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Eleições 2014

“A candidatura do Eduardo está posta”

por Rodrigo Martins publicado 11/10/2013 13h30, última modificação 11/10/2013 17h03
Em entrevista exclusiva, a ex-senadora afirma que o surgimento de uma terceira via na política brasileira será "boa para todo mundo"
CartaCapital

Depois dos ruídos provocados pelas suas primeiras declarações após a filiação ao PSB, quando deixou no ar a possibilidade de encabeçar a chapa presidencial do partido, e da reação imediata dos caciques da legenda, a ex-senadora Marina Silva fez questão de afirmar nesta entrevista a CartaCapital a prevalência do governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Em todas as oportunidades possíveis, optou pela expressão “candidatura posta” ao se referir ao novo correligionário. Segundo Marina, a decisão de se aliar a Campos ocorreu no “calor da hora” e baseia-se em uma aliança programática disposta a superar o velho modo de fazer política. A seguir, os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: A decisão de se filiar ao PSB foi exclusiva da senhora, como afirmou o deputado Alfredo Sirkis, seu aliado?
Marina Silva: Depois da negativa do Tribunal Superior Eleitoral, motivada pela inércia dos cartórios, nós da Rede Sustentabilidade tínhamos de buscar um novo caminho. Havia tanta convicção da obtenção do registro do partido que a gente não tinha um plano B. Coletamos 910 mil assinaturas. Fizemos um trabalho criterioso, descartamos por conta própria 220 mil assinaturas. Encaminhamos 668 mil para os cartórios. Mas em função de uma série de razões que eu espero, um dia, possam ser esclarecidas, foram anuladas 140 mil assinaturas. Destas, 95 mil foram invalidadas sem nenhuma justificação.

CC: E a conversa com o Eduardo Campos? Como se deu?
MS: Fomos para o apartamento da minha amiga Maria Estela Bernardes e discutimos até seis horas da manhã. A ideia de resignação, de não participar do processo político, até por sermos um partido de fato, ainda não registrado, mas com base e militância, era para mim impensável. Se você pode contribuir, por que se ausentar? A ideia de conversar com o governador Eduardo Campos surgiu, mais ou menos, por volta das quatro horas da madrugada. Estávamos no debate. Se a única alternativa está no universo das candidaturas postas, vamos procurar aquela mais coerente com o nosso discurso. E essa candidatura se dispõe a uma aliança programática, invertemos a lógica dos últimos anos. Os políticos primeiro fazem uma aliança eleitoral e depois vão se virar nos 30 para ver se implementam algum programa.

CC: Aliança feita no calor da hora não contraria essa tese?
MS: Não. Selamos um compromisso por meio de uma carta. Vamos aprofundar a aliança a partir de agora. O PSB veio da luta democrática da sociedade, em defesa das conquistas sociais. Tem suas contradições? Tem. Há diferenças com a Rede Sustentabilidade? Claro. Mas todos os partidos guardam diferenças com a Rede Sustentabilidade, pois ela é a primeira tentativa de atualização da política, da criação de uma estrutura para o que chamo de um novo sujeito político. Quando o PT foi fundado, os partidos marxistas-leninistas, como o PCdoB, diziam que éramos um partido pequeno burguês. Acusavam os petistas de ser inimigos da classe operária e dos trabalhadores, uma invenção da burguesia para atrapalhar os partidos verdadeiramente revolucionários e transformadores. Já as forças conservadoras diziam: “Vocês são comunistas, o Lula é um perigo para a democracia e para a sociedade brasileira.”

CC: Que inovação a Rede apresenta?
MS: Estamos vivendo uma profunda transformação no mundo. Obviamente, fazemos parte dessa mudança, por isso é tão difícil compreendê-la. O olho não consegue ver o que está dentro dele. Mas é possível um esforço de olhar no espelho. A Rede procura dialogar com esse novo sujeito político, que se diferencia do anterior em vários aspectos. Na minha época, o ativismo era sustentado por organizações muito definidas: partidos, sindicatos, organizações estudantis, centrais sindicais. Isso no campo das lutas populares. Entre os grupos que a nós se opunham, havia corporações que faziam a sua parte dentro dos partidos.  É o que chamo de ativismo dirigido. Hoje, emergiu o ativismo autoral. Esse tipo de ativismo não é mais dirigido por instituições ou líderes carismáticos. A Rede aprofunda esse diálogo com a sua base. Como não temos a lógica da votação para estabelecer quem ganha e quem perde, tradição clássica dos partidos, buscamos consensos progressivos. Ainda que a maioria da direção tenha concordado com a ideia da aliança programática, uma parte não concordou. Vamos continuar o debate, buscar o consenso progressivo. As pessoas têm o direito de discordar e manifestar sua posição. Nossos militantes não estão ali porque a Marina Silva ou a Rede pediu. Estão convencidas e acreditam nesse projeto. As manifestações de junho é uma demonstração disso.

