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Política

Rosa dos Ventos

A estrela sobe o morro

por Mauricio Dias publicado 19/11/2011 07h57, última modificação 06/06/2015 18h15
Com a bênção de Cabral, que vê em Beltrame o possível sucessor
RIO88235

Sorrisos no Vidigal. Ele diz que não quer, o povo não acredita. Foto: Marcia Foletto/Ag. O Globo

José mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, é um ás na manga do governador Sérgio Cabral. É uma carta que pode ser deitada à mesa das eleições de 2014 para o governo do estado. Basta Beltrame querer.

Ele tem ganhado a luta contra os traficantes e retoma o controle das favelas, como na Rocinha, na zona sul carioca. Com isso, adquiriu uma virtude e, com ela, uma vantagem sobre a soma de seus defeitos, considerados eleitoralmente inadequados.

Quais seriam os obstáculos a esse projeto político-eleitoral?

Inicialmente, a própria resistência dele, gerada pela timidez e insegurança. Delegado da Polícia Federal, Beltrame tem um perfil pessoal inadequado para os marqueteiros. O discurso dele é monótono e tocado em uma nota só: a segurança.

De alguns pontos de vista, relacionados com a exposição ele pode ser comparado a Dilma Rousseff. E até leva vantagens. Já teria, na partida, mais intimidade com os holofotes e não dependeria de transferência de votos de Sérgio Cabral, como Dilma de Lula. Teria, por fim, o apoio forte das Organizações Globo.

Império no setor de comunicações, a Globo não se dá bem quando pretende “fazer reis” na contramão da opinião pública. No caso de Beltrame, no entanto, nadaria a favor da correnteza.

 

Após a batalha sem sangue na Rocinha, Beltrame frequentou assiduamente as telas da TV Globo. Deu entrevistas ao Jornal Nacional e ao Bom Dia Brasil. Foi filmado passando a tropa em revista e, ainda, na cerimônia na qual fez elogios, merecidos, aos dois policiais militares que não cederam à tentativa de suborno do traficante Nem.

Por que a Globo prefere Beltrame sem mesmo saber se o secretário aceitaria a investidura de candidato?

Ele tem notória incompatibilidade com a esquerda e a esquerda do PT com ele. Atraiu atenção e crítica por essa declaração infeliz, em 2008: “Os bandidos trazem a cultura da violência do ventre da mãe”.

Em princípio, o governador está amarrado a uma aliança com o PT ou, antes, com Lula. Esse acordo elegeu Cabral em 2006 e o reelegeu em 2010. Foi, em contrapartida, um palanque importante para a eleição de Dilma e poderá ainda mais em 2014. Para a oposição e, consequentemente, para a Globo, o fim desse acordo seria fundamental. E pode ocorrer.

Além das discordâncias com o governo petista em torno dos royalties do petróleo, o PT constrói candidatura própria ao governo estadual: o senador Lindberg Farias, renovação política do partido no Rio.

Sérgio Cabral tem no vice-governador, Luiz Fernando, o Pezão, um candidato inviável. Não dá muita corda a essa candidatura, mas, com ela, mantém o controle do espaço político-eleitoral para negociação. O PT vai apoiar a reeleição do prefeito do PMDB, Eduardo Paes, confiante que haverá reciprocidade à candidatura em 2014.

Aécio Neves, aspirante à Presidência, cultiva a simpatia de Cabral. É a única possibilidade que o tucano tem de montar um palanque forte no Rio. Candidato, o secretário de Segurança seria um dos suportes nesse caso.

Na terça-feira 15, Beltrame apareceu “de surpresa” no front. Foi aplaudido pelos moradores da Favela do Vidigal, contígua à Rocinha, também liberada. Um morador gritou para ele: “O senhor vai ser governador do Rio”. Beltrame sorriu simpaticamente e disse que não tinha interesse pelo cargo. O morador não recuou: “Na hora H, eu sei que o senhor vai aceitar”.

Esse diálogo desaparecerá ou entrará nessa história.

