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Política

Entrevista - Chico Alencar

“Temos expectativa de que esse governo seja melhor”

por Piero Locatelli — publicado 30/10/2014 05h45
O deputado Chico Alencar diz que o PSOL deve manter “oposição programática e de esquerda” e que Dilma precisa ter “nova postura”
Divulgação

No segundo turno destas eleições, a bancada do PSOL na Câmara dos Deputados anunciou “voto crítico” na candidatura de Dilma Rousseff (PT) após o partido decidir que não daria "nenhum voto" a Aécio Neves (PSDB). Passadas as eleições, os deputados do PSOL devem se distanciar do apoio à presidenta e voltar a fazer uma “oposição programática e de esquerda”. Em entrevista a CartaCapital, o deputado federal Chico Alencar (PSOL) disse que o partido deve manter a postura mantida durante o primeiro mandato de Dilma. “[A presidenta] não tem nenhum compromisso em cumprir a nossa pauta, assim como nós não temos nenhum compromisso, derivado do voto, em apoiá-la,” diz o deputado. “Mas a gente não está achando que foi um voto que não significou nada. Temos a expectativa que se avance, que esse governo seja melhor que o primeiro, como ela prometeu.”

Leia abaixo trechos da entrevista feita por telefone com a CartaCapital:

CartaCapital: A bancada do PSOL na Câmara declarou “apoio crítico”  a Dilma no segundo turno desta eleição. A partir de agora, como será a postura em relação ao governo dela?
Chico Alencar: O nosso apoio crítico não significa vinculação nenhuma com o governo, participação ou demanda de cargos, nada disso. Nós temos a expectativa de que o governo avance na reforma política, tal como a presidenta já sinalizou. Para nós, é uma prioridade. E também [que ela tenha] maior abertura às demandas dos movimentos sociais, sem terras, sem tetos, atingidos por barragens, quilombolas, povos indígenas. Se a Dilma começar a caminhar no sentido do pronunciamento dela em junho de 2013, quando falou que o clamor era para que os governos ouvissem mais a cidadania que o poder econômico, aí é claro.... a nossa postura de oposição não deixa de existir, mas ela vai ser programática, pontual em cima de atitudes concretas que o governo tomar. Ela não tem nenhum compromisso em cumprir a nossa pauta, assim como nós não temos nenhum compromisso, derivado do voto, em apoiá-la. Mas a gente não está achando que foi um voto que não significou nada. A gente tem a expectativa que se avance, que esse governo seja melhor que o primeiro, como ela prometeu.

CC: Alguns militantes e lideranças do PSOL estiveram bastante comprometidos com a campanha de Dilma no segundo turno, gravando depoimentos e até subindo no palanque ao lado dela. O partido está mais próximo do PT? Os partidos conseguiram se unir mais em torno de um projeto comum?
CA: Não, é uma circunstância de segundo turno. O PSOL aprovou uma resolução nacional que foi similar à de 2010, respeitando aqueles filiados que entendessem que o voto em Dilma era o mais importante diante do retrocesso que representaria a vitória das forças que estão nos campos do Aécio. Aí ficou a critério de cada um se empenhar mais ou menos nessa tarefa. Isso não partiu de nenhuma articulação mais orgânica, de uma coalizão política. É uma conversa, foi um apoio e um voto que alguns proclamaram com mais ênfase, que se esgotou.

CC: Mas esse apoio não influencia a postura do PSOL daqui para a frente?
CA: Isso não retirou nem um milímetro da nossa independência em relação ao governo e nossa oposição programática e de esquerda, que busca ressignificar o socialismo. É claro que a gente tem muitas tarefas a cumprir. Temos um projeto para o Brasil e para o mundo que precisa ser repensado, reestruturado nesses moldes da utopia socialista. A gente sabe que essa tarefa é histórica, grandiosa, difícil. Mas a vitória da Dilma, na nossa visão, favorece essas lutas todas, por um nova sociedade possível e necessária. Nos planos das lutas sociais, a gente pode ter mais proximidade, mais diálogo. No plano institucional, nada do diferente do que aconteceu até agora. É isso, não muda muito não. Quem tem de ter uma nova postura é a Dilma em seu segundo governo, mas vamos ver para onde ela vai caminhar.

CC: O mercado reagiu à eleição de Dilma, a bolsa e o dólar oscilaram bastante nesta semana. Empresários criticam a política econômica atual, considerada “intervencionista”. Qual a avaliação das políticas da presidenta?
CA: Esse jogo especulativo das bolsas é vergonhoso. Eles operam com uma barganha, fazem essas oscilações todas para interferir no novo governo, para ter a linha macroeconômica deles mantida e aprofundada. Essa mudança não foi anunciada [pela Dilma] nem durante a campanha, então é evidente que esses que agora fazem essa pressão, que apostam no cassino financeiro, preferiam o Aécio. Era um conjunto de forças mais confiável para eles. Mas o governo Dilma também não representou nenhuma ruptura. Agora [o mercado] está puxando para o lado deles. Os movimentos populares, que têm uma visão da macroeconomia que não diferencia políticas econômicas de políticas sociais, querem que ela não faça isso. Vamos aguardar, mas não creio que vão haver mudanças muitas bruscas.

CC: Dilma falou da reforma política como prioridade em seu discurso de posse. Líderes do PMDB se mostraram contrários ao projeto novamente e petistas reconhecem a dificuldade de aprovar a proposta. Existe a viabilidade desta mudança com este Congresso eleito? E o PSOL deve apoiar o projeto concebido pelo PT?
CA: A maioria do Congresso Nacional é avessa à participação popular. Não tem intimidade nem simpatia com instrumentos como plebiscito, referendo, tudo que envolva a população. Eles entendem que foram [escolhidos] mandatários numa eleição, em que o poder econômico domina fortemente, e daí têm a representação plena e exclusiva durante os próximos quatros anos. Evidente que quando você fala em debate da sociedade, em participação popular, para nós do PSOL isso já é muito importante para a reforma política. Para nós, isso não é antagônico ao julgamento parlamentar. Então o importante é a questão estar em debate, seja no parlamento, seja na sociedade. O importante é que o debate sobre o sistema político em crise, onde as maiorias sociais não são maiorias políticas, esteja chegando ao cidadão comum no seu dia a dia.