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Política

Eleições 2014

Freixo: “seremos oposição ao governo do Rio”

por Marsílea Gombata publicado 09/10/2014 17h13, última modificação 09/10/2014 21h58
Estadual mais bem votado do País, psolista diz ainda votar em Dilma "para impedir o retorno de um projeto conservador com o qual não tenho qualquer identificação"
Arquivo pessoal
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O deputado Marcelo Freixo e Tarcísio Motta, que foi o candidato do Psol ao governo do Rio

Deputado estadual mais bem votado do País, Marcelo Freixo (PSOL) recebeu 350.408 votos no estado do Rio e se prepara agora para um novo voo: vencer a disputa pela prefeitura da cidade em 2016. O feito, no entanto, envolverá uma tarefa nada fácil: conquistar o eleitorado mais conservador da cidade, que também foi responsável por eleger os deputados federais Jair Bolsonaro (PP) e Clarissa Garotinho (PR).

Para os próximos dois anos, no entanto, o deputado lembra que o dever de casa será se concentrar em ampliar a pauta pela defesa dos direitos humanos, combatendo violações relacionadas a moradia e segurança pública, além de investigar as consequências das UPPs, tanto nas áreas onde estão instaladas quanto nas áreas onde elas não estão e a violência é crescente. “Seja qual for o governo do estado, nós estaremos na oposição”, afirmou em entrevista a CartaCapital.

Freixo foi eleito para o terceiro mandato pelo PSOL, legenda que lançou como candidata à Presidência a gaúcha Luciana Genro. Para o segundo turno, diante da polarização PT X PSSB, o psolista apoiará a presidenta Dilma Rousseff, apesar de ter “profundas críticas à sua gestão”. “É preciso avançar na reforma agrária, na defesa dos direitos das minorias, na descriminalização das drogas, na desmilitarização da PM. Mas um governo tucano representa o retorno de uma elite conservadora e de uma política econômica prejudicial aos trabalhadores e à população mais pobre. A promoção da justiça social e de uma agenda progressista de ampliação dos direitos civis nunca foi e nunca será uma prioridade tucana”, explicou.

Confira a entrevista:

 

CartaCapital Como o senhor enxerga os resultados do Rio: por um lado, você foi o deputado estadual mais votado no Brasil, mas por outro o Rio teve Jair Bolsonaro (PP) como o mais bem votado para deputado federal, seguido de Clarissa Garotinho (PR).

Marcelo Freixo – Esse é o Rio de Janeiro, essa eleição é absolutamente carioca. O Rio é o Rio conservador e transgressor, essa é a cara do Rio. O Rio bota 1 milhão de pessoas nas ruas, mas a gente não pode imaginar que seja 1 milhão de progressistas e também não é 1 milhão de fascistas. Então se manifesta de forma muito intensificada em algumas candidaturas. O Rio é muito intenso em tudo o que faz, em tudo o que produz, na música, na arte, na sociedade. O Rio tem uma intensidade urbana muito forte, tem uma cultura de rua muito grande. As pessoas vivem nas ruas, e isso tem a ver com o clima, com a geografia da cidade. Por isso o Rio é essa caixa de ressonância do Brasil, em relação ao que tem de bom e de ruim. Assim, não vejo uma contradição. É claro que você tem o cara que votou no Bolsonaro e em mim. Aí é mais complicado, mas tem. E é o cara que não está votando por uma ideologia, mas por uma suposta ética na política, ele diz: ‘nenhum dos dois roubam’. E isso passa a ser o critério político por si só, infelizmente. Tem, evidentemente, o eleitor com perfil de defesa dos direitos humanos e com o perfil do Bolsonaro. Eu não acredito que todos que votaram em mim sejam defensores dos direitos humanos, como também não acredito que todos que votaram no Bolsonaro defendam a tortura e o regime militar. Vai muito além do óbvio. Então é uma eleição que marca todas essas contradições que a gente encontra nas ruas do Rio.

 

CC – O Rio elegeu, antagonicamente, dois polos de deputados federais. Como conquistar em 2016 esse eleitorado mais conservador também expressivo nessas eleições?
MF – Acho que esse é o grande desafio. A gente sai muito estimado para essa disputa: o PSOL faz cinco deputados estaduais, três federais e Tarcísio Motta, que foi nosso candidato a governador com uma condição muito precária de campanha, obteve 15% dos votos da cidade, chegando a terceiro. Então, o PSOL sai vitorioso do processo eleitoral. Daqui até 2016 o mais importante, o dever de casa, é criar um bom programa amplamente debatido na cidade. Qual é o projeto de cidade que vamos oferecer para o Rio de Janeiro? Como vamos pensar o transporte, a segurança, a mobilidade? Como vamos pensar a questão ambiental, da moradia? Como vamos olhar para essa cidade, o que vamos propor? Acho que a gente tem que ampliar a capacidade de diálogo. Esse é um problema do Rio: não há canal de escuta do poder público com a sociedade. Então o que gente quer é ampliar isso durante todo o ano de 2015. Ouvir a sociedade, ir colocando no papel, e através das redes sociais, onde temos muito impacto, ampliar o debate sobre qual cidade podemos ter. Esse pode ser um caminho para conquistarmos não só o voto identificado ideologicamente, mas identificado com um projeto de cidade, o que vai além da ideologia.


