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Mais Admiradas

As Empresas Mais Admiradas

As empresas e os líderes mais admirados do Brasil

por Paulo Secches — publicado 28/10/2013 22h50
Confira a lista das companhias e dos líderes premiados em 2013 por CartaCapital

Quando olhamos os dados das Mais Admiradas de cada ano, pode parecer aos olhos mais desatentos que se trata apenas de mais um resultado de pesquisa que não reflete as demandas da sociedade brasileira.

No entanto, quando verificamos os resultados por uma perspectiva mais ampla, fica claro que eles são reflexo do ciclo atual de transformação pelo qual passa a sociedade brasileira como um todo.

De fato, se olharmos a partir da década de 60, veremos três claros ciclos da sociedade brasileira.

O primeiro ciclo foi o que podemos chamar de Transformações Estruturais. Nas décadas imediatamente seguintes à dos 60, cinco mudanças estruturais ocorreram na sociedade brasileira:

Urbanização do País: passamos de uma sociedade com 45% da população nas áreas urbanas na década de 60 para 56% na de 70, 68% na de 80, 75% na de 90 e 81% em 2000.

Não havia como caminhar mais aqui, a não ser marginalmente. A taxa de urbanização

dos países desenvolvidos é de 82%. Porcentagem da População Economicamente Ativa (PEA) no total da população:

Na medida em que trazíamos grandes contingentes da população para as áreas urbanas, simultaneamente os fomos incorporando à PEA, que passou de 32% do total da população nos 60 para 36% nos 80 42% nos 90 e chegou a 48% em 2000. Se, na década de 60, para cada pessoa que trabalhava outras duas viviam da mesma renda, em 2000 tínhamos apenas uma adicional vivendo da mesma renda.

 

Porcentagem de Mulheres na PEA: parte significativa do movimento acima foi em razão da inserção da mulher na PEA, que passou de 19% nos 60 para 22% nos 70, 28% nos 80, 36% nos 90 e chegou a 42% em 2000. Hoje já é de quase 50%.

Redução da Taxa de Fertilidade: na medida em que a mulher foi se inserindo no mercado de trabalho e a população se transferindo para as áreas urbanas, a taxa de fertilidade caía vertiginosamente: de 6,26% nos 60 para 5,75% nos 70, 4,35% nos 80, 2,85% nos 90 e chegou a 2,38% em 2000, e hoje está em 1,90%.

Diminuição do tamanho dos lares: esse processo, obviamente, teve como consequência a diminuição do número de pessoas vivendo em cada domicílio: passamos de 5,9 nos 60 para 5,1 nos 70, 4,5 nos 80, 3,9 nos 90 e chegamos a 3,5 em 2000.

Esses cinco macromovimentos combinados mudaram estrutural e definitivamente a sociedade brasileira no início

dos anos 2000. As condições para reversão do processo instaurado são impensáveis e constituem um cenário impossível. Precisaríamos que:

- As pessoas decidissem abandonar as cidades e voltar para o campo.

- Parassem de trabalhar.

- As mulheres decidissem sair do mercado de trabalho, abrir mão da sua independência e voltar a parir como suas avós.

Se acontecessem esses movimentos de volta, em 50/60 anos o número de pessoas vivendo em cada domicílio voltaria a crescer e, como haveria menos dinheiro para sustentar mais pessoas, não seria possível dar educação a todas as novas crianças.

Assim, em mais 50/60 anos, voltaríamos a ter um país com renda menor, menos educado, com um padrão de vida mais baixo e menos demandante (política e socialmente). Um cenário impensável, mesmo para os mais pessimistas.

No início da década de 2000, havíamos irremediavelmente entrado na modernidade, por mais pessimistas que pudessem ser alguns discursos sobre “décadas perdidas”.

Essa entrada na modernidade gerou na década seguinte (a primeira do século XXI) um segundo ciclo, o do Pertencimento.

Queríamos pertencer a essa sociedade moderna e, para tal, precisávamos possuir seus símbolos/ícones de modernidade.

E saímos comprando tudo que podíamos para nos inserir, para pertencer a essa sociedade moderna:

- O número de celulares comprados saltou de 40 milhões em 2000 para 200 milhões em 2010 e hoje bate em 280 milhões.

- O número de internautas saltou de 9 milhões em 2000 para 48 milhões em

2010.

- A propensão para a compra de um imóvel saltou de 35% da população para 55%, enquanto o número de casas próprias saltou de 44,7 milhões para 57,3 milhões de 2000 a 2010.

- O número de carros saltou de 25,7 milhões em 2000 para 48,4 milhões em 2010. • O número de pessoas voando de avião saltou de 30 milhões/ano em 2000 para

87 milhões/ano em 2010.

- O número pessoas viajando para fora do País: de 8 milhões em 2000 para 16 milhões em 2010.

• O número de pessoas comendo fora de casa: de 40 milhões/dia em 2000 para 62 milhões/dia em 2010.

Evidentemente, um economista atribuiria esse movimento ao modelo de crescimento centrado no crédito ao consumo (o que não deixa de ser verdadeiro), mas possível apenas porque as pessoas queriam consumir e pertencer à sociedade moderna instalada.

