Você está aqui: Página Inicial / Política / “Irmão vota em irmão”: a base do voto de Marina Silva

Política

Entrevista - Cesar Romero Jacob

“Irmão vota em irmão”: a base do voto de Marina Silva

por Renan Truffi publicado 17/09/2014 15h18, última modificação 18/09/2014 11h42
Cientista político diz que evangélicos tendem a votar em religiosos e isso favorece Marina, que sobe nas pesquisas ao conquistar outros grupos de eleitores
Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marina Silva

Apesar de ser evangélica, Marina Silva faz campanha de caráter político e evita rejeição de outros grupos religiosos

Nem todo evangélico é conservador. Assim como nem todo evangélico vota na candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, por ela ser fiel da Assembleia de Deus, a maior denominação pentecostal do País. Isso não significa, no entanto, que não exista uma tendência ao voto por afinidade por parte dos evangélicos. O trabalho do cientista político e professor da PUC-Rio Cesar Romero Jacob mostra que os eleitores evangélicos tendem a votar de maneira parecida. Especialista na análise de mapas eleitorais no Brasil, Jacob diz que há algum tempo os evangélicos adotaram a “tradição” de votar em representantes da própria religião. De acordo com ele, esse fenômeno começou a ser observado em 2002 e é uma das bases da candidatura de Marina Silva desde 2010.

“Tem havido essa tradição do evangélico pentecostal de votar no irmão. Foi assim em 2002, com Anthony Garotinho (PR) para presidente, e com o Marcelo Crivella (PRB), em 2004, para prefeito e, em 2006, para governador do Rio”, afirma. “Publiquei um trabalho mostrando que havia uma enorme semelhança entre as votações do Garotinho, a distribuição dos evangélicos pentecostais e o mapa das repetidoras da Rede Record no Brasil. Por esse trabalho já se via como havia um projeto dos evangélicos pentecostais na linha do irmão vota em irmão”, afirma. Segundo Jacob, a estratégia é efetiva pois faz com que o piso do candidato [número mínimo de votos] seja alto, pois 22% do eleitorado se declara evangélico. “Em contrapartida, o teto [número máximo de votos] é baixo porque essa mistura de religião e política acaba fazendo com que o eleitorado geral rejeite o candidato”, explica o cientista político.

Mas para empatar nas pesquisas eleitorais com a presidenta e candidata à reeleição, Dilma Rousseff, Marina não tem apenas o voto dos evangélicos pentecostais. Como ela não possui a rejeição comum que outros candidatos evangélicos costumam ter de diferentes grupos religiosos, a candidata do PSB tem aglomerado outros tipos de eleitor. Na opinião de Jacob, três grupos compõem o voto da Marina nesta eleição: os evangélicos pentecostais, os “sonháticos” e os “antipetistas”. Leia a entrevista completa:

Carta Capital: Qual é o peso do voto evangélico para a candidatura de Marina Silva?
Cesar Romero Jacob: Os mapas são reveladores. Há muito os evangélicos pentecostais lançam candidatos ao parlamento. Esses candidatos a vereador, deputado estadual e federal não têm muito como acompanhar [a concentração desse voto evangélico]. A primeira tentativa dos evangélicos de chegar ao poder nas eleições presidenciais foi com o Garotinho [candidato à Presidência em 2002]. Publiquei um trabalho mostrando que havia uma enorme semelhança entre as votações do Garotinho, a distribuição dos evangélicos pentecostais e o mapa das repetidoras da Rede Record. Por esse trabalho já se via como havia um projeto dos evangélicos pentecostais na linha do irmão vota em irmão. Então o voto não é na política. Os evangélicos não estão votando em questões como autonomia ou não do Banco Central. Não se encontra em questão a agenda política. É o princípio do irmão vota em irmão. Então, no caso do Garotinho, por exemplo, ele foi um candidato que fez a campanha voltada para o segmento evangélico. Quando isso acontece o piso do candidato [número mínimo de votos] é alto porque os irmãos votam nos irmãos, mas o teto [número máximo de votos] é baixo porque essa mistura de religião e política acaba fazendo com que o eleitorado rejeite o candidato. Onde hámais católicos, por exemplo, o Garotinho teve pouco voto. O piso é alto, porque 22% da população se declara evangélica, mas o texto é baixo porque a rejeição é grande. No Rio de Janeiro, em 2004, o [então candidata a prefeito] Marcelo Crivella repete esse modelo. Onde o Rio é mais evangélico, o Crivella teve percentuais de voto semelhantes ao número de fiéis das igrejas evangélicas. Onde o número de católicos é maior, o Crivella teve desempenho pífio, baixo. De novo, piso alto e teto baixo.

