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Política

A calúnia, a grande mídia e as eleições 2010

por Coluna do Leitor — publicado 26/10/2010 10h55, última modificação 26/10/2010 16h30
O Pe. Paulo Cesar Nunes de Oliveira compara os episódios ocorridos na disputa presidencial com a trajetória da morte de Jesus

Por Pe. Paulo Cesar Nunes de Oliveira

A trama dos últimos episódios das eleições presidenciais relembra o trajeto iconográfico da morte de Jesus. O filho do carpinteiro foi julgado por dois tribunais: um judaico e um romano. No primeiro, foi acusado e condenado por blasfêmia. A pena seria o banimento da comunidade. Mas seus algozes queriam a sua morte. Por isso, recorreram ao Pretório, o tribunal romano.

Recusadas as acusações por falta de provas, apelaram para a calúnia gritando em alta voz: “Ele disse que não devemos pagar o imposto a Cezar”. Foi a bala de prata. Pilatos, mesmo convicto da inocência do acusado, por covardia e medo proclamou: “é réu de morte”.

 O julgamento de Jesus é iníquo: ele não teve direito de defesa. Não foram arrolados em seu processo a sogra de Pedro, os leprosos, a mulher pecadora salva da morte por apedrejamento, os que tiveram o pão multiplicado e tantos outros beneficiados por suas ações. Somente seus acusadores puderam testemunhar. Decisivo, porém, foi a linguagem dúbia e da trama caluniosa.

 A uma semana das eleições, a grande mídia parece ter copiado a estratégia dos carrascos de Jesus. Jornais, TVs e revistas se alinharam como “um exército em ordem de batalha”. Fabricam notícias, elaboram denúncias, manipulam imagens, distorcem realidades. Acusa, julga e condena. Não existe direito de defesa, de resposta. Não há um confronto de versões. Só se ouve um lado: o acusador. A internet, uma promessa de debate, transformou-se no veículo de maior disseminação de calúnias. A cada dia, milhares de e-mails anônimos circulam pela rede, carregados de informações duvidosas.

 A maneira que a grande mídia tem se comportado é extremamente perigosa. Seus donos querem, a todo custo, eleger o próximo presidente da República. Mesmo que para isso tenham que lançar mão dos mais espúrios argumentos. Por isso, manipulam e ditam os rumos do debate eleitoral colocando temas que favorecem ao seu grupo político. Apoiada no discurso da liberdade de expressão, a grande mídia está impondo uma nova forma de ditadura. O cenário me lembra o Chico: “atordoado eu permaneço atento, na arquibancada pra a qualquer momento, ver emergir, o monstro da lagoa”.

 Os eleitores estão confusos. Tenho visto pessoas com boa capacidade crítica que não estão sendo capazes de discernir diante do grande volume de informações que recebem. Munidos de boa fé, alguns passaram a acreditar que a grande mídia foi concebida sem pecado original, sendo pura, casta e incorruptível. Alguns estão seguros que tudo o que é veiculado é certo e verdadeiro. Crêem nos e-mails com denúncias anônimas, nos vídeos montados, nas imagens manipuladas, muitas vezes, grosseiramente.

 O discurso de religiosos que passaram a surfar na crista da onda fortaleceu os argumentos midiáticos. Contudo, seria interessante ouvir dos defensores “da moral e dos bons costumes” o que eles pensam do padrão de família apresentado pelas novelas da Globo, dos valores do BBB, da erotização precoce das crianças. E mais: como eles se sentem quando a grande mídia massifica os escândalos da pedofilia, taxam pastores de desonestos ou colocam seus cientistas de jalecos brancos para dizer que a fé é algo irracional e arcaico. Estariam os grandes meios dizendo também a verdade?

É preciso fazer uma pergunta sensata: a quem serve a grande mídia? Quais são seus interesses? Quais são as intenções das informações que são ou não publicadas? Não se trata de descartar a da liberdade de expressão. Mas não nos enganemos: estão em jogo milhões em contratos publicitários. É isso que eles não querem perder. Se a verdade não convenceu, vale a calúnia.

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