Criar condições de acesso a essa sociedade foi a grande “sacada” dos últimos governos

do País, que, ao final... se surpreenderam e não entenderam a emergência do novo ciclo (o terceiro) que se anunciou nas ruas, o da “Qualificação”: do consumo, dos serviços públicos, do comportamento ético e da classe política brasileira.

Sinteticamente, poderíamos dizer que, num primeiro ciclo, as pessoas se transferiram para a sociedade urbana modernizada, em um segundo ciclo buscaram acesso/ pertencimento a ela e, agora, em um terceiro ciclo, procuram a sua qualificação, que se manifesta no consumo, nas demandas por melhores serviços públicos e na exigência de um comportamento mais ético dos governantes e políticos.

Outro nome para essa “qualificação” poderia ser traduzido por uma forte demanda por inovação.

Demanda por inovação que se manifesta fortemente no consumo:

Já não basta ter acesso à internet, é preciso buscar uma internet mais rápida: a velocidade média da banda larga no Brasil (medida em kbps) saltou de 863 em 2007 para 1.803 em 2011. E ainda reclamamos muito... queremos mais.

O número acumulado de brinquedos certificados pelo Inmetro saltou de 1,3 bilhão em 2002 para 1,7 bilhão em 2006.

O número de unidades de negócio com certificação ISO 9001 saltou de 8.584 em 2002 para 30.806 em 2008.

O volume de consumo de produtos Light e Diet (indicativo da busca de uma alimentação mais saudável) saltou de 1,7 bilhão de dólares em 2000 para 4,3 bilhões em 2005.

A quantidade de categorias de produtos certificadas com o selo Procel saltou de 8 em 2000 para 31 em 2009.

O número de smartphones vendidos saltou de 1,4 milhão no primeiro trimestre de 2011 para 5,4 milhões no primeiro trimestre de 2013. O que fez que com que a porcentagem de smartphones sobre a base de celulares saltasse de 10,5% para 38,3% no mesmo período.

O faturamento do varejo online saltou de 0,5 bilhão de reais em 2000 para 13,6 bilhões de reais em 2010.

Enquanto os e-consumidores saltaram de 1 milhão para 23 milhões no mesmo período.

Esses são apenas alguns dos inúmeros indicadores que mostram que não buscamos mais apenas consumir e ter acesso, mas queremos qualificação do acesso conseguido, exigimos inovação nos produtos consumidos, nos serviços utilizados, nos políticos brasileiros e nas práticas políticas. Por que as empresas estariam ainda distantes dessa realidade? Por que os executivos que responderam à pesquisa das Mais Admiradas também estariam distante dessa realidade ? Por que seriam eles seres extraterrenos desassociados das demandas da sociedade brasileira?

Obviamente que não.

E como essa demanda se reflete na Admiração?

Observamos pelos menos quatro claros reflexos, a saber:

Entre as cinco Mais Admiradas temos duas empresas (Apple e Google) que trazem

como mais fortes características a Inovação (26,2% e 13%, respectivamente).

A Apple, que caiu para o segundo lugar entre as Mais Admiradas, viu a sua associação

como a Mais Inovadora cair de 41,6% para 26,2%. Ou, o contrário, a perda da percepção de Mais Inovadora (de 41,6% para 26,2%) a trouxe para o segundo lugar entre as Mais Admiradas.

A Natura, que recupera o primeiro lugar de Empresa Mais Admirada no Brasil, traz o perfil do que talvez seja a Empresa Mais Inovadora na sua relação com a sociedade:

- A Mais Comprometida com o Desenvolvimento Sustentável (55,7%)

- A Mais Responsável Socialmente (39,5%)

- A Mais Ética (19,3%)

- A que Mais Respeita os Consumidores (16,1%)

- A terceira com melhor Qualidade de

Produtos e Serviços (12,7%), apenas 1,34% abaixo da Apple (14%).

E neste ano, entre as cinco Empresas Mais Admiradas, encontramos um banco, o Itaú, que apresenta os seguintes traços mais fortes:

- Solidez Financeira (32%) e Qualidade de Gestão (13,3%)

- Mais presente e ativo nas Redes Sociais (11,5%)

- Comprometido com Desenvolvimento Sustentável (7,2%)

- A segunda Empresa Brasileira Mais Ética (6,4%)

Ou seja, a Admiração exige melhor “qualificação” das empresas. Não basta apenas ter produtos e serviços de qualidade e inovadores, ou, no caso de um banco, ser sólido e bem gerido, é preciso ir além.

É preciso estar comprometido com o desenvolvimento sustentável, ser responsável socialmente, ser ético, respeitar os consumidores e interagir com eles nos novos canais de comunicação (as redes sociais).

Enfim...queremos mais...o melhor.

O melhor produto, melhores serviços públicos, melhores e mais éticos políticos, um governo mais eficiente, empresas mais comprometidas com a sociedade.

O Melhor...

 

Paulo Secches é presidente da Officina Sophia