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Kuwait: após o terror, é hora de dar as mãos

por Nejoud Al-Yagout* — publicado 08/07/2015 11h45
Xiitas e Sunitas devem se unir em resposta ao atentado que matou 27 pessoas no fim de junho
Divulgação

Em 26 de junho de 2015, o Estado Islâmico atacou uma mesquita xiita no pequeno e pacífico Kuwait durante as orações de uma sexta-feira do mês sagrado islâmico do Ramadã. Em meia hora, o emir (comandante) do país, xeque Sabah Al-Ahmed Al-Sabah, chegou ao local do ataque sem qualquer proteção policial. Quando os guardas o avistaram, pediram que deixasse a área, ainda desprotegida. Mas foi com lágrimas nos olhos que ele respondeu: "Estes não são meu povo; estes são meus filhos."

Era um indicativo da unidade no Kuwait. Embora existam mesquitas separadas para sunitas e xiitas, esses dois ramos do islã oraram lado a lado depois do ataque nas mesquitas ao redor do Kuwait, um país em que 30% dos seus cidadãos são xiitas. O funeral para os 27 mártires foi assistido por 200 mil cidadãos. Em um país que abriga cerca de 3,3 milhões de habitantes, essa proporção é astronômica.

Os terroristas se enganaram redondamente ao acreditar que poderiam semear a discórdia na minha terra. Na verdade, a demonstração de compaixão de nossa comunidade no rescaldo de tudo foi elogiada até mesmo pelas nações vizinhas, onde a Primavera Árabe e o sectarismo vêm deixando os países em retalhos.

Como afirmou um deles, não há vigilantes que tomam a lei em suas mãos no Kuwait. A munição utilizada pelos kuwaitianos foi o amor. Logo após a notícia, as pessoas tomaram as redes sociais para enviar mensagens de condolências às famílias que perderam seus entes ou para as mais de 200 pessoas que ficaram feridas no ataque. As pessoas correram para os bancos de sangue ajudar os sobreviventes; médicos, enfermeiros e o todo o staff médico – mesmo aqueles em dia de folga – foram para os hospitais atender os feridos.

Ao redor do KUwait, cartazes reproduziam as palavras do xeque: "Estes são meus filhos". O Kuwait enviou uma mensagem, alta e clara. A que qualquer inimigo que tente nos dividir só vai conseguir nos unir. Naquele dia, nós, kuwaitianos, transformamos uma tragédia em oportunidade de reforçar a união do nosso povo.

Não foram apenas os sunitas e xiitas que deram as mãos, mas todos os cidadãos do Kuwait, independentemente da sua fé, raça e origem. Uma entidade assistencial organizou caminhadas diárias entre os dias 28 de maio e 2 de julho. A intenção é relembrar os ataques e homenagear os mártires do Hamra Tower. Essas são as nossas respostas à provocação. Deixamos nosso manifesto de raiva e dor em forma de paz e amor. Era como se o Kuwait estivesse gritando: “Espere um minuto! Aqui não. Você pode espalhar o seu medo em outros lugares. Aqui, reina o amor. E em face de qualquer ataque, estamos unidos. Unidos”.

Os kuwaitianos têm experimentado essa unidade há algumas décadas. Xiitas vivem em paz com os sunitas. Aqui, é permitido, inclusive o casamento entre os dois ramos. Mesmo entre as famílias que defendem o casamento apenas em "sua própria espécie", não há tentativa de evitar um casamento que contrarie essa orientação. Existe até uma piada no mundo muçulmano que chama de ‘sushi’ os filhos de pais sunitas (Sunni) e xiitas (Shiite).

Funeral no Kuwait
Funeral no Kuwait reúne milhares
Ocorre que, desde a última semana, o vínculo entre esses dois ramos do islã só ficou mais forte. Na sequência aos ataques, o Gulf Bank – uma das instituições financeiras mais importantes do Kuwait – lançou uma propaganda em que um menino pergunta ao seu pai se ele é sunita ou xiita. O pai responde pedindo ao filho que ele olhe bem nos olhos de quem lhe fizer essa pergunta e responda: "Eu sou do Kuwait".

Essa unidade é o futuro para o nosso país. Xiitas, embora minoria, desfrutam de posições em todas as esferas sociais. Aos xiitas, por exemplo, é concedido um dia de folga por ano em homenagem ao martírio de um dos netos do profeta Maomé, Hussein. Sunitas, no entanto, trabalham nesse dia. Todos os outros feriados muçulmanos são compartilhados por ambos.

Qualquer sectarismo é vigiado de perto pelo governo. E, embora nos últimos anos o Kuwait tenha apertado o cerco contra as organizações terroristas e mantido um olhar atento sobre as atividades em mesquitas, talvez esse atentado seja um chamado para estreitarmos ainda mais o nosso vínculo.

O terrorista não era nem mesmo do Kuwait. Ele era da Arábia Saudita. Voou no dia dos ataques com um objetivo em mente: provocar o ódio e a divisão. Mas nem mesmo esse fato afrouxou os laços do nosso país com a Arábia Saudita. Sabemos que, mesmo por lá está existe luta contra o terrorismo dentro das suas fronteiras, e temos de apoiar uns aos outros nesse esforço. E, embora sejamos um país que encoraja a tolerância, devemos tomar cuidado com quem não compartilha dos nossos ideais.

Temos de tomar ainda mais cuidado para que os cidadãos de nosso país não sejam influenciados pelo sectarismo. Nosso sistema educacional, por exemplo, não deveria se concentrar apenas em matemática, ciências e história, mas em tolerância, perdão e inclusão. Isso pode parecer idealista, mas corremos o risco de mais dissensão se não aprendendo com este incidente. Nossos jovens precisam ser constantemente lembrados de exercer o amor em todas as situações.

Embora o amor não seja uma linguagem que se aprenda, ele pode ser desaprendido se a frequência do medo se aprofundar. É o medo que recruta terroristas e é essa mesma frequência a sua arma. Mas, agora, estamos despertando para um mundo cuja frequência se eleva em razão das novas tecnologias. Estamos mais perto um do outro. O amor a um clique de distância. E, quando esse amor nos penetra, percebemos que nada importa. Judeu, cristão, budista, muçulmano, jain, hindus, sikhs, agnóstico, ateu; preto, branco, amarelo, marrom, CEO, zelador, extrovertido, introvertido, convencional, exótico, homossexual, heterossexual. Xiitas e sunitas. Viva esse despertar!

*Nejoud Al-Yagout é uma poetisa no Kuwait