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A eleição, como fato econômico

por Mauricio Dias publicado 01/10/2011 09h02, última modificação 01/10/2011 18h38
Em 8 anos, os recursos declarados quintuplicaram. Nesse período, ao alcançar o poder, o PT tornou-se o maior arrecadador

Mesmo com o apoio e o prestígio do ex-presidente Lula, a reforma política anda empacada. O problema maior está na diferença de interesse político ente o PT e o PMDB, duas principais vigas de sustentação da base parlamentar do governo Dilma.

O PMDB rejeita o texto do deputado petista Henrique Fontana, relator da proposta, no qual há muitos penduricalhos secundários. Há, porém, na mesa de negociações um ponto fundamental para tornar o processo eleitoral mais democrático, mais competitivo. A questão está inserida no debate entre os que sustentam o financiamento privado e os que lutam pela adoção exclusiva do financiamento público.

É assustador o crescimento de recursos arrecadados para manter uma campanha em condições de vitória conforme mostram os números tabulados pela Transparência Brasil (tabela 1). É o que exige uma sociedade de massa, como no Brasil, onde a população se aproxima da casa dos 200 milhões.

Entre 2002 e 2010, os recursos declarados oficialmente quintuplicaram. Nesse período, ao alcançar o poder, o PT tornou-se o maior arrecadador. Conclusão óbvia: a bandeira política do empresário segue a bandeira de quem está no poder.

Em 2002, na eleição que antecedeu a chegada do PT ao poder, Lula, após disputar três eleições sem sucesso, conseguiu fazer uma campanha rica com recursos da ordem de 21 milhões de reais. O PSDB, com Serra representando a continuidade dos governos tucanos, obteve mais de 34 milhões. Foi a primeira vez que um candidato com menor arrecadação, oficialmente pelo menos, bateu o candidato com menor arrecadação também oficialmente declarada.

A partir daí o destino do PT mudou. O partido, expressão política dos eleitores da base da pirâmide social, migrou, como partido, para o topo da pirâmide, mesmo que isso não correspondesse ao eleitor que o apoiava. É o que mostram os recursos declarados ao Tribunal Superior Eleitoral entre as eleições de 2002 e 2010 (tabela 2)

O que atrai recursos é a projeção das possibilidades do poder chegar ao poder. O PMDB, porém, é um caso à parte. Em 1989, apresentou Ulysses Guimarães como candidato à Presidência. O partido, no entanto, sacrificou o candidato e mergulhou na aventura da candidatura Collor para derrotar Lula ou Brizola: o Brizula.

Mesmo assim, o partido sempre esteve próximo, muito próximo, dos maiores arrecadadores das três últimas eleições mesmo sem ter candidato próprio à presidência. Isso é explicável pela força do partido no Congresso e nas prefeituras. Para sustentar isso basta observar o que aconteceu em 2010 (tabela 3). O partido aliou-se ao PT e manteve arrecadação financeira muito próxima dos dois principais competidores.

O mesmo não acontece com o DEM que, em 2002 e 2006, adotava o nome de PFL.  Em 2002, quando foi a principal força auxiliar da candidatura tucana, superou a arrecadação do PMDB e praticamente empatou com o PT que, ao fim, ganharia a eleição.

É importante acompanhar a extraordinária evolução do PT a partir do momento em que o partido entrou no jogo. Dos 95 milhões de reais que sustentaram a vitória de Lula sobre Serra, em 2002, o partido saltou para 117 milhões em 2010 quando, então, Dilma -superou o mesmo Serra.

O dinheiro sempre presidiu a competição eleitoral. Mas a  forma do predomínio do dinheiro tem mudado ao longo do tempo. Era mais dissimulado. Hoje é mais ostensivo. Por isso, há muito tempo, a eleição tornou-se um fato mais econômico do que político. O candidato, no caso da eleição proporcional, ou o partido, quando se trata da eleição presidencial, disputa primeiro o dinheiro para, depois, disputar o voto.

Andante Mosso: Notas sobre os principais acontecimentos da semana

Esqueleto turístico I

Parece ter chegado ao fim uma das mais longas batalhas judiciais do País.

O objeto da discórdia é o Gávea Tourist Hotel, no Rio de Janeiro, construção inacabada (foto) encravada nas encostas do bairro de São Conrado, uma das mais valorizadas áreas da cidade.

O esqueleto foi adquirido, em leilão, por 29 milhões de reais por uma empresa de Brasília, no dia 26 de setembro.

Esqueleto turístico II

A obra, iniciada em 1953, foi adquirida, em 1972, pelo Lume, grupo dirigido pelo ex-ministro Roberto Campos e por Álvaro Americano, um influente socialite carioca.

“Era um cipoal falimentar tenebroso”, diz o advogado Fredímio Biasotto Trotta, que, com o irmão, comandou uma batalha travada em mais de 40 processos.

O final feliz, sob o protesto de milionários com mansões no local, foi facilitado pelos eventos que
o Rio sediará em 2012 (Copa do Mundo) e 2016 (Olimpíadas).

Democrata verde-oliva

Eduardo Portella, da Academia Brasileira de Letras, desandou falação sobre a democracia “na baixa modernidade”.

Nesse contexto, inseriu o Brasil, onde o sistema estaria “operando no vermelho”, porém, não determinou desde quando isso ocorre.

Especulo: possivelmente, após o golpe de 64, quando defensores da democracia, como ele, se tornaram serviçais da ditadura civil-militar.

Portella chefiou o Ministério da Educação a serviço do general-presidente João Batista Figueiredo.

Sanitários entupidos

O Tribunal de Contas adotou restrições sobre os convênios para montar a infraestrutura dos Jogos Mundiais Militares, realizados, em julho, no Rio de Janeiro.

Foram firmados entre as fundações Ricardo Franco e Roberto Trompowski e o Instituto de Fomento e Inovação do Exército.

As dúvidas são os desentupidores de vasos sanitários.

Somente a Escola Superior de Guerra comprou 3 mil deles, por 6,10 reais cada um, para atender às necessidades da Escola no apoio aos jogos.

Prevenção exagerada. Afinal, nosso pessoal se saiu muito bem na competição.

Devagar, sempre

Não se deve esperar rapidez do ministro Joaquim Barbosa no julgamento do processo do chamado “mensalão”, previsto para os primeiros meses de 2012.

Dados da Transparência Brasil mostram que ele e os ministros Marco Aurélio Mello e José Antonio Dias Toffoli acumulam, em conjunto, 50% dos quase 65 mil processos sem resolução no Supremo Tribunal Federal.

Barbosa e Mello são historicamente mais lentos do que seus pares. Toffoli entra na lista porque herdou mais de 10 mil processos do antecessor.

Queda positiva

Estudo do Ipea mostra que, entre julho de 2003 e julho de 2011, o número de pessoas ocupadas com rendimento médio mensal, per capita familiar, de até meio salário mínimo baixou de 17 milhões para 12,8 milhões (gráfico) nas seis principais regiões metropolitanas do País.

A mobilidade social significa uma queda de quase 25% no tamanho da população ocupada de baixa renda.

Nessas regiões – São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte e Salvador, a queda na taxa de pessoas ocupadas em situação precária variou de 41,9%, para 27,1%.

É a distribuição de renda, estúpidos.

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