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The Observer

WWF é acusada de "vender a alma" para corporações

por The Observer — publicado 15/10/2014 05h37, última modificação 16/10/2014 10h39
Autor de "Pandaleaks" diz que grupo ecologista forjou ligações com empresas que o usam para "esverdear" suas operações
SXC
Pandaleaks

Livro "O Silêncio do Panda" acusa a WWF International, em Genebra, de receber milhões de dólares de corporações como Shell, Monsanto e Alcoa, entre outros

Por John Vidal

A WWF International, o maior grupo de conservação da natureza do mundo, foi acusado de "vender sua alma" ao forjar alianças com empresas poderosas que destroem a natureza e usam a marca WWF para "esverdear" suas operações.

As alegações são feitas em um livro explosivo até agora proibido na Grã-Bretanha. A obra, chamada O Silêncio dos Pandas, tornou-se um best-seller na Alemanha em 2012, mas, por causa de uma série de denúncias e processos legais, ainda não foi publicado em inglês. Revisado e reintitulado de "Pandaleaks", ele sairá na próxima semana.

Seu autor, Wilfried Huismann, disse que a WWF International, sediada em Genebra, Suíça, recebeu milhões de dólares por meio de relacionamentos com governos e empresas. Corporações globais como Coca-Cola, Shell, Monsanto, HSBC, Cargill, BP, Alcoa e Marine Harvest se beneficiaram da imagem verde do grupo somente para realizar seus negócios sem empecilhos.

Huismann afirma que ao criar "mesas redondas" de industriais sobre matérias-primas estratégicas como óleo de palmeira, madeira, açúcar, soja, biocombustíveis e cacau, a WWF tornou-se uma potência política que está próxima demais da indústria e em risco de se tornar dependente do dinheiro das empresas.

"A WWF é um útil provedor de serviços para as gigantes dos setores de alimentos e energia, fornecendo à indústria uma imagem verde e progressista... De um lado, ela protege a floresta e, de outro, ajuda as corporações a reivindicar terras que estavam fora de seu alcance. A WWF ajuda a vender a ideia de reassentamento voluntário dos povos indígenas", diz Huismann.

A filosofia conservacionista da WWF mudou consideravelmente em 50 anos, mas até pouco tempo atrás se considerava de modo geral que as pessoas e a vida natural não podiam conviver, o que levou o grupo a ser acusado de cumplicidade na expulsão de povos indígenas das florestas da Índia e da África.

O livro também afirma que a WWF, que foi criada pelo príncipe Philip da Grã-Bretanha e o príncipe Bernhart dos Países Baixos em 1961, possui um clube de elite com 1.001 das pessoas mais ricas do mundo, cujos nomes não são revelados. Industriais, filantropos, ultraconservadores, naturalistas da classe alta, elas formariam uma rede de "velhos amigos com influência nos corredores do poder político e corporativo global".

Nomes de membros que vazaram ao longo dos anos incluem o barão Von Thyssen, o dono da Fiat, Gianni Agnelli, e Henry Ford, além de políticos como Mobutu Sese Seko, do Zaire, o ex-presidente do Comitê Olímpico Internacional Juan Samaranch e o barão da cerveja Alfred Heineken.

"O 'clube 1001' ainda é importante para a WWF, apesar de não ser um comitê central secreto. Eu detesto teorias da conspiração, mas estou convencido de que o discreto 'clube 1001' ainda influencia as decisões estratégicas da WWF, porque muitos de seus membros são atores importantes em poderosas corporações financeiras e industriais globais que governam o planeta", disse Huismann ao Observer.

"Pandaleaks" também ataca o relacionamento frouxo da WWF com o setor de energia. Seu primeiro patrocinador corporativo foi a Shell, que teve um presidente que também dirigiu a WWF. A organização disse recentemente que está encerrando gradualmente as doações de empresas de combustíveis fósseis, mas ainda não terminou, e em 2010 foi paga pela Shell e a BP para estudar quais florestas do hemisfério sul deveriam ser mantidas e onde a terra poderia ser limpa para uso industrial.

A WWF afirma que o meio ambiente só pode ser protegido em diálogo com as populações envolvidas nos setores extrativistas e poluidores. "'Pandaleaks' é o livro de um desacreditado documentarista da televisão alemã que desconsidera a maioria das normas e padrões básicos de jornalismo. Não é factual e não apresenta uma imagem representativa da WWF", disse um porta-voz da organização.

"A WWF tenta exercer alguma influência política nos interesses de seus membros e das causas que defendemos. Buscamos envolver estrategicamente a indústria, que tem grandes impactos ambientais.

"Não acreditamos que 'vendemos nossa alma' em qualquer momento, mas é verdade que hoje somos muito mais rígidos sobre de que interesses aceitamos doações e em que interesses trabalhamos. Estamos nas etapas finais de um projeto de vários anos de atualização de nossa transparência global e padrões de responsabilidade nas parcerias com empresas."

O porta-voz também defendeu o histórico da organização em relação a companhias energéticas como a Shell e sobre a relocação de povos indígenas. "Globalmente, a WWF esteve ativamente saindo de relacionamentos com companhias de combustíveis fósseis há mais de uma década. Menos de 10% [da receita] vieram de empresas em 2013. Para a WWF International, a proporção de financiamento corporativo foi de 6% em 2013. A WWF ainda tem o 'clube 1001' como um de vários veículos para captar doações à WWF International.

"Na Índia, houve relocações forçadas, mas a WWF-Índia sempre se opôs a estas e trabalhou para que os povos da floresta que entraram em acordos voluntários de relocação não fossem privados de direitos legais ou enganados."

Sob seu primeiro presidente, o príncipe Bernhart, a WWF teria tentado montar um enorme parque nacional que iria da África do Sul até o Quênia. O livro, que se baseia em evidências apresentadas a uma comissão judicial sul-africana em 1996, diz que um veterano da SAS liderou uma equipe de mercenários britânicos à África do Sul em 1989 para treinar unidades contra caçadores ilegais para combater a caça e comercialização de rinocerontes. A operação, que falhou, teria sido financiada em parte pelo príncipe Bernhart. Uma investigação do caso pelo príncipe Philip descobriu que não foram usados fundos da WWF.

O livro também descreve como o príncipe Philip, o primeiro presidente da WWF na Grã-Bretanha, matou um tigre no parque Ranthambhore, na Índia, pouco depois da fundação do grupo. Em uma entrevista a Huismann, Philip disse: "Nunca cacei grandes animais, exceto naquela vez na Índia. A única maneira como você pode ter certeza de conseguir uma população de vida natural razoável é garantindo que elas estejam equilibradas. Você não pode deixar só a cargo da natureza."

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