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Opinião

A balada de Kim Kataguiri

por Leandro Fortes — publicado 28/05/2015 22h15, última modificação 29/05/2015 09h38
Nas passeatas de março e abril, eternizadas por multidões vestidas com camisas da CBF aos gritos de “vai pra Cuba!”, Kim tornou-se líder prematuro do neo anticomunismo
Câmara dos Deputados
Manifestação em Brasília

Manifestação em Brasília: feita uma soma generosa, apareceram umas 300 pessoas para receber Kim

Em meio à histeria ideológica que se estabeleceu como agente político no contexto de passeatas nacionais mais ou menos frustradas, o reacionarismo antipetista regurgitou uma liderança improvável: o jovem Kim Kataguiri, um ex-estudante de economia de 19 anos, um foragido da faculdade sob alegada justificativa de que os professores, vejam só, sabiam menos do que ele.

Nas passeatas de março e abril, eternizadas por multidões vestidas com camisas da CBF aos gritos de “vai pra Cuba!”, Kim tornou-se um líder prematuro do neo anticomunismo rastaquera da classe média paneleira nacional. Claro, com a conivência da mídia e de certa oposição ultraconservadora que vislumbrou na possibilidade do impeachment da presidenta Dilma Rousseff uma solução rápida para um mal de 13 anos: a ausência de votos.

Essa mistura de mídia conservadora com anseios golpistas, sabe-se, não é novidade alguma. Trata-se de um modelo udenista mais do que manjado.

Nem tampouco é novidade que dessa miscelânea despontem pessoas assim com status de liderança para, justamente, esconder quem realmente os controla e financia, a saber, os pilares de sempre do atraso pátrio, o grande capital rentista e o latifúndio.

O pequeno Kim é apenas parte dessa patética fauna de sociopatas convocados para a defesa da Pátria.

Absortos na fantasia de serem parte de um grandioso projeto nacional – o impedimento da presidenta da República –, Kim e seus camaradas organizaram-se em uma caminhada pretensamente cívica e a ela deram um nome solene: Marcha da Liberdade.

A ideia era reunir patriotas em torno de uma empreitada épica e cruzar os mais de mil quilômetros que separam a capital paulista de Brasília, no Planalto Central do Brasil.

Diante de um chamado desta monta, era mais do que óbvia a adesão de milhares de cidadãos e cidadãs indignados com a corrupção e os desmandos dos governos do PT. Tomariam, pois, as estradas, formariam um oceano verde amarelo sobre o asfalto e, enfim, entrariam triunfantes na Capital Federal, se possível, nos braços do tucano Aécio Neves, o quase-presidente.

Daí, seria uma questão de tempo até tirar a usurpadora do Palácio do Planalto e dar início a uma nova era com Michel Temer na Presidência.

Mas algo deu terrivelmente errado.

Nunca se soube e, provavelmente, nunca se saberá, quantas pessoas participaram, de fato, da tal marcha. É certo que, com base nas informações mais otimistas, esse número nunca passou de duas dezenas.

Como à mídia nunca interessou mostrar a andança, também muito pouco, ou quase anda, soube-se do roteiro e da rotina da intrépida coluna.

Soube-se apenas, por declarações de Kim, que a marcha se desenvolveu ao ritmo de, ora 20 quilômetros, ora 40 quilômetros ao dia, a depender do clima, do ânimo e da capacidade física dos andarilhos.

Um cálculo básico, feito a partir de uma média tomada à caserna, de 4 quilômetros a cada uma hora de marcha, revela que a caminhada liderada por Kim foi tão verdadeira como a intenção de muitos de seus seguidores em fazer uma intervenção militar a favor da democracia.

Como os marchantes da liberdade alegaram ter percorrido de 20 km a 40 km por dia, na primeira hipótese, o grupo anti-Dilma gastaria, em média, 5 horas por dia para percorrer 20 km.

Restariam 19 horas para descanso, necessidades fisiológicas, atividades lúdicas, leitura de apostilas da Escola Superior de Guerra e de livros do astrólogo Olavo de Carvalho.

Na segunda hipótese, os marchantes andariam 40 km, numa média de 10 horas de caminhada diária pelas estradas de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal.

Como é bem provável que muitos desses rebeldes pró-impeachment nunca tenham caminhado 10 horas em um mês inteiro, melhor centrar na primeira hipótese, já bastante difícil de acreditar: 5 horas de marcha, 20 km por dia.

Assim, em 24 de maio, 30 dias depois de a marcha ter deixado São Paulo, quando Kim e uma companheira de luta foram atropelados a 5 quilômetros de Alexânia, em Goiás, a trupe deveria ter percorrido 600 quilômetros.

Faltariam, portanto, quase 500 quilômetros até Brasília.

Ocorre que Alexânia fica a apenas 80 quilômetros da capital federal. Logo, Kim, ao ser abalroado por um motorista bêbado, estava a somente 85 quilômetros de seu destino.

Ou seja, do nada, sumiram da rota coisa de 400 quilômetros.

Das duas, uma: ou o Jaspion da TFP usou superpoderes para teletransportar a tropa em alguns trechos, ou, como mais do que se desconfia, os marchantes da liberdade passaram mais tempo em carros e ônibus de apoio do que, propriamente, com o pé na estrada.

Quando, finalmente, chegou em Brasília, Kim Kataguri caiu na real.

Na verdade, já tinha caído antes, quando, no meio da peregrinação, foi informado que Aécio Neves, o líder da resistência que nunca foi às manifestações, desistira de pedir o impeachment de Dilma.

Na capital federal, Kim tomou chá de cadeira para ser recebido pelas lideranças da oposição, até conseguir fazer um selfie com dois baluartes progressistas do Congresso Nacional, os deputados do PSC Marco Feliciano, profeta da cura gay, e Eduardo Bolsonaro, cria do próprio, com quem aprendeu a defender a ditadura, a tortura e redução da maioridade penal.

A mídia e parte alucinada da oposição haviam prometido a Kim reunir, numa apoteose revolucionária, 30 mil pessoas em Brasília.

Entre manifestantes e curiosos, feita uma soma generosa, apareceram umas 300 pessoas para receber Kim e seu triste Exército de Brancaleone em frente ao Congresso Nacional.

Não foi de todo mal.

Vai que, depois dessa, o moleque se anima a estudar de novo?