CC: Mas por que a Marina não tem essa rejeição natural aos candidatos evangélicos?
CRJ: Acontece com a Marina o mesmo que aconteceu com a Benedita da Silva. As duas são quadros históricos do PT. Assim como Marina Silva, Benedita também é da Assembleia de Deus. Quando ela se candidatou a prefeita do Rio, em 2000, observamos que, onde o Rio é mais evangélico, ela teve mais votos. Mas ela não fez campanha voltada para os evangélicos. Ela fez campanha de caráter político e os irmãos votaram nela. É o que está acontecendo com a Marina. Ela não passa a campanha indo orar com pastores, o que não quer dizer que os pastores e irmãos não votem nela. Os evangélicos vão votar na Marina independentemente da posição que ela tenha sobre etanol ou pré-sal. Essa discussão é irrelevante porque a identidade é com o irmão. Então o que acontece nesta eleição: onde o Brasil é mais evangélico, a Marina tem mais votos. Sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo, que representam um terço do eleitorado. A Marina tem votação muito alta em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e no Distrito Federal. Em 2010 [quando Marina foi candidata à Presidência pelo PV], os percentuais nessas áreas foram de 26% e 42% dos votos válidos. No mapa que mostra o crescimento do número de evangélicos pentecostais do Brasil [feito com base no Censo de 2010], você vai ver que existem percentuais grandes de evangélicos justamente no Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo e no Distrito Federal. Nessas áreas os percentuais de evangélicos pentecostais estão entre 22% e 40% da população. [Veja mapa abaixo] Então, sem dizer que todo evangélico pentecostal votou na Marina, a o que podemos dizer é que a Marina tem uma base que é a base dos irmãos. Mas ela é mais inteligente do que o Garotinho e o Crivella porque a campanha não está voltada para os irmãos. Então ela atrai os irmãos sem ter a restrição do teto. Ou seja, ela deixa de ter o problema do teto baixo, como o Garotinho e o Crivella tinham.


Mapa evangélicos X votos de Marina (corrigido)
O mapa da esquerda mostra os votos de Marina Silva nas eleições de 2010 e o mapa da direita aponta o crescimento do número de evangélicos no Brasil. A votação de Marina é alta justamente em SP, RJ, ES, DF, estados onde há grande concentração de evangélicos. Quanto mais escura a cor, maior o número de votos e a quantidade de evangélicos nos respectivos mapas

CC: Então o voto “do irmão no irmão” também acontece nas candidaturas de vereador, deputado estadual e federal, mas está disseminado? Por que esse voto não se dissemina também no pleito presidencial já que temos dois candidatos evangélicos, Marina e o Pastor Everaldo?
CRJ: Meus estudos têm mostrado que quando há eleição proporcional, como nos casos de vereador, deputado estadual e deputado federal, há uma pulverização do voto evangélico porque há muitos pastores e bispos se candidatando. Então você não consegue localizar isso [voto evangélico pentecostal]. Quando você tem uma eleição majoritária, de prefeito, governador e presidente, é possível você cotejar, comparar uma coisa com a outra. O fato é que naturalmente evangélico vota em evangélico. Agora neste caso existem dois candidatos evangélicos, ela e o Pastor Everaldo. O pastor tem um discurso claramente evangélico e não cresce. Se os evangélicos são cerca de 20% do eleitorado e o pastor tem como agenda a questão das igrejas evangélicas, isso significa dizer que os evangélicos estão fechados com a Marina. A Marina é mais versátil porque ela não está fazendo campanha para os irmãos. Então me chama a atenção ela ter uma votação expressiva em São Paulo, que tem 24% do eleitorado, e no Rio de Janeiro, que tem 10%. Isso representa um terço do eleitorado do país.

CC: Apesar dos pentecostais terem crescido bastante nas regiões Centro-Oeste e Norte, isso número não se traduz em tanto em voto para a Marina como acontece em São Paulo e no Rio. Por quê?
CMJ: Aí você tem outra coisa. Você vai ter o peso do agronegócio no Centro-Oeste. Quer dizer, tem os evangélicos pentecostais, mas o agronegócio tem mais força que eles.

CC: Então a questão religiosa fica em segundo plano porque grande parte do eleitorado tem algum tipo de relação com o agronegócio?
CMJ: Sim, porque [muitas pessoas] são empregadas ou eventualmente influenciadas pelo agronegócio. Mas esbarra também na questão ambiental, que é muito forte na carreira política da Marina. Apesar de que agora ela diz que vai conversar com o agronegócio. Evidentemente o que vai acontecer com a Marina é o que acontece na corrida de São Silvestre. Ganha quem acelerar o passo no último quilômetro. Quer dizer, ela chegou cedo demais ao primeiro lugar. Na medida em que chega cedo demais, a tendência é todos baterem nela. A Dilma acaba saindo da linha de tiro. Na verdade, você vai ter o Aécio e a Dilma criticando a Marina. Ela, Marina, vai ter que passar pelo contraditório. Todos os outros vão bater nela também. Ela não vai ser aliviado pelo PV, pelo PSOL, por nenhum grupo. Então, veja, o resultado das urnas vai ser influenciado por três coisas: o desgaste do PT, o fato do Aécio não ter conseguido se afirmar como liderança e, além disso, a Marina estar passando pelo contraditório. As posições delas estão sendo pressionadas, estão sendo checadas. É diferente se ela tivesse crescido nos últimos 15 dias de campanha. Campanha de presidente é como corrida de São Silvestre em São Paulo. Precisa ter fôlego. Resta saber se a Marina vai ter fôlego.