CC Quais os desafios deste terceiro mandato agora, depois de os anteriores ficarem tão marcados pela CPI das Milícias, seu relatório e prisões de milicianos?
MF – O Rio tem uma série de violações de direitos humanos. Violações relacionadas à questão da moradia, segurança pública, a violência sofrida pela polícia, violência cometida pela polícia, este é um grande problema. Queremos acompanhar as consequências desse projeto das UPPs, tanto nas áreas onde as UPPS estão instaladas quanto nas áreas onde não estão e a violência é crescente. Há uma pauta com a qual a gente já trabalha que, sem dúvida alguma, será intensificada. Seja qual for o governo do estado, nós estaremos na oposição. E nesse sentido uma oposição mais qualificada porque somos cinco deputados agora. Então, vamos trabalhar em bancada mais próxima, quem se elegeu é bem próximo dentro do PSOL, somos companheiros de longa data. Vai ser possível fazer um trabalho, então, de fiscalização do Executivo, de acompanhamento, de uma maneira muito mais qualificada.

 

CC – Qual a estratégia de campanha para 2016? Como lutar pela prefeitura sem repetir a derrota vivenciada por Fernando Gabeira em 2008?
MF – Tem um cenário diferente aí. Em 2012 tive mais voto que o Gabeira em 2008, mas eu não fui para o segundo turno porque eles fizeram um leque de alianças e concentraram a campanha no Eduardo Paes. Então, acabei tendo 29% dos votos, mas não fui para o segundo turno. O Gabeira no primeiro turno teve 26%. Esse quadro não se repete, porque temos a candidatura do Romário, provavelmente alguma candidatura ligada ao garotinho, não sei se a da Clarissa, uma outra candidatura do PMDB, provavelmente, alguns dos filhos de Jorge Picciani. Teremos ainda uma outra candidatura ligada ao Eduardo Paes, que deve ser o Pedro Paulo, que provavelmente não será pelo PMDB. Então, haverá um número de candidaturas que pode gerar um segundo turno. E gerando um segundo turno o que temos que fazer é garantir estar nesse segundo turno. E a partir daí acho que o debate é igualitário no tempo de televisão, e o debate do programa de governo que temos muito mais condições de apresentar uma proposta melhor vai pesar.

Freixo em campanha ao lado de Tarcísio Motta e Luciana Genro

CC –  O senhor é de Niterói. Por que não se candidatar à prefeitura de lá, onde com certeza terá grandes chances?
MF – Porque temos um ótimo candidato em Niterói, que é o Flavio Serafini, que acabou de se eleger deputado estadual, inclusive, e ficou em terceiro na última eleição. Então temos candidatos com chances de ganhar no Rio e em Niterói. E quando eu fui candidato a deputado em 2010, dos meus 177 mil votos, 115 mil foram na cidade do Rio. Então, a cidade do Rio me deu também legitimidade para ser candidato lá. E em relação à eleição deste ano, com certeza absoluta, o grosso vai vir do Rio.

 

CC No partido do senhor, o PSOL, figuras como Randolfe Rodrigues já falaram no nome do senhor como candidato a presidente pela legenda. Isto passa pela cabeça do senhor?
MF – Não. Acho que é um passo de cada vez. Quem quer dar um passo maior que a perna, a chance de ficar de pé é pequena. Então todo o meu esforço era ter uma boa votação, a gente consegue uma votação extraordinária, de 350.408 votos, a maior votação do Brasil. Agora é construir um mandato que possa também preparar a disputa pela prefeitura, e isso ocupa completamente a cabeça da gente, não consigo pensar em nenhuma outra pauta.


CC  Diante da antiga polarização PT X PSDB que volta na escolha para presidente, o senhor declarou apoio à presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição. Por que o senhor optou por apoiar o PT?
MF Votarei de forma crítica em Dilma para impedir o retorno de um projeto conservador com o qual não tenho qualquer identificação. Tenho profundas críticas à gestão da presidenta. É preciso avançar na reforma agrária, na defesa dos direitos das minorias, na descriminalização das drogas, na desmilitarização da PM. Mas um governo tucano representa o retorno de uma elite conservadora e de uma política econômica prejudicial aos trabalhadores e à população mais pobre. As gestões do PSDB sucatearam as universidades públicas, desmantelaram o Estado, deixaram o funcionalismo sem reajustes, arrocharam salários e provocaram desemprego em massa. A promoção da justiça social e de uma agenda progressista de ampliação dos direitos civis nunca foi e nunca será uma prioridade tucana.

