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Política

Entrevista - Beto Albuquerque

"A esquerda não pode vacilar. E o PT vacilou"

por Bruna Carvalho — publicado 08/11/2015 08h18
Candidato a vice de Marina em 2014, vice-presidente do PSB afirma que falhas do PT permitiram o avanço conservador atual
Divulgação / Facebook
Beto Albuquerque

Para Albuquerque, PSB precisa ter candidato próprio em 2018

Rompido com o governo desde 2013, o PSB liderou na quinta-feira 5, no Rio de Janeiro, um encontro da Coordenação Socialista Latinoamericana, organização internacional composta por 12 partidos que funciona como um contraponto ao Foro de São Paulo, do qual o partido também faz parte. O evento, cujo tema centrou-se no combate à corrupção e em mecanismos para promoção da transparência, foi marcado por críticas indiretas ao PT por parte das principais lideranças pessebistas.

Em entrevista a CartaCapital, o vice-presidente do PSB, Beto Albuquerque, diz que o descolamento do PT de suas bandeiras históricas, como a defesa da ética e do combate à corrupção, contribuiu para o avanço conservador em diversos setores da sociedade, principalmente no Congresso Nacional.

Para Albuquerque, que foi candidato a vice de Marina Silva em 2014 e pode encabeçar a chapa do PSB em 2018, seu partido deve buscar romper a polarização PT-PSDB a partir de um programa de progressista. "Precisamos afirmar nossos princípios, não nos rendermos a juros como estamos fazendo, alegrando a banca. As políticas têm que ser pela esquerda. A crítica é pela esquerda", diz.

Confira a íntegra:

CartaCapital: Muitos afirmam que 2015 deixa a impressão de que as disputas e polarizações inerentes às eleições de 2014 ainda estão vivas, como se 2014 não tivesse acabado. O senhor concorda com essa análise?

Beto Albuquerque: O Brasil vive de uma polarização há 20 anos, entre tucanos e petistas. Isso agudizou a divisão, as disputas, os enfrentamentos e hoje um e outro teoricamente se odeiam em função da tentativa de voltar ou permanecer no poder. Tem-se discutido mais a polarização do que os interesses brasileiros. Vivemos um momento muito difícil politicamente, mas sobretudo economicamente. Alertamos desde 2012 o governo da presidenta Dilma de que o mundo mudava sua direção econômica e que era preciso que o Brasil revisse suas decisões econômicas. Saímos do governo porque não fomos ouvidos. O governo preferiu manter a sua velha e conservadora aliança em vez de ouvir o partido que foi desde a sua origem um parceiro leal. Hoje, vejo a herança não só de um conflito político, mas as consequências das decisões erráticas que o governo continuou tomando em 2013 e em 2014.

CC: Em 2015 há uma mudança na condução da política econômica...

BA: Os erros poderiam ter sido corrigidos sob auspício de uma visão progressista, não de uma visão neoliberal como está se fazendo. Esse plano de ajuste que a Dilma junto ao (ministro da Fazenda, Joaquim) Levy conduz no Brasil é o que temos de mais conservador: restringe crédito, emprego, desenvolvimento e aumenta absurdamente o dispêndio com os juros. Um governo que gasta meio trilhão de reais só para remunerar juros da dívida esqueceu de fazer o dever de casa. Sem desenvolvimento, sem equilíbrio econômico, você não consegue avançar nas políticas sociais. Hoje temos o desemprego crescendo, a inflação corroendo o bolso principalmente dos mais pobres. Quem sempre quem paga o preço dos equívocos de um governo, especialmente um governo de esquerda, como deveria ser o governo da presidenta Dilma, e que não é mais, pelo menos do ponto de vista econômico, são os mais pobres do País.

CC: Na abertura do evento, o senhor afirmou que quando um partido de esquerda falha em criar mecanismos de combate à corrupção abre espaços para forças conservadoras. O PT falhou nesse sentido?

BA: Isso é uma fala que repete o que já vimos no mundo todo. A esquerda lutou por democracia, liberdade, criticou governos que conviveram com corrupção impunemente, com ausência de fiscalização. Construímos esse ideário. As pessoas confiaram na esquerda, porque falávamos de ética, de decência, de gestão competente, de compromissos sociais. Quando a esquerda assume e começa a ser ineficiente nesse sentido, a fazer aliança interessada em suas particularidades, as velhas raposas da política hoje governam, indicam cargos importantes. Quando que eu vou imaginar que um governo do PT dá dois cargos para o (senador Fernando) Collor indicar? O que eu espero disso? Que o Collor tenha se redimido da corrupção?

CC: Mas por dez anos o PSB fez parte do governo...

BA: Sim, fizemos. Não estou me eximindo. Mas sempre fomos periféricos (dentro do governo). O PSB nunca esteve em ministérios-chaves. E talvez tenhamos sido o primeiro partido a entregar os seus cargos por discordar do governo, por seus erros, por suas alianças. Quando se convive com esse tipo de realidade, mancha-se a imagem da esquerda. E a esquerda não é corrupta. Agora, se um governo de esquerda permitiu que a corrupção invadisse a principal empresa transnacional, a Petrobras, ele tem que ter responsabilidade. A responsabilidade é do partido hegemônico, é do PT. Não podemos lavar as mãos ou achar que se os outros foram corruptos nós também podemos ser. Essa conversa é uma conversa que a sociedade brasileira não aguenta mais.