CC: E o fato de pastores e líderes evangélicos de diferentes igrejas pedirem, cada um, voto para um candidato diferente? Por exemplo, a Igreja Universal está com Dilma. A Assembleia de Deus com Marina Silva. E o Silas Malafaia, da Igreja Associação Vitória em Cristo, está com o Pastor Everaldo. Isso não influencia mais que o princípio de votar no “irmão”?
CRJ: Na verdade, o irmão vai votar no irmão mais competitivo e aí os pastores não vão ter controle sobre o eleitorado. Na hora de votar, o que vai acontecer é que independente do que os bispos digam, a tendência é votar no irmão. Então entre votar no Pastor Everaldo que tem poucas chances e votar na Marina, o evangélico vai votar na Marina. Agora na medida que ela recua nessa questão do casamento gay, ela pode perder voto entre os não irmãos.

CC: Então se ela tivesse mantido a posição sobre o casamento gay, como estava inicialmente no plano de governo dela, ela poderia realmente perder o voto dos evangélicos pentecostais? Na sua opinião, isso realmente influencia o voto evangélico e pode quebrar essa tradição de “votar no irmão”?
CMJ: Claro. Não é o [Silas] Malafaia que puxou a orelha dela, entendeu? Ela sabe que ela perderia esse tipo de voto. E aí é preferível o voto do irmão que é mais consistente do que o voto dos partidários dos direitos dos gays, que é um voto mais volátil.

CC: Então esse voto evangélico pentecostal pode decidir uma eleição nos detalhes, em um cenário como esse de empate técnico entre as duas principais candidatas em ambos os turnos?
CMJ: Não, eles [evangélicos] decidirem, não. [Os votos evangélicos] não decidem nada. Aliás, ninguém decide nada sozinho. Mas por que essa questão moral se torna relevante? Quando eu digo questão moral, falo em casamento gay, criminalização da homofobia, aborto. Ela se torna relevante porque todos os três candidatos são a favor de responsabilidade fiscal, meta de inflação e câmbio flutuante. Os três também são favoráveis ao tripé econômico e ao Bolsa Família? Então isso não os distingue, nem inclusão social. Se os três são a favor das mesmas coisas, o que os distingue? São outros temas. Que temas serão esses? Os temas da agenda moral por exemplo. Aquilo que os aproxima não os distingue, então [os candidatos] vão ter que buscar agendas que os distinga. O que vai separar um candidato do outro é o casamento gay. São os assuntos que vão deixar marcar, identidade.

CC: A votação de Marina extrapola o voto evangélico. Quais outros grupos da sociedade ela conseguiu atrair? Quem são os eleitores da Marina?
CRJ: A Marina vai ter ao meu ver três tipos de eleitores: os evangélicos pentecostais que votam “no irmão”; os “sonháticos”, como são chamados os militantes do Fórum Social Mundial, que acreditam que um novo mundo é possível, onde entram também ambientalistas e decepcionados com o PT; e antipetistas, que preferem qualquer candidato que derrote a [presidenta] Dilma Rousseff, onde estão ainda os tucanos paulistas. Porque a essa altura fica claro que o Aécio Neves [candidato do PSDB à Presidência] foi abandonado pelos tucanos paulistas. Claro que você pode dizer que tanto [Geraldo] Alckmin quanto [José] Serra fazem aparições públicas junto do Aécio, mas não quer dizer que a máquina do PSDB paulista esteja trabalhando para o Aécio. Eu digo isso com base nas intenções de voto por estado. E o que se passa em São Paulo tem um peso enorme. Quando a gente olha as intenções de voto do Alckmin, que ganharia no primeiro turno com 48%, e a gente vê os votos da Marina em São Paulo, com 40%, a sensação que a gente tem é que a Marina virou o plano B dos paulistas. O Aécio foi abandonado pelo seu próprio partido. A Marina tem o voto dos irmãos acrescido do voto dos tucanos paulistas. A Marina, que representaria a terceira via, acaba virando a segunda via. Mesmo que o Serra e o Alckmin participem de campanha do Aécio, a máquina do PSDB paulista está trabalhando para a Marina. Isso não é novo na história da política brasileira. Em 1950, a UDN lançou o brigadeiro Eduardo Borges, o PTB lançou Getúlio Vargas e o PSD lançou Cristiano Machado. Por baixo dos panos, o PSD abandonou o Cristiano para apoiar o Vargas. Isso gerou o nome de “cristianização”, em referência ao Cristiano, que é quando um partido abandona seu candidato. Mais uma comparação histórica. Em 1989, o PFL lançou Aureliano Chaves, ex-vice-presidente da República, para abandonar o Collor por debaixo do pano. Então não haveria nenhuma novidade no PSDB paulista abandonar o Aécio para apoiar Marina. Como o Aécio não estava decolando, eles [eleitores tucanos paulistas] resolveram embarcar na candidatura da Marina. Isso porque, para os tucanos paulistas, mais importante do que a vitória do Aécio é a derrota dos petistas. E isso é do jogo também. Não tem nada demais nisso.