 

CCEm relação à eleição na região metropolitana do Rio, o que mudou no que diz respeito à influência das milícias no processo eleitoral? O que vem melhorando ou piorando desde o relatório da CPI das Milícias de 2008?
MF O mapa eleitoral dessa eleição que a gente ainda está estudando traz algumas surpresas curiosas. Por exemplo, eu tive acesso à informação de que de 29 bairros dominados por milícias na zona norte e zona oeste, eu fui bem, fiquei entre os três mais bem votados, em 17 deles. Eu tive uma votação expressiva em áreas de milícia, onde eu não botei pé, onde eu nem poderia entrar, que estavam dominadas por candidaturas exclusivas, que sabemos que são suspeitas de antemão. E alguns candidatos que só eles poderiam colocar a placa no lugar não forma eleitos. Acho que é uma resposta que esses moradores dão, o que me deixa muito feliz e honrado, pois é um voto oriundo do meu trabalho e da minha equipe, não de cabo eleitoral pago, de acordo, nada disso. Eles acompanharam nosso trabalho na CPI e votaram em nós, mesmo sob ameaça, mesmo sob domínio. Então, esse voto tem muito valor.

 

CC Quais os tipos de sanções que tráfico e milícia fazem a outros candidatos?
MF – Você simplesmente não entra no lugar. Não colocar placa, não tem campanha, são territórios de exceção. Só entram candidatos que a milícia apoia, quando o dono da milícia não é o candidato. Porque isso mudou um pouco: eles apoiam alguém e têm benefícios a partir daí. Então eles dominam todas as atividades econômicas e dominam o território. Eles dominam gás, “gatonet”, transporte alternativo, cobram taxa de segurança do comércio de alguns moradores. E lá só faz campanha quem eles permitem, porque são territórios militarizados e dominados pelo crime organizado.

 

CC –  Eles passaram, então, a não se lançar na disputa eleitoral, mas sim apoiar candidatos compactuados economicamente com eles?
MF Exatamente, o número de nomes da milícia candidatos diminuiu muito. Os mais importantes não foram candidatos, até porque muitos foram presos depois da CPI. Então, na verdade, eles apoiam deputados já conhecidos, que passam a defender seus interesses, mas não são diretamente os donos.

 

CC – Quais são os partidos que têm relação com as milícias?
MF – Olha, a milícia nunca é de oposição. Ela está sempre com quem está no poder, seja quem for do poder. Isso é praxe, desde 2008. A milícia está sempre filiada ao partido do governador, ou da base desses poderes. Porque a milícia quer frequentar o palácio, a milícia não quer trocar tiro com o governo, a milícia não quer instrumentalizar o poder, ela é o poder.

 

CC A milícia consegue coisas que o tráfico, por décadas, não conseguiu, como eleger candidatos?
MF O tráfico é violento, bárbaro, também domina território, mas é muito mais desorganizado que a milícia. O tráfico não tem projeto de poder, tem projeto de domínio de território e de lucro. A milícia tem lucro, o projeto de território e o projeto de poder. Então, crime, economia e política se misturam de uma maneira bastante mafiosa nas estruturas da milícia. É diferente do tráfico, que não são agentes públicos no comando, mas sim jovens que nunca tiveram nada. Então é a barbárie pela barbárie. A milícia não. A milícia tem carteira oficial.

 

CC – Então para combater esses grupos seria necessário atuar nessas frentes que o senhor citou?
MF – Teria de trabalhar com inteligência. Você não vai entrar em um lugar e encontrar a milícia enfrentando a polícia. Terá de identificar a partir de um bom trabalho de inteligência, de informação, e isso é um problema, pois depende de vontade política. E a forma de tirá-los do território é tirar deles o poderio econômico, que é a grande razão de toda milícia.

 

CC –  Desde que o senhor comprou essa briga, o que mudou na sua rotina? Como você se protege? Quais ameaças que sofreu?
MF Tem fases mais agudas, outras mais tranquilas, mas o cuidado é permanente. Depois que você enfrenta a máfia e isso tem consequências - eles foram presos, perderam mandatos, mudou a opinião pública, virou assunto, virou filme, todo mundo sabe o que é -, não se pode brincar com isso. Eles são violentos, perigosos e são máfia. E máfia age, máfia não ameaça. Então minha vida mudou completamente, minha rotina mudou. Eu ando com escolta, com carro blindado, tenho cuidado na rotina, onde somos mais vulneráveis, mas não deixo de viver. Eu não me arrependo, faria tudo novamente. E quando olho para o resultado dessa eleição e vejo que fui o deputado mais bem votado em várias dessas áreas é porque valeu.