Andante Mosso: Notas sobre os principais acontecimentos da semana

A foto e os fatos (1)

 

 

 

 

 

 

 

 

A foto acima é um registro da cerimônia realizada pelo Conselho Nacional dos Peritos Judiciais (Conpej), realizada no Rio de Janeiro, no dia 18 de maio de 2011.
À mesa, como convidados especiais, o desembargador Reinaldo Pinto Alberto Filho, do Tribunal de Justiça, homenageado especial, o advogado Jovenal da Silva Alcântara, assessor especial do governador Sérgio Cabral, Roberto Barbosa, delegado
da Polícia Federal, e outros.
Entre os outros, os advogados André Luiz Soares Cruz e Demóstenes Armando Dantas Cruz, diretor do Conpej, assinalados por seta.

A foto e os fatos (2)
Os doutores André Luiz e Demóstenes Armando são dois profissionais influentes.
Talvez muito influentes. Não são advogados de “porta de cadeia”, como foi noticiado.
Os dois estavam no carro onde o traficante Nem, chefe do tráfico na Rocinha, tentava a fuga escondido no porta-malas.

Estariam ali por um acaso?
André Luiz apresentou-se aos PMs que abordaram o carro em fuga como cônsul da
República do Congo e Demóstenes Armando, mais modesto, se disse funcionário do consulado.
Os dois, como se sabe, mentiram e tentaram subornar os policiais. Cometeram crime de corrupção ativa, sem considerar a possibilidade de associação ao tráfico.
Ambos foram presos e já estão liberados.

Papel passado
As evidências indicam que o traficante Nem é um arquivo vivo.
Considerando o desprezo brasileiro por documentação, não será surpresa se for queimado.

Ação de graças
No domingo 13, após comandar a retomada das favelas da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, o secretário de Segurança José Mariano Beltrame foi à missa das 19 horas
na PUC da Gávea, zona sul carioca.
Recebeu aplausos de pé quando o padre oficiante citou a presença dele.
Beltrame reagiu ruborizado.

Multidinha
Desceu mais um degrau na escada do fracasso a manifestação, dita contra a corrupção,
realizada no dia 15 de novembro. O total de manifestantes em dez cidades foi contabilizado: cerca de 5 mil. Como o dia era chuvoso, pode-se falar em 5 mil gatos-pingados.

Morto-vivo
Carlos Lupi, ministro do Trabalho, ainda respirava até o fechamento desta edição.

Miséria e analfabetismo
Pelos números do Censo de 2010, divulgados pelo IBGE, o Brasil ainda tem um bom
número de analfabetos: cerca de 14 milhões.

O próprio IBGE, considerando renda e condições sociais, indica que 16 milhões de brasileiros vivem na miséria. Os números apontam certa simetria, bastante indicativa,
entre analfabetismo e miséria.

Encapados

O americano Robert Crumb, um dos maiores cartunistas do mundo, revelou uma ponta
de farisaísmo do decantado liberalismo nova-iorquino.A revista New Yorker vetou um desenho dele para a capa sobre casamento gay,
sem nenhuma explicação.
“Não espero desculpas. Mas, se vou desenhar para eles, preciso saber quais são os critérios pelos quais aceitam ou rejeitam trabalhos.”
Segundo Crumb, na sala do editor de capas as paredes estão cobertas
com trabalhos rejeitados.

 

 

 

 

Tio Sam
Há caminhos pouco conhecidos, quase nunca divulgados, no estilo de vida americano, o famoso american way of life, enaltecido por alguns basbaques dos trópicos.
Um deles é tema do relatório que a Anistia Internacional divulgará, no dia 30 de novembro, que trata das sentenças de prisão perpétua para crianças, sem direito
à liberdade condicional.
É o único país do mundo a impor essa pena a crianças com até 11 anos de idade.
Pelos números da Anistia há perto de 2,5 mil prisioneiros cumprindo essa sentença,
que não considera atenuantes como histórico de abuso ou trauma, grau de envolvimento no crime e saúde mental, entre outras.
Após o dia “11 de setembro” de 2011, marcado pelos atentados às Torres Gêmeas em Nova York, a legislação dos EUA ganhou mais traços de barbaridade ao admitir tortura em interrogatórios de acusados por crimes de terrorismo.
Fica mais compreensível, sem que isso amenize, a linha de crueldade da
punição a crianças envolvidas alcançadas por essa legislação.
Tio Sam é um velhinho reacionário e implacável.

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