional, mas isso é uma hipótese. Por outro lado, isso tem a ver com o avanço da democracia. Manifestações em todos os espectros políticos são normais em toda democracia consolidada e deve ser tolerado, desde que respeite as regras do Estado de Direito.