CC: Por quê?
MS: Não eram protestos convocados por partidos ou sindicatos. Como surgiu essa multidão nas ruas? Todos queriam um mundo melhor, ainda que as bandeiras se apresentassem na forma de um mosaico, com uma polifonia de vozes. Havia, porém, algo em comum entre os manifestantes: o desejo de um Brasil melhor.

CC: Não houve perda de foco com a multiplicação das bandeiras, por vezes vezes conflitantes? Alguns analistas avaliam que os protestos eram “contra tudo que está aí”.
MS: Não vejo dessa forma. A lógica de ser contra tudo era a da minha geração. Tínhamos de enfrentar a ditadura, dizer não ao colégio eleitoral, não a um monte de coisa. Éramos tão impotentes que o máximo que podíamos fazer naquela época era dizer não. Nas manifestações de junho, vi cidadãos lutando a favor. Quem diz “queremos uma saúde de padrão FIFA” ou “queremos uma educação de qualidade” não está sendo contra, está sendo a favor.

CC: E quem pedia a volta dos militares ao poder?
MS: Ah, era uma minoria, pelo amor de Deus! Aliás, houve uma coisa muito bonita: ninguém dizia “fora Dilma”. Na minha época, quando surgiam tantas denúncias de corrupção, esse seria o primeiro grito, não? Dessa vez, as pessoas reconhecem o Estado Democrático de Direito, ninguém levantou essa bandeira. Não acho que houve perda de foco nessas manifestações. Foram os partidos e as lideranças políticas que perderam o foco. Eles não se preocuparam com o essencial para melhorar a vida das pessoas.

CC: A senhora afirmou que a filiação ao PSB é transitória, até a regularização da Rede como um partido. Mas o que prevê exatamente esse acordo que foi firmado com Campos?
MS: Na ditadura, os partidos marxistas leninistas eram ilegais. O que era feito? Esse mecanismo da filiação democrática transitória. Muitos militantes se filiaram ao MDB, que deu uma grande contribuição na época. Já tive uma experiência assim. Era do Partido Revolucionário Comunista. E nós atuávamos na estrutura legal do PT. Eu, Chico Mendes, tanta gente... Trata-se de um expediente historicamente reconhecido e respeitado. Como não nos concederam o registro da Rede, optamos por essa filiação transitória. Não sou uma militante do PSB. Sou a porta-voz da Rede Sustentabilidade, e com esse mecanismo vamos aprofundar uma aliança programática com o PSB. O primeiro ponto é pensar quais os avanços que podemos estabelecer na política. Acredito ser possível estabelecer uma governabilidade programática. Quando eu fui candidata em 2010, eu dizia: “se ganhar, vou governar com os melhores do PT, do PSDB, do PMDB, dos partidos de tradição de esquerda e o PV”. Essas pessoas existem.

CC: É possível formar uma maioria no Congresso sem acordos com partidos, apenas em torno de programas?
MS: Sim, basta estabelecer a agenda estratégica, essencial. Hoje, os partidos da base chantageiam o governo, exigem mais cargos, mais verba. Em vez dos anões ficarem se comendo, eles se juntaram e criam problemas para o governo. O discurso é sempre o mesmo: “tratem de nos seduzir, de nos conquistar”. Os deputados da Rede, que são ao menos sete, não vão participar dessa chantagem. As coisas boas e justas que o governo mandar para a Câmara dos Deputados e o Senado serão apoiadas. Não queremos desconstruir ninguém. Queremos é construir uma nova agenda para o Brasil, uma nova realidade política.

CC: Ainda que sejam apenas sete deputados diante de 513?
MS: Sim. Lembro quando a gente se orgulhava de ter apenas o Suplicy no Senado. Era só um diante de 88, e fazia a diferença.

CC: A senhora aceitaria ser vice de Eduardo Campos?
MS: O projeto é adensar um programa. Quando tentam calar a sua voz, é preciso buscar um canal. O que vai fazer a diferença nessas eleições não serão as estruturas, o tempo de televisão, será uma nova postura. E ela será muito saudável e boa, eu espero, para o ambiente da disputa. O Eduardo Campos mesmo disse: “A gente não pode ficar preso a essa lógica de televisão”. Quando ouvi isso, respondi: “Poxa vida, a gente tem que tentar. Nós temos uma contribuição”. E a candidatura do Eduardo está posta, jamais iria para uma conversa com ele com qualquer intenção de desconstruir essa candidatura posta. Muito pelo contrário, é uma tentativa de, programaticamente, instituir um novo processo.

CC: Como superar a polarização PT-PSDB?
MS: Em primeiro lugar, é preciso reconhecer o fim da governabilidade baseada na distribuição de pedaços do Estado, sem poder de fazer o essencial para o País, sem uma agenda estratégica. Temos um projeto que nos leva a um novo ciclo. Por isso fui procurar a candidatura posta de Eduardo Campos não para discutir posição na chapa, mas para debater as necessidades do Brasil de renovação política e desenvolvimento sustentável. Uma terceira via, não tenho dúvida, vai ser boa para todo mundo.

