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13 de junho, o dia que não terminou

por Fhoutine Marie — publicado 16/09/2013 15h43, última modificação 16/09/2013 17h43
A violência policial vista nas manifestações de 7 de Setembro demonstra que os abusos de poder prosseguirão
Fernando Frazão/Agência Brasil
Protestos

Rastro de destruição deixado por manifestantes que participaram dos protestos de 7 de Setembro caminhando da Cinelândia, no centro, até Laranjeiras

Os anos 90 foram marcados por transformações intensas na política mundial. De um lado, o colapso do regime soviético ajudou a sedimentar o consenso em torno da democracia liberal como a única forma de governo possível no mundo pós Guerra Fria. A partir daquele momento disseminou-se a descrença na política radical. Quaisquer reivindicações teriam de se dar dentro do estado democrático de direito. No Brasil, o consenso em torno do sistema democrático foi fortalecido por um episódio curioso: o impeachment de Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito pelo voto direto após 21 anos de ditadura civil-militar.

Jovens ligados ao movimento estudantil foram às ruas pedir a saída do presidente e protestar contra a corrupção. Vestidos de preto e com o rosto pintado com as cores da bandeira nacional, o movimento ficou conhecido como “caras-pintadas”. A democracia restabelecida no país parecia conter em si a solução para seus limites: caso o povo estivesse insatisfeito com a conduta de um representante já sabia como tirá-lo de lá.

Contudo, a promessa de redenção da política nacional pela pressão popular plasmada nos caras-pintadas não durou mais que uma estação. Com a estabilidade institucional veio também a estabilidade econômica, a ampliação do acesso aos bens de consumo. Política passou a ser sinônimo de instituição e a participação popular ficou reduzida ao voto. Um dos efeitos imediatos desse processo de institucionalização foi o aprisionamento dos movimentos sociais. Passeatas e outras manifestações de rua precisam da regulação e da autorização do Estado, que a qualquer momento pode reagir com violência, suspendendo temporariamente a ordem jurídica no tratamento dos manifestantes.

Passados 21 anos as cidades grandes brasileiras foram novamente tomadas por movimentos populares no começo de junho de 2013. Os atos convocados pelo Movimento Passe Livre (MPL), cuja principal demanda é a gratuidade nos transporte público, tinham como objetivo uma pauta clara e imediata: a revogação do aumento das passagens dos transportes públicos em diversas cidades do Brasil. A estratégia escolhida foi interditar o trânsito em vias de grande circulação. O Estado reagiu com violência, amparado por grandes veículos de comunicação do País,  que endossavam as ações repressivas, afirmando que era necessário fazer o uso da força contra os “baderneiros” e “vândalos”, acusados de depredar o patrimônio público e cercear o direito de ir e vir do cidadão - como se os manifestantes, ao “perturbar a ordem pública”, automaticamente estivessem destituídos de seus direitos e de sua cidadania.

O resultado foi uma explosão de violência policial cujo ápice se deu na noite de 13 de junho, em São Paulo. Os manifestantes foram cercados pela tropa de choque da Polícia Militar, que tentou dispersar o protesto e impedir que chegasse à Avenida Paulista atirando bombas de efeito moral, spray de pimenta e balas de borracha contra 22 mil pessoas que seguiam o caminho entoando o coro “Sem violência!”. Muitas pessoas foram detidas por estarem portando tintas, camisetas de partidos ou movimentos sociais e, principalmente, pelo porte de vinagre - substância utilizada para atenuar os efeitos do gás lacrimogêneo.

No dia seguinte os relatos publicados pelos meios de comunicação e redes sociais mostraram a dimensão daquela noite de terror. Os meios de comunicação que antes haviam clamado pelo rigor das autoridades passaram a se posicionar a favor dos manifestantes. Quatro dias depois, milhares de pessoas se juntaram às manifestações em São Paulo e em outras tantas capitais brasileiras. Na semana seguinte a revogação do aumento das passagens foi anuncida em São Paulo e outras cidades do País. Contudo, um novo capítulo dessa história estava para começar.

Após a revogação do aumento da passagem em São Paulo o MPL voltou a se reorganizar em torno de sua pauta original e foi alvo de insultos nas redes sociais sob acusações de ter “se vendido”. Apesar da tentativa de uma revista semanal tentar criar um líder que ocupasse o vácuo de poder, nenhum grupo, partidário ou não, conseguiu preencher este lugar. Sem ter a quem seguir, muitos dos que foram às ruas no calor dos acontecimentos, rejeitando os partidos e os vândalos, acabaram se resignando cinicamente e voltaram para casa, talvez à espera da próxima eleição.

Os gritos de “Sem violência!” entoados pelos presentes nas manifestações pela redução da tarifa de transporte público em São Paulo, em junho de 2013 tiveram um efeito perverso: o surgimento de  uma polícia interna dos movimentos. Os manifestantes passaram a vigiar uns aos outros contra depredações, como se assumissem que de alguma forma os danos ao patrimônio dos primeiros atos   houvessem autorizado a violência estatal contra eles investida. Nas redes sociais falava-se em separar “os verdadeiros manifestantes” dos “vândalos”, de sentar no chão para facilitar o trabalho da polícia. Militantes de partidos de esquerda foram hostilizados pelos recém-chegados aos gritos de “Sem partido”, que ignoravam que uma das premissas básicas de uma sociedade democrática é justamente a existência de partidos políticos. Algumas semanas depois, a grande mídia nacional passou a se interessar pelos black blocs, grupos de manifestantes que costuma compor a linha de frente em protestos em diversas partes do mundo. Cobrir o rosto em manifestações tornou-se ilegal. Passou a existir um tipo certo de manifestante: o cara-pintada. Alegre, usando as cores da bandeira nacional, entoando hinos sobre ser brasileiro. Com muito orgulho e com muito amor.

Passados três meses, a noite de 13 de junho ainda não terminou. A violência policial não terminou, assim como não terminou a condenação moral dos manifestantes e a criminalização dos movimentos sociais. Reitera-se a figura do criminoso político, do vândalo, do anarquista, daquele que não está interessado em participar da “festa da democracia”. As demandas trazidas pelos novos caras-pintadas – que não são nem de esquerda, nem de direita, muito pelo contrário - assim como seus antecessores de duas décadas atrás corroboram a ideia de que a transformação política só pode vir pela via institucional. Diante da falta de união entre o povo que acordou e o povo que nunca dormiu, o Estado permanece como o único vetor possível para a política. A violência policial vista nas manifestações de 7 de Setembro demonstra que os abusos de poder prosseguirão, independente do apoio de personalidades nacionais aos mascarados, que continuam correndo da cavalaria, sentido o cheiro do gás e levando bordoadas como na noite de 13 de junho.

 

Fhoutine Marie é professora universitária e doutoranda em Ciência Política

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