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Política

Eleições 2014

A disputa pelo voto do 'irmão' evangélico no Rio

por Marsílea Gombata publicado 21/09/2014 10h06
Como os candidatos se desdobram para conquistar evangélicos, que representam quase um terço do eleitorado estado fluminense
Inácio Teixeira / Coperphoto
Anthony Garotinho

Anthony Garotinho durante ato de campanha em São Gonçalo, na quinta-feira 18

Botão Eleições 2014Do Rio de Janeiro

"Vai com Deus, irmão". “Obrigado, fica com Deus”. “Deus te ouça, nós vamos chegar lá”. “Vem aqui receber um beijo do bispo!". As frases poderiam ser parte do final de um culto religioso, mas têm um contexto bem específico: a campanha eleitoral que busca abocanhar 28,53% (4,69 milhões) dos eleitores do estado do Rio de Janeiro, percentual de evangélicos no terceiro maior colégio eleitoral do País.

Em uma manhã ensolarada de setembro, o candidato ao governo do estado pelo PRB, Marcelo Crivella, caminhou na feira da praça General Osório, em Ipanema, distribuiu DVDs com propostas, santinhos, sorrisos, fotos e um pedido: “A senhora não vai me trair com o Pezão, não, né?”. Provavelmente não. Fã do ex-senador que foi ministro da Pesca e cantor gospel, dona Maria da Penha Borges, 59 anos, é da Igreja Internacional da Graça de Deus. Decepcionada com o DVD de propostas distribuído pelo candidato, sobrinho do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, ela queria ouvir mensagens de fé e louvor na voz de Crivella. “É isso que o povo está precisando”, diz a moradora de Campo Grande, zona oeste do Rio, que trabalha como doméstica na elitista zona sul carioca.

Crivella, no entanto, não é o único candidato evangélico na disputa. Seu rival Anthony Garotinho (PR) também é protestante, o que leva alguns eleitores mais religiosos a ficarem indecisos sobre quem seguir nas urnas no dia 5 de outubro, primeiro turno da eleição. “Estava na dúvida entre Garotinho e Crivella, mas vejo o trabalho dele e gosto mais. Ele sabe o que faz”, afirma Marli Andrade, 60 anos, que trabalha como autônoma fazendo sabão em Bangu, onde vive. Ela conta fazer parte da Assembleia de Deus, mas jura de pé junto que seu credo não tem a ver com a opção política para este ano. “Não é por causa da igreja que vou votar no Crivella, é porque vejo muitos por aí que não fazem nada, principalmente na zona oeste, onde moro”.

Na conversa entre o candidato pelo PRB e os eleitores que passam pela praça, as duas primeiras perguntas – “Qual é o seu nome?” e “Onde você mora?” – vêm seguidas por uma espécie de bênção: “Vai com Deus, dona Eugênia” e “Obrigada, irmão”, como se quem passasse por ali esperasse um “pastor”, não um político. “Só tenho confiança em votar nele mesmo”, confessa o aposentado Joaquim Raimundo, 70 anos, que se apressou para conseguir um beijo do bispo Crivella para o neto. “Voto nele por ser um ficha limpa e também por ser da Universal, da qual faço parte há 20 anos”.

A escolha por uma figura conhecida religiosamente pesa mais dentre os evangélicos, segundo o cientista político Cesar Romero Jacob. De acordo com o professor da PUC-Rio, a lógica que seguem esses eleitores é distinta do jeito de se pensar política tradicionalmente. “O voto aqui não é na política. Os evangélicos não estão votando em questões como a autonomia do Banco Central, não está em questão a agenda política. É o princípio do ‘irmão vota em irmão’”.

Apesar da mensagem de fé que joga aos eleitores em potencial, Crivella nega que a religião influencie a política nos dias de hoje. “Hoje em dia não. A gente precisa realmente verificar um projeto, verificar a ficha do candidato. Essa coisa de irmão votar em irmão não pode ser desculpa para se eleger um irmão que muitas vezes não precisa ser eleito, mas sim de uma lição para não ser reeleito”, disse o ex-ministro, em aparente alusão ao rival Garotinho, da Igreja Presbiteriana.

Crivella (na foto abaixo, em campanha em Ipanema) acredita, no entanto, ser natural que seus eleitores esperem dele a palavra de Deus. “As pessoas me conhecem não há 15, mas há 30 anos como cantor gospel. É natural que quisessem me ver distribuindo CD de música de louvor, mas eu não posso nessa época”, explica o bispo que largou na corrida empatado com Garotinho com 25% das intenções de voto, mas agora luta para recuperar seis pontos percentuais perdidos em parte para o atual governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Marcelo Crivella

Líder na disputa pelo governo do Rio de Janeiro, Garotinho também nega uma campanha eleitoral específica para angariar votos evangélicos. Segundo ele, a prática do “irmão vota em irmão” está em desuso dentre a maior parte dos evangélicos e, por isso, garante não fazer nenhuma ação especial. “Às vezes entregamos algum documento no qual passamos reafirmando nossas convicções para quem estiver nas igrejas, mas nada além disso”, afirma. O candidato classifica, inclusive, como prejudicial a tentativa de se misturar política e religião. “Eu defendo o Estado laico, essa é nossa bandeira. Misturar política e religião não serve à democracia. Atrapalha muito, aliás”.