E em todos os momentos da história em que a esquerda fraquejou administrativamente, no seu compromisso com a ética ou com seu compromisso com as liberdades dentro de uma democracia, contribuímos para a volta do discurso conservador. Não podemos vacilar. E eu acho que aqui no Brasil o PT, que sempre foi o partido hegemônico da esquerda, vacilou. Todo esse tipo de pauta conservadora que tramita hoje no Congresso tem a ver com o fracasso da esquerda.

CC: Por falar em Congresso, hoje a Câmara dos Deputados vive um momento complicado, principalmente em relação ao seu presidente. Qual é sua posição em relação a Eduardo Cunha?

BA: A situação dele está cada vez mais insustentável. Os camaradas que presidem o Senado e a Câmara, alvos de suspeitas. E no caso do Eduardo Cunha de suspeitas que não parecem mais suspeitas. Tem o nome, tem a digital, tem o passaporte, o nome da família, e o cara diz: ‘eu não tenho conta’...

CC: Se de fato Eduardo Cunha não ocupar mais seu cargo, o PSB pretende voltar a lançar um candidato à presidência da Câmara?

BA: Temos que fazer um esforço na hipótese da substituição, que eu espero que ocorra, mais do que nos centrar em disputas partidárias. Porque o Cunha é resultado também do PT, que não teve humildade de apoiar o candidato do PSB (Júlio Delgado), o mais viável para ganhar aquela eleição. Preferiu lançar um terceiro (Arlindo Chinagllia) e isso dividiu o campo de oposição e rendeu a Presidência da Câmara a Cunha. Devemos identificar na Câmara parlamentares que tenham trajetórias que possam compensar todos esses erros. Cito, por exemplo, o deputado Jarbas Vasconcelos, do PMDB, um homem de esquerda, que tem um histórico relevante, que poderia trazer de novo a Câmara dos Deputados ao centro da ética e não da luta fratricida de interesses não tão honrados como vemos hoje.

CC: Mas o PSB pretende lançar novamente um candidato próprio? Repetir a aliança com o PSDB, com o DEM, como na disputa em janeiro?

BA: Vamos tentar encontrar alguém que unifique os princípios e valores não necessariamente de direita ou de esquerda, não é essa a discussão que eu estou fazendo, mas valores históricos, de ilibada conduta e trajetória.

CC: No ano passado, o senhor foi candidato a vice na chapa da Marina Silva, que recentemente fundou a Rede. Vocês ainda mantêm contato?

BA: Eu tenho uma relação pessoal e política com a Marina. É uma pessoa que eu aprendi a admirar e com quem eu convivi nos 45 dias mais importantes dos meus 30 anos de política, que foi a campanha presidencial. Sabíamos que ela tomaria um rumo, que ela só seria abrigada pelo PSB na condição de poder fazer seu partido. Desejamos sucesso à Rede, mas para 2018 o PSB pensa em candidatura própria. Nem tucano, nem petista, mas candidatura própria.

Marina Silva e Beto Albuquerque
Marina Silva e Beto Albuquerque em outubro de 2014: aliança não será repetida no primeiro turno de 2018, diz ele

CC: Não se pretende uma aliança com a Rede em 2018?

BA: Não. Pensamos em propugnar o PSB. Perdemos a nossa maior liderança nas eleições de 2014, o Eduardo Campos. Levamos 24 anos para formar esse líder e, infelizmente, na hora H da disputa, o perdemos para uma tragédia ainda injustificável para todos nós. Então, o PSB não pode perder seu protagonismo. Ele pode demorar a ter um outro Eduardo, mas é possível...

CC: O nome do senhor chegou a ser aventado para a candidatura...

BA: Temos é que continuar exercendo a disputa. O Lula não perdeu três eleições para ganhar a quarta? O PSB tem que seguir no primeiro turno das eleições, é para isso que serve para cada partido expor suas convicções, suas ideias. O PSB terá candidato. Mas essa não é a hora de discutir qual seria o nome. Temos tempo para encontrar outros nomes ou talvez adotar essa solução em torno do meu nome. Vamos ter 15 candidatos próprios em capitais (em 2016). Esses já são passos dados de um partido que em 2018 quer ser uma alternativa a essa polarização que preside o ódio e o ódio não preside solução nenhuma.

CC: A ideia é de uma oposição à esquerda?

BA: A nossa pauta foi uma afirmação de que a solução para o Brasil não é essa guinada à direita que a Dilma e o Levy estão dando. Precisamos afirmar nossos princípios, não nos rendermos a juros como estamos fazendo alegrando a banca. As políticas têm que ser pela esquerda. A crítica é pela esquerda.

CC: Mas o PSB tem aliados que não estão necessariamente à esquerda do PT...

BA: Você está se referindo a São Paulo?

CC: Sim.

BA: Mas é uma aliança. O Brasil tem muitos Brasis dentro dele. As realidades regionais são muito distintas. Agora, no plano nacional há um horizonte só. Quem fez a escolha de governar com conservadores e de permitir com seus erros a volta do discurso conservador é o PT que está no comando do País há 13 anos e não efetivou nenhuma reforma profundamente estrutural que todos nós precisávamos.

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