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Política

Entrevista - Ana Amélia Lemos

“Os eleitores gaúchos não votaram na RBS, votaram na Ana Amélia”

por Piero Locatelli — publicado 26/08/2014 05h08, última modificação 27/08/2014 16h00
A CartaCapital, a ex-apresentadora e candidata do PP ao governo do Estado nega “debate ideológico” no Rio Grande do Sul e critica Tarso Genro (PT)
Agência Senado

De Porto Alegre

Em 2010, a Ana Amélia Lemos deixou a bancada do Jornal do Almoço, da RBS, para ser candidata ao Senado. Eleita ao cargo, a ex-jornalista tenta chegar ao governo do Estado quatro anos depois. A disputa com o governador Tarso Genro, candidato à reeleição, é apertada. Na última pesquisa Ibope, a senadora tem 36% dos votos contra 35% do petista, em um empate técnico.

Em entrevista a CartaCapital, Ana Amélia nega que seja favorecida pelo seu antigo empregador, a retransmissora gaúcha da Rede Globo. Na entrevista, a candidata criticou o desempenho do seu adversário e diz que o rótulo de conservador do seu partido, o PP, é injusto.

Nesta semana, CartaCapital publicará entrevistas com Tarso Genro (quarta-feira), e com os dois candidatos mais bem colocados na disputa ao Senado Federal, Olívio Dutra (quinta-feira) e Lasier Martins (sexta-feira).

Leia abaixo trechos da conversa com a candidata:

CartaCapital: Que avaliação a senhora faz do governo de Tarso Genro nos últimos quatro anos?

Ana Amélia: Acho melhor perguntar aos gaúchos que vivem a fragilidade da segurança pública e da saúde. E da educação, que não teve o cumprimento das palavras que o governador fez. Como ministro da Educação, ele fez a lei [do piso salarial dos professores]. Como candidato em 2010, prometeu que pagaria o piso. E como governador, não honrou, não pagou. Já na infraestrutura, por falta de planejamento, o governo resolveu romper os contratos com concessionários [das estradas], revendo prazos, tendo uma empresa para cobrar pedágios sem dar a contrapartida do pagamento ao usuário.

CC: O PT, incluindo o ex-governador Tarso Genro, diz que dois modelos de desenvolvimento distintos estariam em jogo no Rio Grande do Sul. Eles dizem que o modelo oposto ao deles defenderia o enxugamento da máquina e remetem ao governador Antônio Britto, responsável pelas privatizações do Estado na década de 90. A senhora concorda que existam esses modelos distintos?

AA: Em primeiro lugar, a eleição de 2014 é a eleição de 2014. O candidato é o Tarso Genro e a candidata é a Ana Amélia. Nós não estamos discutindo o passado, eu olho daqui para a frente. É isso que está em jogo. Depois da queda do muro de Berlim, querer estabelecer um debate ideológico é uma forçação de barra que está fora do século XXI. Século que é dividido não entre esquerda e direita, mas entre rápidos e lentos.

CC: Então a senhora acha que não é uma questão de dois modelos de desenvolvimento, mas só de gestão.

AA: Não só de gestão, mas da compreensão de um Estado que precisa estar a serviço do cidadão e da sociedade, e não de um partido como está hoje. Há seis mil cargos de confiança no Estado. E tudo com apadrinhamento e loteamento partidário. Não é esse governo que um cidadão que paga impostos quer, ele quer um estado a serviço da sociedade, não de um partido político.

CC: O Rio Grande do Sul é o Estado que tem proporcionalmente a maior dívida do país, de mais de 50 bilhões de reais. A presidenta Dilma prometeu a renegociação dela para novembro deste ano. A senhora é crítica à renegociação...

AA: Eu sempre fui favorável ao projeto que altera o indexador da dívida. A minha única indagação é: eu tenho razões para acreditar que vai ser votado? Nenhuma. Novembro? Por que novembro? Só por que é depois das eleições? Você tem que duvidar. Assim como não foi votado e não foi cumprido o acordo para votar em fevereiro. Qual é a segurança que eu tenho para acreditar que vai ser votado? A renegociação vai abrir as portas para que o Rio Grande do Sul tome mais empréstimos. O governo atual está tocando desenvolvimento na base do cheque especial. E assim não se faz desenvolvimento em nenhum lugar do mundo, nem na casa da gente.