Mas o discurso do ex-governador (1999-2003) e atual deputado federal, cuja trajetória tem início em Campos dos Goytacazes, contrasta com sua própria campanha. No início da corrida eleitoral, nove meses antes do pleito, o candidato começou a organizar um cadastro online para distribuir brindes aos fieis evangélicos no qual dizia: “Ficamos combinados assim: eu oro por você e você ora por mim”. Na peça, Garotinho se autodenominava como “intercessor” e prometia dar a cada inscrito um kit com livro, camiseta e carteirinha personalizada com a sua foto. O pacote trazia ainda uma carta de boas-vindas assinada pelo “irmão Garotinho”.

Radialista e ex-aliado do governador Luiz Fernando Pezão e de Sergio Cabral, Garotinho também mantinha um programa em emissoras AM no qual misturava orações e sorteio de presentes como geladeiras e máquinas de lavar. O programa de rádio e o cadastro de fieis eleitores foram vistos pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio como campanha antecipada e tornaram-se alvo de ação do Ministério Público, que exigiu o pagamento da multa de 5 mil reais diários caso a distribuição de brindes continuasse antes do prazo legal, três meses antes do primeiro turno.

Situação semelhante se passou com Crivella, que em junho foi impedido de distribuir brindes, como CDs e exemplares do jornal Folha Universal em cultos de sua igreja, correndo o risco de ter de pagar multa diária de 25 mil reais.

De acordo com o último censo do IBGE, com 4% de espíritas, 45,8% de católicos e 28,53% de evangélicos de um total de 16,46 milhões de habitantes, o Rio de Janeiro é um dos três estados, ao lado de Rondônia e Roraima, onde os seguidores do Vaticano não são maioria. Nele, a recém-chegada à corrida presidencial Marina Silva (PSB) tem cerca de 36% das intenções de voto, segundo o último Datafolha, contra 30% da presidenta Dilma Rousseff (PT). A capital possui atualmente 23,37% de evangélicos. O quadro inteiro é reflexo do aumento do número de evangélicos em todo o Brasil: em dez anos, o número de seguidores no Brasil cresceu de 6,8% em 2000 para 22,2% no ano de 2010.

As campanhas eleitorais de candidatos como Crivella e Garotinho, explica o professor de teoria política Antonio Carlos Alkmim, funciona em duas frentes diferentes. Quando o interlocutor não é evangélico, os políticos escondem o fator religião. Mas quando falam a esse eleitorado específico, buscam ressaltar essa característica ao máximo. “Existe uma preocupação em fazer essa distinção. Eles tratam a base evangélica de forma diferenciada”, explica, ao ressaltar que em alguns momentos o discurso evangélico chega a se sobrepor à apresentação das propostas. “É o ser evangélico que está falando em primeiro lugar”.

Autor do livro De Brizola a Cabral, de Collor a Dilma – A Geografia do Voto no Rio de Janeiro de 1982 a 2010, Alkmim explica ainda que enquanto Garotinho apresentou nas eleições passadas um melhor desempenho no interior do Rio de Janeiro, em especial no norte fluminense, onde fica Campos dos Goytacazes, Crivella foi melhor na capital e tem um eleitorado mais pulverizado nas outras regiões.

A disputa pelos “votos irmãos”, em geral, é tão específica e direcionada que os outros dois principais candidatos na disputa pelo Palácio Guanabara não evangélicos parecem não gastar muito tempo tentando angariar esses votos. “Há pastores que me respeitam, que poderiam votar em mim. Só que as circunstâncias dessas eleições com dois candidatos evangélicos mudaram meu foco: sei que de 100 evangélicos que converso, estou disputando dez votos”, conta o petista Lindberg Farias, senador e ex-prefeito de Nova Iguaçu, quarto colocado nas pesquisas, com 12% das intenções de voto. “Se o cara não é Garotinho, é Crivella. Se não é Crivella, é Garotinho. Acaba sobrando muito pouco para mim. Eu sempre fiz muita agenda visitando igrejas evangélicas, mas diminuí porque achei que fosse ser em vão”.

Segundo colocado nas pesquisas e tecnicamente empatado com Garotinho, o candidato à reeleição Pezão diz não crer em um voto segmentado dos evangélicos, mas se mostra satisfeito com o apoio de figuras como o presidenciável Pastor Everaldo (PSC) em sua coligação. “Tenho também muitos pastores evangélicos me apoiando, grandes pastores, como Abner Ferreira da Assembleia de Deus e Serafim de Souza da Ceader (Convenção Evangélica das Assembleias de Deus do estado do Rio de Janeiro). O Arolde de Oliveira, da Radio Melodia, radio evangélica mais forte do Rio, também me apoia”, diz.

Em seu discurso, Pezão afirma não ser “salutar” misturar política e religião, mas, como todo candidato hoje, não tem outra opção senão se render ao eleitorado evangélico. “Sempre faço eventos com eles. Temos uma ótima ligação”.