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Política

Comissão Nacional da Verdade

“O Caso Amarildo de hoje é o caso Rubens Paiva de ontem”

por Redação — publicado 01/04/2015 13h12, última modificação 01/04/2015 13h15
Pedro Dallari e Maria Rita Kehl atacam 'ilusão de que a ditadura foi um governo limpinho' em debate promovido pela CPFL Cultura
Reprodução

No Café Filosófico CPFL que a TV Cultura levou ao ar no domingo 29, o advogado Pedro Dallari e a psicanalista Maria Rita Kehl, integrantes da Comissão Nacional da Verdade, fizeram um balanço sobre os dois anos de investigações das graves violações de direitos humanos promovidas pelas ditaduras militar e do Estado Novo.

“Muitos questionam por que investigamos esse período de nossa história. Investigamos porque o padrão de violações de direitos humanos persiste nos dias atuais. O aso Amarildo é o caso Rubens Paiva”, afirmou Dallari, que presidiu a CNV.

A violência do Estado brasileiro contra os pobres é uma violência que vem desde a escravidão e segue adiante”, completou Maria Rita. “Por isso é preciso desmilitarizar a polícia”. Segundo ela, nas investigações sobre índios e camponeses desaparecidos no regime, “sentimos como a tensão por posse de terras ainda é atual no Brasil”.

Segundo o advogado, se as Forças Armadas reconhecessem as violações cometidas no período, não haveria margem para “imbecis” segurarem “plaquinha por aí” com pedido de uma nova intervenção militar.

“Quanto mais a gente entende aquele tempo, mais a gente percebe como hoje é melhor. Mesmo para apurar corrupção. Quem viveu aquela época sabe que o clima era pesado. As pessoas se autocensuravam até nas expressões de alegria”, disse a psicanalista. “Há uma ilusão de que a ditadura era um governo duro, porém limpinho.”

Segundo ela, muita gente se pergunta por que a comissão não se debruçou sobre as ações de grupos armados de esquerda que atuaram no período. Ela responde: “porque nunca houve censura sobre os atos dos grupos de esquerda. Quando os crimes são praticados pelo Estado não são crimes comuns. São violação dos direitos humanos”.

As investigações ajudaram a desvendar episódios obscuros sobre a ditadura, como o atentado ao Riocentro, e a desfazer mitos, como os de que o presidente deposto João Goulart planejava instaurar uma ditadura nos moldes cubanos no Brasil. “Nos impuseram uma ditadura para impedir que virássemos uma ditadura como Cuba. mas nos impuseram uma ditadura pior”, disse Maria Rita, que chegou a discutir com um espectador, que se dizia saudoso da ditadura, durante o debate.

“Se você preferia aquele tempo, em que não se podia sequer investigar, só lamento por você”, respondeu ela.

O encontro foi gravado em novembro, a um mês da entrega do relatório final à Presidência, na sede da CPFL Cultura, em Campinas (SP).