CC: Algo que chama atenção na eleição do Rio Grande do Sul é que os dois candidatos na frente das pesquisas são ex-apresentadores da Globo...

AA: Não, não. É da RBS, é uma afiliada. São empresas independentes, ela tem apenas a programação da Globo.

CC: Certo. Nesse sentido, ao que a senhora atribuiu isto, que não é uma novidade no Rio Grande do Sul. O ex-governador Britto era apresentador...

AA: Alvaro Pereira, em Minas, também foi [deputado federal e prefeito]. Hélio Costa também foi [senador e ministro do governo Lula]. E isso está em todos [Estados]. Tem o Tiririca em São Paulo, você tem uma grande gama de artistas. Os partidos políticos, quando fazem a sua busca, buscam candidatos com visibilidade. Não é um problema de estar ou não [na RBS]. Eu trabalhei numa empresa, recebi o meu salário. Eu não era dona e não era sócia. Eu não tinha o interesse com o sistema, tinha interesse em fazer um jornalismo adequado, tanto que recebi quase três milhões de votos disputando com dois grandes candidatos. Os eleitores gaúchos avaliaram bem o meu mandato, eu não fui lá para fazer número. Fui lá para dizer que dá para trabalhar na política com gestão, transparência. Estabelecemos metas no meu gabinete e assim remuneramos os funcionários, que se sentem estimulados.

Meu partido é tido como um partido conversador, de interior, reacionário. Aqui em 2012, o partido apoiou o [José] Fortunati [do PDT, atual prefeito de Porto Alegre]. E eu fui apoiar a Manuela d'Ávila. Uma deputada jovem, bonita e bem articulada. Do PC do B. Muitos não entenderam, mas era a inflexão que eu precisava fazer. Por eu fazer parte de um partido conservador não significava que minha cabeça era conservadora. A minha cabeça era diferente, eu posso fazer entendimentos com as pessoas.

CC: Mas a senhora se identifica com o PP? A senhora mesmo disse que ele é conservador...

AA: Não, não. Esse é o preconceito com que uma parte dos gaúchos vê o PP. Eu queria mostrar às pessoas que o nosso partido não é isso, que ele tinha capacidade de trabalhar com as pessoas com diálogo para construir uma convergência.

CC: Mas a visão do seu partido ser conversador e reacionário não vem do fato dele ser herdeiro da Arena, partido que sustentou a ditadura?

AA: Mas todos de algum pedaço vieram desse negócio. Na época da revolução, eu estava interna em um colégio lá em Lagoa Vermelha [cidade no interior do Estado]. Estava cuidando dos meus estudos, não tinha ideia do que acontecia no País. E isso não significa que era alienação, eu estava realmente tentando sobreviver.

CC: Retomando a questão anterior, o governador Tarso Genro diz que a Globo tem a força de colocar a pauta dela e se portar, desta forma, como um partido.

AA: Eu não vou comentar uma grande bobagem dessas. Eu me nego. Aliás, se você pegar os jornais da RBS e ver quantas vezes eu apareci positivamente ou alguma vez apareci melhor do que ele, eu lhe pago um sorvete. Mil vezes ele aparece, trezentas, quatrocentas mil vezes. Então ele é sócio da RBS se é esse o critério, de tantas vezes que ele aparece. Os eleitores gaúchos não votaram na RBS, votaram na Ana Amélia. O Tarso sabe disso, mas ele não quer aceitar. É uma empresa que pagou meus salários sempre, sempre em dia. Pagou o que me devia, me indenizou quando eu sai depois de 33 anos. Uma grande empresa, mas eu não tenho nada a ver com a RBS. Não adianta o governador fazer todo esse jogo de cena, porque não consegue colar. Até porque a RBS tem a liderança de audiência aqui.

CC: Não é justamente por essa liderança que os dois candidatos que estão a frente, a senhora e o Lasier, vieram da emissora?

AA: Não quero falar do outro candidato, não tem nada a ver, tem outro jeito de ser. Essas questões é o eleitor que vai julgar. Não é o Tarso. É isso.