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Vitória para a democracia da Nigéria

por Deutsche Welle publicado 01/04/2015 12h58
Até há pouco partia-se do princípio que o partido governista sempre vencia as eleições. Primeira troca de poder desde retorno à democracia é um grande passo para o país
AFP
Muhammadu Buhari

A eleição de Muhammadu Buhari é positiva para a democracia porque simboliza uma troca de poder. Mas o caminho não será fácil para o novo presidente, que terá de arrumar a economia e combater o terrorismo do Boko Haram

Por Thomas Mösch, chefe da redação hauçá da Deutsche Welle

"Parabéns, Nigéria", seria o caso de se dizer. Não por Muhammadu Buhari ser uma escolha especialmente feliz como presidente, mas porque, pela primeira vez desde o retorno à democracia, ocorre uma troca de poder no país.

Até há pouco tempo, a maioria dos nigerianos – e não só eles – acreditava que, de um forma ou de outra, o dominante partido governamental PDP venceria qualquer eleição, quer pelo apoio real do eleitorado, quer através de intimidações e manipulações.

Assim, as eleições presidenciais na Nigéria eram tão emocionantes quanto saber quem vai ser o próximo campeão do futebol alemão. Se a troca de poder transcorrer de forma relativamente pacífica, então pode-se dizer que a democracia na Nigéria deu um gigantesco passo adiante.

Por que foi tão diferente, desta vez? Tudo começou com a união dos principais partidos oposicionistas numa aliança. E aí, num processo atipicamente transparente e democrático, essa aliança conseguiu definir um candidato consensual.

Assim, pela primeira vez, Buhari pôde atrair para si um maior volume de eleitores, para além de seu eleitorado cativo, os muçulmanos no norte nigeriano. Essa conquista se fez sentir em especial no populoso sudoeste do país, onde se situa a metrópole econômica Lagos.

É necessário também fazer uma menção de respeito ao presidente Goddluck Jonathan, que reconheceu de forma rápida e clara a sua derrota. Essa não é uma atitude normal na Nigéria e nem na África.

Jonathan foi um dos melhores cabos eleitorais de Buhari, pois nunca conseguiu se conectar com os habitantes do norte. Prova mais eloquente disso é o seu desinteresse pelo terrorismo do grupo fundamentalista Boko Haram: Jonathan só se dedicou seriamente à luta contra o terrorismo quando este passou a ameaçar a vitória eleitoral que já tinha como certa.

Os anos de fracassos de Jonathan no combate ao terror também atiraram numerosos cristãos nos braços de Buhari. Muitas das aldeias ocupadas pelos terroristas islâmicos são habitadas por cristãos; a grande maioria das adolescentes sequestradas há um ano na localidade de Chibok é cristã.

Muitos cristãos do noroeste e do centro nigeriano, onde assentamentos muçulmanos e cristãos se defrontam, constataram que o presidente não pode ou não quer lhes garantir qualquer proteção em caso de emergência. Assim, no estado de Plateau, constantemente sacudido por confrontações étnicas e religiosas, quatro anos atrás o ex-general Buhari não conquistara mais do que um terço dos votos: desta vez, Jonathan obteve apenas 55% nas urnas.

Quem merece os maiores louvores, entretanto, é o presidente da Comissão Eleitoral Nacional Independente (Inec), Attahiru Jega, que nas últimas semanas teve que suportar uma pressão tremenda.

Primeiro, apoiado pelas Forças Armadas, o governo o obrigou a adiar em seis semanas a votação. Em seguida, políticos ligados ao presidente Jonathan iam a público quase diariamente para exigir a demissão de Jega. Eles o acusavam de conluio com a oposição ou de querer adotar uma tecnologia de leitores de cartão ainda não plenamente amadurecida.

Como já o fizera em 2011, o professor de política manteve a calma. Contrariando as numerosas vozes críticas, a eleição transcorreu de forma ordeira por quase todo o país. Praticamente nenhum observador digno de nota expressou críticas de princípio.

O estado de Rivers, no delta do rio Níger, mostra quão difícil foi a tarefa da comissão eleitoral. Lá, o PDP de Jonathan teria supostamente obtido 1,5 milhão de votos, contra apenas 70 mil para o APC de Buhari. No entanto, o governador local já passara há meses para o APC, tornando-se seu gerente de campanha. O próprio Buhari celebrou a abertura de sua campanha na capital de Rivers, Port Harcourt.

Não é de espantar, portanto, que o diretor regional da comissão eleitoral tenha engasgado seriamente ao anunciar esse resultado tão inverossímil, no domingo, em Abuja. Tudo indica que os tribunais terão muito trabalho pela frente para esclarecer tais questões.

Buhari assume agora um legado penoso. A economia predominantemente dependente do petróleo e o orçamento estatal baseado quase exclusivamente nos lucros petroleiros têm tempos difíceis pela frentre, devido à baixa cotação do ouro negro. O terrorismo do Boko Haram está longe de ser vencido.

No entanto, para Buhari, que também é natural do norte, poderá ser mais fácil reconhecer as necessidades da região do que para seu antecessor. Espera-se também que o ex-militar de 72 anos compreenda que não basta uma vitória armada sobre o Boko Haram, mas que o nordeste do país precisa finalmente de uma perspectiva de desenvolvimento.

O delta do Níger poderá ser uma fonte mais séria de problemas, depois da derrota de Jonathan. Lá, os militantes foram apenas acalmados e puderam se servir à vontade, com a complacência do presidente. Eles certamente procurarão defender as próprias mamatas. Mas conter a corrupção, que sob Jonathan cresceu sem limites, ainda poderá ser uma das tarefas mais fáceis para Buhari. Na verdade, nesse ponto a coisa só pode melhorar.

No geral, o ex-general precisará provar que é, de fato, democraticamente esclarecido. Mesmo Olusegun Obasanjo, seu predecessor tido em alta estima, descambou repetidamente para uma conduta militar e autoritária, após sua eleição em 1999 – demasiadas vezes, em total detrimento dos direitos humanos.