CC: E como a senhora avalia essas últimas duas décadas em que o PSDB e o PT governaram o País?
MS: Sem a estabilidade econômica propiciada pelo governo do PSDB, talvez não fosse possível a distribuição de renda na gestão petista, certo? E, talvez, aqueles que promoveram a estabilidade econômica agora possam olhar com mais carinho para a distribuição de renda. Ela não existiria se o PT não tivesse dado esse passo. Mas precisamos renovar a política. Podemos até não aceitar, mas compreender, que o Fernando Henrique teve que ser tutelado pela Velha República para se eleger e governar. Podemos até não aceitar, mas compreender, que o Lula também teve de ser tutelado. Chegou o momento de um novo projeto para o Brasil.

CC: O PSB e o governador Eduardo Campos são desenvolvimentistas clássicos. Não seria uma proposta incompatível com a agenda da senhora?
MS: Todos os partidos brasileiros, com a exceção do PV e da Rede Sustentabilidade, têm essa visão desenvolvimentista. Isso não me impediu de lutar durante quase 30 anos no PT pelo desenvolvimento sustentável. Chegou, porém, um ponto em que não vi mais uma disposição de dar um novo significado à visão desenvolvimentista. E vejo essa disposição no PSB. Vale a pena a intenção dentro da semente. Se ela vai germinar, nenhum de nós sabe, mas eu vou fazer de tudo para acontecer.

CC: A senhora se considera oposição ao governo Dilma?
MS: Não sou da oposição. Dizia isso já em 2010. Não sou de oposição nem de situação.

CC: É o que então? De centro?
MS: Eu assumo posição. Quando era senadora pelo PT e vinham boas propostas do Fernando Henrique, era favorável. Dentro do governo do PT, senadora petista, se havia algo que não concordava, assumia posição contrária. Basta verificar os anais do Senado. Quando Mangabeira Unger induziu o presidente Lula a mandar uma PEC para o Congresso para regularizar terras griladas, não podia dar aval àquilo. Fui contra, ao lado de Suplicy e um grupo pequeno, que mantinha uma posição histórica, jamais aceitaria uma decisão daquela. Em hipótese alguma me coloco nesse diapasão de oposição por oposição, ou de situação por situação. A oposição por oposição só vê defeitos, mesmo quando as virtudes saltam às vistas. E a situação por situação só vê qualidades, mesmo quando os erros são evidentes.

CC: No início do ano, a senhora declarou que Dilma, Aécio e Campos estavam “no mesmo diapasão”. Mudou o diapasão do governador pernambucano?
MS: Ele é uma liderança jovem. Uma coisa era ele na tentativa de viabilizar sua candidatura, com tudo que estava sendo minado nessa candidatura no velho diapasão: estrutura, palanque, tempo de televisão. Outra coisa é a possiblidade de reelaborar isso e, a partir de uma discussão programática, marcar com uma nova postura, já com uma estrutura concreta.

CC: A senhora sempre se refere aos 20 milhões de votos obtidos em 2010 como um legado. Acredita que esse eleitorado e os militantes da Rede vão abraçar esse projeto com o PSB?
MS: Assim que terminou o primeiro turno das eleições de 2010 surgiu a pergunta: “Vai apoiar a Dilma ou o Serra? Para quem a senhora vai passar os seus votos?” Respondi na lata: “Para ninguém. O voto não é meu, é do eleitor”. A visão patrimonialista se arraigou de tal forma na nossa cultura política a ponto de se falar em transferência de voto. É como se o político fosse dono do voto das pessoas, capaz de negociá-los ou transferi-los a outra candidatura. É um desrespeito com o eleitor.

CC: E a adesão de políticos tradicionais como Ronaldo Caiado e os Bornhausen no PSB...
MS: O Caiado disse hoje que já caiu fora (risos). Eu e o Caiado somos muito coerentes. Ele é inimigo dos índios, dos trabalhadores rurais. É muito coerente. Se eu ficar, ele sai na hora. E se ele ficasse, não teria como eu permanecer. Aí as pessoas me dizem: “E o Bornhausen?” Não é o pai, é o filho dele. Não conheço esse jovem Bornhausen. Cito como exemplo o César Dotto, lá no Acre. Pedro Dotto, pai do César, era um fazendeiro da velha guarda, com visão arcaica. Mas o filho dele não era ruralista, e sim um jovem engenheiro que tinha o direito de trabalhar. E foi trabalhar no governo do PT. Tentavam criar para mim todo o tipo de constrangimento. Mas não era o Pedro Dotto, era o jovem César, que tem o direito de ser quem é, de ser outra pessoa. Ele não vai mudar o nome do pai dele, porque em uma democracia, as pessoas têm direito de ser quem são.

CC: De qualquer forma, não fica mais complicado manter a sua posição de crítica distante?
MS: Não, não fica. O Caiado já saiu. E é só o começo. O PSB é um partido histórico da luta em defesa da democracia, da luta social. A referência de Eduardo é o seu avô, Miguel Arraes.