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Como a ascensão da classe C causou uma revolução social

por Roberto Rockmann — publicado 12/11/2014 01h57
Fatia com 108 milhões de brasileiros gasta mais de 1,17 trilhão de reais e movimenta 58% do crédito
Pedro Carrilho

No fim de 2011, Priscila de Oliveira deu o primeiro passo para alcançar seu maior sonho. Com o dinheiro acumulado em dez anos de trabalho como vendedora de uma loja de joias no bairro do Brás, em São Paulo, ela deu entrada em um apartamento em Ferraz de Vasconcelos, na região metropolitana, onde seus pais se casaram. Assinado o contrato com a construtora, ela bateu à porta de uma agência da Caixa Econômica Federal para financiar o restante da aquisição em 30 anos. Aos 31 anos, cursa uma faculdade de Administração à noite, trabalha como assessora administrativa e paga 500 reais fixos por mês pelo financiamento habitacional. “Consegui comprar meu primeiro imóvel, o que dá muita segurança”, diz Priscila, que divide o apartamento com o namorado, Luiz, que trabalha na casa.

Em agosto, deu uma entrada de 10% do valor para a compra do primeiro veículo, recorreu a um banco para financiar o restante em 48 meses e pagar o seguro por um ano. “Fui a primeira da família a comprar um carro zero quilômetro, não irei com ele ao trabalho, porque gastaria muito com gasolina, mas usaremos para passear”, comenta Priscila, que gasta quatro horas por dia no trajeto entre sua casa, o trabalho em Pinheiros e a faculdade.

Em dez anos, o crédito habitacional passou de uma fatia de 2,5% do PIB para 7,5% e tornou realidade para milhões de famílias o sonho da casa própria. O crédito em geral aumentou de 25% do PIB em 2001 para 56,3%. A maior oferta de crédito juntou-se ao aumento significativo do salário mínimo e à queda do desemprego, de 12% em 2003 para 7,1% no primeiro trimestre.

A pirâmide de classes econômicas transformou-se em um losango com o crescimento da classe média e a melhora do padrão de renda. A classe C é composta de cerca de 108 milhões de pessoas que gastaram mais de 1,17 trilhão de reais em 2013 e movimentaram 58% do crédito. A chamada nova classe média concentra-se na Região Sudeste, com 43%, seguida do Nordeste (26%), Sul (15%), Centro-Oeste (8%) e Norte (8%), segundo estudo da Serasa Experian e Data Popular.

Entre 2004 e 2010, 32 milhões ascenderam à categoria de classes médias (A, B e C) e 19,3 milhões saíram da pobreza. Para o secretário de Assuntos Estratégicos do governo, Marcelo Neri, o caso brasileiro deve ser analisado “separando a foto do filme”. O Índice de Gini (medida de desigualdade em que, quanto mais próximo do 1, mais concentrada ou desigual é uma sociedade) caiu de 0,607 em 1990 para 0,526 em 2012. “É uma revolução, mas a desigualdade ainda é muito alta”, destaca.

A fotografia atual mostra o País com o 18.º pior Índice de Gini do mundo, mas o filme aponta forte redução da diferença de renda entre brasileiros ricos e pobres nos últimos dez anos. De acordo com dados do Censo, a desigualdade caiu em 80% dos municípios brasileiros de 2000 a 2010, enquanto aumentou em dois terços dos países. Em 2000, 41% das cidades possuíam IDH muito baixo. Dez anos depois, apenas 0,6% delas tinha indicadores considerados muito baixos. “É uma mudança estrutural”, avalia Neri.

A renda dos 5% mais pobres cresceu 137% entre 2001 e 2012, enquanto a dos 5% mais ricos, apenas 26%. “A renda da população mais pobre cresceu 550% mais rápido, vivenciando um crescimento chinês”, observa. A inclusão explica-se por um aumento de renda e redução da desigualdade. O maior motor do processo é a elevação dos rendimentos do trabalho. A taxa de formalização medida pela contribuição dos trabalhadores à Previdência Social subiu de 46,5% em 2004 para 58,5% em 2011. Esse movimento coincidiu com a queda do desemprego, de 12,3% em 2003 para 5,5% em 2012. Nos últimos dez anos, 10 milhões de brasileiros viajaram de avião pela primeira vez no Brasil. Na maior cidade do País, São Paulo, o número de passageiros transportados por rodovias e ferrovias, desde 2003, dobrou e superou 6 milhões de viagens diárias.

A ascensão social ampliou a demanda por investimentos em infraestrutura e fez também com que muitos buscassem proteção das suas conquistas. Esse é um dos motores do crescimento dos planos de saúde e aposentadoria.  A previdência privada recebeu, em maio, 8,5 bilhões de reais em novos depósitos, com alta de 4,6% na comparação com maio de 2013 e avanço de 26,19% ante abril deste ano, segundo dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida. Em maio, a carteira de investimentos totalizou 398,9 bilhões de reais. A ascensão terá impacto político e social crescente. As manifestações de junho de 2013, quando milhares saíram às ruas, podem ser um indício de que o brasileiro, depois das conquistas dos últimos anos, quer mais.

Essa revolução social tem efeito no empreendedorismo. “A agenda do século XXI precisa contemplar gestão mais eficiente, produtividade, inovação e conhecimento dos hábitos da nova classe média”, destaca o presidente do Sebrae, Luiz Barretto. Em relação à inovação, será investido um volume recorde de 1 bilhão de reais em 2014 e 2015 nas pequenas empresas.

Em consequência da ascensão socioeconômica e do aumento do consumo, mais de 4 milhões de empreendedores formalizaram-se nos últimos cinco anos. “O empreendedorismo passou a abranger outras áreas da sociedade. Em regiões mais carentes, veem-se cabeleireiras, manicures, bares, e isso cria o desafio de avançar na formalização.”

A ascensão social estimula novos negócios. O aumento do volume de planos de saúde e de pessoas em condições de recorrer a consultas médicas particulares pela primeira vez abriu espaço para novos empreendimentos. Criado em fevereiro de 2012, o Boaconsulta prepara-se para crescer fora do mercado paulista, ampliar o tíquete médio de serviços e ganhar mais espaço no mercado de fornecimento de sistemas de gestão de profissionais do setor. Os números são estimulantes. Cerca de 1 milhão de médicos, dentistas e psicólogos trabalham no Brasil, entre 20% e 25% deles com potencial de migração para plataformas eletrônicas. Há cerca de mil sistemas de gestão no mercado, poucos deles desenhados especificamente para os médicos.

O tíquete médio oferecido pela empresa está em cerca de 30 reais, mas há potencial para atingir 200 reais nos próximos anos. “Além da análise de dados para os clientes, podemos vender prontuários eletrônicos, gestão de faturamento”, prevê Adriano Fontana, sócio da empresa. A receita deve chegar a 3 milhões de reais em 2014 e a 7 milhões em 2015. Com 3 mil consultórios cadastrados na cidade de São Paulo, a empresa, com agendamento online a qualquer hora do dia para pacientes e diversas ferramentas para os profissionais de saúde, como plataforma de gestão administrativa, prepara-se para ingressar em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro no fim do ano. “No Rio, faremos parcerias com médicos de renome como realizamos no início em São Paulo. Em Minas Gerais, o mercado está muito ligado a planos de saúde”, destaca Octavio Domit, um dos fundadores.