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Editorial

A Copa do Mundo é nossa, mas...

por Mino Carta publicado 13/05/2011 13h36, última modificação 13/05/2011 13h42
O Brasil pagaria muito caro por Mundial mal organizado. Se aqui experimenta-se a inveja do estrangeiro, lá pelo Velho Mundo invejado é o brasileiro. Um Mundial mal organizado causaria estrago muito maior do que se possa imaginar à nossa imagem. Por Mino Carta

Uma rápida viagem ao exterior que me levou a Roma, Milão e Paris induz a duas reflexões. Uma diz respeito à imagem do Brasil. Outra, ao Mundial de futebol a ser realizado aqui dentro de três anos. Começo pela segunda, precipitada pelas condições do meu retorno ao País, no trajeto entre o aeroporto de Guarulhos e a minha casa.

Pelo caminho, os meus botões suspiraram perplexidade. Flash-back. O avião pousou às 5h05 da manhã. Logo debandei na esperança de evitar fila na hora de mostrar o passaporte e com este intuito ultrapassei senhoras gordas e crianças. Entredentes, enquanto percorria aqueles intermináveis quilômetros de corredores apertados como o labirinto de Creta, lancei anátemas contra um aeroporto dramaticamente obsoleto e tão inflexível na rejeição de esteiras e navettes. Sugerem meus botões, não sem bonomia, que poderia ser aproveitado para o treino de fundistas, com o adendo de uma melancólica consideração: as Olimpíadas ficaram para o Rio. Não se apoquentem, contudo: do ponto de vista da obsolescência, o Galeão não brinca em serviço.

A despeito do meu razoável desempenho na marcha forçada, a fila na sala da vistoria dos documentos imitava sendas alpinas e invejei os estrangeiros, alinhados em uma fila bem menos atrevida. Um funcionário inspirado conseguiu complicar as coisas ao mudar a posição das fitas que serpenteiam naquele espaço, absurdamente mirrado, para disciplinar (?) o movimento. Alcancei a esteira rolante à espera da minha mala uma hora depois do pouso. Cabem objeções quanto às próprias esteiras. Elas também se encaixam em um processo de encolhimento à beira da miniaturização, responsável pela queda frequente das malas malpostas ou mais pesadas, gesto deliberado das próprias, insinuam os botões, em sinal de protesto.

Viajo de executiva, donde minha mala ser munida de uma tarjeta amarela, a indicar prioridade. Em Guarulhos, ao contrário do que acontece mundo afora, verifiquei que a indicação perde qualquer valor. A não ser que eu fosse cardeal. De fato, monsenhor Claudio Hummes, meu companheiro de voo, ao alcançar a esteira já tinha sua bagagem separada e foi embora lépido. Eu esperei 45 minutos. Os botões registram: aqui o Brasil é diferente do que em outros cantos do território nacional, todos são iguais mesmo. “E o cardeal, e o cardeal?”, pergunto enfático. Riem, talvez pretendam ser irônicos.

Cheguei a outra fila, a do táxi, depois de 1 hora e 50 minutos de aeroporto e logo mergulhamos na bolgia (uso a linguagem dantesca) da Marginal do Tietê. Aportei à minha residência às 8 horas. Suponho que na sua maioria os aficionados que virão a São Paulo por ocasião do Mundial não sejam altos prelados da Igreja Católica, ou de outra qualquer. De sorte que, se a situação não mudar, sofrerão um bocado, sofrerão demais. Não creio que as condições de acolhida em outras cidades-sede dos Jogos sejam melhores no momento do que em São Paulo. E os estádios? E as acomodações? Tudo atrasado, solfejam, sinistros, os botões.

A outra reflexão se segue por claras razões, como será provado. Pelos lugares em que andei, muito representativos da Europa, fala-se do Brasil com grande admiração. “Os europeus estão mais bem informados do que nós”, comenta impassível um amigo, para deleite dos meus chistosos botões. De todo modo, o país do futebol e do carnaval foi deixado para trás pelo -país de Lula, do pré-sal, do crescimento econômico, da política exterior independente-, da presidenta que vai seguir as pegadas do -antecessor. Nunca o Brasil esteve tão presente- no noticiário da mídia europeia, a qual, até ontem, costumava ignorá-lo.

Poupo os leitores de obviedades sobre a importância da imagem. Se no retorno à terra, ao menos em Guarulhos experimenta-se a inveja do estrangeiro, lá pelo Velho Mundo invejado é o brasileiro. Um Mundial mal organizado causaria estrago muito maior do que se possa imaginar. Os botões insistem em apontar em Ricardo Teixeira e Joseph Blatter motivos suficientes de preocupação quanto ao desfecho da operação. Sustentam até que Totò Riina e Bernardo Provenzano não desfigurariam caso chamados a integrar a equipe. Eu baixo a bola ao limitar-me a dizer que o Brasil pagaria caro por um Mundial desastrado.

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