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Política

Sinal dos tempos

A crise europeia chega ao futebol

por Fernando Vives — publicado 06/09/2011 11h26, última modificação 06/09/2011 17h31
Os campeonatos de Inglaterra, Espanha e Itália, que já foram exemplos, parecem ver suas fórmulas esgotarem

O próximo sábado 10 deve marcar o início do Campeonato Italiano de futebol após semanas de greve dos jogadores, que não se entendiam com os clubes sobre as condições trabalhistas. Com isso, todos as grandes competições do continente terão começado na temporada 2011/2012. O problema é que a crise financeira cada vez mais escancara que os modelos do futebol europeu precisam ser revistos.

Tomemos os três grandes campeonatos da Europa, o inglês, o espanhol e o italiano, como exemplos.

Inglaterra: o falso sucesso com pitada neoliberal
A Premier League inglesa era até bem pouco tempo o exemplo a ser seguido em qualquer país que tenha uma liga de futebol que foque em ser rentável. Refundada em 1992 após anos de mortes em estádios por conta das más condições dos palcos de futebol e brigas de torcidas, naquele ano passou a ser gerida pelos próprios clubes e não mais pela federação de futebol nacional. Até o fim dos anos 1990, os clubes ingleses aumentaram consideravelmente os lucros e voltaram a disputar os títulos da Liga dos Campeões, a principal competição europeia. Na década seguinte, alçaram a Liga Inglesa à condição de melhor do planeta, com os maiores salários e boa parte dos melhores jogadores. Manchester United, Chelsea, Arsenal e Liverpool passaram a ter a maior fatia de seus elencos de jogadores convocados por suas seleções nacionais.

A Liga Inglesa colocava em campo uma espécie de modelo neoliberal, na qual os próprios clubes controlavam o espetáculo, vendiam suas marcas e negociam a cota para a transmissão de tevê. O mundo passou a copiá-los. Só que as coisas não iam tão bem assim como pareciam.

Primeiro, para afastar as brigas entre torcedores e aumentar os lucros, os gerentes da Premier League aumentaram muito o valor dos ingressos. Ver o futebol no estádio tornou-se um programa de classe média alta até para os padrões britânicos. E os problemas não param por aí.

Como a lei britânica é conivente e os organizadores da Premier League pouco se importam, magnatas passaram a comprar clubes de futebol para fazer deles seu bibelô pessoal e angariar prestígio. Daí para a lavagem de dinheiro é um pulo. O russo Roman Abramovich foi um dos pioneiros ao comprar o Chelsea no início da última década. Alçou o clube londrino da condição de médio para um dos mais fortes. Abramovich, que construiu fortuna sobre o petróleo na Rússia em condições suspeitas, é visto como um “vencedor” por muita gente no País. Em sua esteira vieram outros: o bilionário egípcio Mohamed Al Fayed comprou o Fulham. O ex-premiê tailandês Thaksin Shinawatra, que depois caiu por denúncias de corrupção, comprou o Manchester City, posteriormente vendido ao Abu Dhabi United Group, conglomerado dos ricaços dos Emirados Árabes com foco no petróleo.

Entre os principais anunciantes da Liga Inglesa estão casas de apostas. O futebol inglês segue rico, mas na mão de quem está este dinheiro? Paralelamente, os pobres veem o campeonato pela tevê.

Espanha: aos gigantes, tudo. Aos outros, a crise
A situação espanhola é até pior que a inglesa. Quem acompanhava a liga do país nos anos 1990 se recorda sempre dos duelos entre Real Madrid e Barcelona, mas tem também boas lembranças do Atlético de Madri, La Coruña e Valencia, ao menos, equipes que eventualmente surpreendiam os dois gigantes.

No entanto, de 2004 para cá, só dá Real e Barça. A diferença de tamanho de ambos para os demais passou da categoria “grande” para “abissal”: a dupla tem direito a metade da cota de transmissão de tevê e ganha tudo de lá para cá. A outra metade é dividida entre os demais clubes que, nestes tempos de crise, têm extrema dificuldade para conseguir um patrocinador, regional que seja. Na primeira rodada da Liga 2011/12, o Real Madrid enfiou 6 a 0 no Zaragoza fora de casa. O Barça goleou o Villarreal, quarto colocado do último campeonato, por 5 a 0. Revoltado com a discrepência, José Maria del Nido, presidente do Sevilla (outro importante clube médio da Espanha), declarou que o futebol do país “é a maior porcaria da Europa, talvez a do mundo”. A médio prazo, a ausência de competição no campeonato espanhol tem tudo para causar um estrago profundo.

Itália: O coma técnico continua
O futebol italiano viveu uma forte crise no início dos anos 1980. Escândalos de manipulação de resultados estouraram no país, clubes importantes foram rebaixados à segunda divisão e dirigentes e jogadores foram presos. Mas  esta crise deu impulso para a modernização do futebol italiano, que em poucos anos passou a ter os principais jogadores do planeta, os clubes mais fortes e uma liga muito competitiva.

O problema é que, com a ascensão dos campeonatos inglês e espanhol nos anos 1990, o Calcio não se modernizou e teve sua importância reduzida. Os clubes italianos foram aos poucos perdendo espaço na Liga dos Campeões. O único que se destacava era o Milan, do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, que vivia do mecenato de seu dono. O caso de Berlusconi virou tendência: vários milionários compraram os clubes, e alguns deles faliram, como foi o caso da família Cragnotti, na Lazio, e de Franco Sensi, na Roma, na virada dos anos 1990 para os 2000.

A partir daí virou uma bagunça: até Muammar Kaddafi andou investindo na Juventus e no Peruggia (o filho do ditador líbio chegou a jogar por este último). Novos escândalos de compra de resultados e manipulação de arbitragem relacionadas a casas de apostas estouraram em 2006. Hoje o Campeonato Italiano é pouco mais que um produto para divertimento dos próprios italianos.  Este ano, o campeonato começa atrasado por conta de uma greve dos jogadores.

Em meio a tanta orgia de dinheiro, a única luz no futebol europeu de primeiro nível parece ser a Bundesliga, liga alemã. A lei germânica dificulta que investidores usem clubes de futebol para lavar dinheiro, o que evita a entrada de magnatas em um ramo que não é o deles. Os preços de ingressos para as partidas é bastante honesto para a classe média baixa e, nos estádios, é ainda possível beber cerveja e levar bandeiras e faixas, o que não ocorre, por exemplo, na Inglaterra. Claro que ter uma economia forte, que sofreu menos com o impacto da crise financeira atual, ajuda a Bundesliga a estar equilibrada. Mas a estratégia de não deixar o futebol nas mãos erradas e manter o povo nos estádios parece ser um toque social democrata que a Alemanha dá ao futebol. Que vire tendência pelo mundo.

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