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A Era do Rádio

por André Barrocal publicado 06/09/2013 13h15
Como Franklin Roosevelt, Dilma aposta nas emissoras de rádio para se aproximar da população - e reverter a queda na popularidade
Agência Brasil
Dilma Rousseff

Dilma, durante entrevista coletiva

O rádio continua sendo um meio de comunicação popular no Brasil, apesar do avanço da tecnologia e da internet. Mas vinha sendo ignorado por Dilma Rousseff. Nos dois primeiros anos de mandato, ela limitara-se a gravar o programa oficial semanal da Presidência, que vai ao ar às segundas-feiras. Entrevistas? Nenhuma. Em 2013, só tinha topado duas. Aí vieram os protestos de junho, Dilma caiu nas pesquisas e foi obrigada a se repensar. E inaugurou uma espécie de “era do rádio” em sua comunicação.

Durante o mês de agosto, a presidenta concedeu 15 entrevistas, considerando todo o tipo de veículo atendido (jornais, tevês etc). Sete delas - ou seja, praticamente a metade - foram exclusivas para rádios, com treze emissoras contempladas.

A ampliação do contato com as rádios obedeceu a uma estratégia formulada por Dilma a partir de conversas com alguns conselheiros. A presidenta precisava reverter logo a queda nas pesquisas, para não atravessar o segundo semestre acuada por um Congresso hostil nem chegar ao ano da reeleição na defensiva.

O rádio é acompanhado por 75% dos brasileiros, segundo uma pesquisa de dezembro de 2010 da Secretaria de Comunicação Social da Presidência. Em entrevistas ao vivo, como é o caso das concedidas por Dilma, permite ao entrevistado falar com o eleitor sem intermediários. O efeito na opinião pública é quase imediato.

A “era do rádio” de Dilma priorizou emissoras dos dois maiores colégios eleitorais do país. A presidenta marcou várias agendas em Minas Gerais e São Paulo e sempre arrumou um tempo para conversar com as emissoras.

A estratégia parece ter funcionado. Dilma subiu em todas as últimas pesquisas. Primeiro no Datafolha, depois no Ibope e agora no Vox Populi, como mostra a nova edição de CartaCapital.

É certo que a “era do rádio” é obra de conselheiros do Palácio do Planalto. Mas teria também inspiração em Franklin Roosevelt, o presidente que tirou os Estados Unidos da crise econômica e social posterior à quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929?

Durante as reuniões pós-manifestações, Dilma ganhou de um de seus conselheiros uma biografia de Roosevelt. O livro se chama Traidor de Sua Classe – a vida privilegiada e a presidência radical de Franklin Delano Roosevelt. É de 2008 e não possui uma versão em português, apenas em inglês.

A obra do historiador H.W. Brands conta, entre outras coisas, como Roosevelt, que governou os EUA de 1933 a 1945, identificou no rádio um aliado. Com o microfone, o democrata acreditava poder se dirigir diretamente à população, contornar jornais alinhados com seus adversários republicanos e se impor perante o Congresso.

Roosevelt tinha essa visão antes mesmo de conquistar a Casa Branca na eleição de 1932. Como governador de Nova Iorque, fez um discurso em 1929 no qual exorta o Partido Democrata a apostar no que era então uma jovem mídia. “Eu acho que é quase seguro dizer que na decisão das pessoas sobre qual partido elas vão apoiar, o que se ouve no rádio conta mais do que o que é impresso nos jornais”. As palavras de Roosevelt, escreveu o autor, “eram boas notícias para os democratas, que na maior parte do país enfrentavam uma cética e até mesmo hostil imprensa republicana”.

O rádio também permitia ao Poder Executivo, na avaliação de Roosevelt, prevalecer ante o Poder Legislativo. Os parlamentares eram (e ainda são) muitos e falam o que querem, mas suas vozes se chocam e produzem cacofonia. Já o governante é uma voz única a se espraiar pelas ondas do rádio. “Um Roosevelt ao microfone”, escreveu Brands, “poderia entrar nos lares de milhões de ouvintes, forjar um relacionamento pessoal que deixava mesmo o mais poderoso congressista em uma irrecuperável desvantagem.”

Isso explica o nascimento das "conversas ao lado da lareira", o programa de rádio inventado por Roosevelt na Presidência. O formato do programa dava a impressão de que ele matinha uma conversa íntima com a população sobre as ações do governo e os problemas do país. Foi um achado que permitiu a Roosevelt tornar-se o único presidente norte-americano eleito quatro vezes. Ele só deixou a Casa Branca morto, em 1945. E foi por causa dele que o Congresso norte-americano acabou com a reeleição infinita.