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Política italiana

Vergonha italiana: sequestro e deportação de criança e sua mãe

por Wálter Maierovitch publicado 18/07/2013 17h16, última modificação 18/07/2013 17h24
O grande escândalo diz respeito ao sequestro de uma criança de 6 anos e da sua mãe, e o envio de ambas ao ditador do Cazaquistão

A opinião pública internacional está chocada e receita à Itália, na sua democracia, mais respeito aos direitos humanos, cumprimento  à convenção das Nações Unidas sobre os direitos da criança e punição pela Justiça dos que difundem o ódio racial.

Com efeito, a direita italiana mostrou, mais uma vez, como se comporta mal e mantém laços estreitos com ditaduras: Líbia, no passado e, no presente, com a ditadura no Kazaquistão. O grande escândalo diz respeito ao sequestro de uma criança de 6 anos e da sua mãe e envio de ambas ao ditador do Kazaquistão (no Brasil se prefere grafar Cazaquistão).

Por partes:

1. O vice-presidente do Senado, Roberto Calderoli, revelou, num palanque e durante uma festa da Liga Norte na província de Bergamo, que ao ver a negra ministra para a integração, Cécile Kyenge, lembrava de um orangotango.

Dada a repercussão negativa ao ódio racial revelado, Calderolli  piorou a situação ao tentar consertar a ofensa: “Disse isso porque gosto muito de animais”. Só para recordar e quanto à Legha Nord: ela nasceu separatista, com perfil filo-fascista e a inventar, como demonstrado unanimente pelos historiadores, a existência na antiguidade de uma inteira região, a Pandânia (rio Pó), independente. Assim, pregavam a secessão, criaram uma bandeira e um hino.  Depois de desmascarada, a Liga  passou a se apresentar como federalista e o seu líder e fundador , Umberto Bossi, caiu em descrédito e no ostracismo pelo envolvimento em corrupção e isto ao embolsar, com o filho mais novo, dinheiro público destinado às atividades do partido da Liga Norte.

2. Logo depois de saber que a suprema Corte italiana colocou na pauta de 30 de junho o julgamento de Berlusconi, já condenada por crimes financeiros no chamado caso Mediaset e com aplicação de pena acessória de impedimento perpétua para ocupar função pública, o partido Popolo della Liberta (PDL), cujo mandachuva único é Berlusconi, ameaçou sabotar as sessões do Parlamento e levar o país à ingovernabilidade.

Berlusconi está inconformado com a data fixada para julgamento. E a Corte a fixou para evitar a prescrição que se aproxima. Como represália, os “falcões” berlusconianos idealizaram a acima mencionada sabotagem e a provocar a queda do gabinete do premier Enrico Letta.

3. O fato mais grave e que causa vergonha à Itália diz respeito ao delfim de Sílvio Berlusconi, que é ministro do Interior (Segurança pública) e vice-premier.

O ministro Angelino Alfano mentiu descaradamente  ao dizer que nada sabia quanto à iniciativa, pela chefia da polícia de Estado, do sequestro e da sumária expulsão da Itália, em avião particular a serviço da ditadura kazaca de Nursultan Nazarbayev, da menina Alua Shalayeva-- de 6 anos de idade--  e da mãe Alma Shalayeva.

A propósito, Alua e Alma são, respectivamente, filha e esposa de Mukhtar Ablyazov, um dissidente da ditadura instalada no Kazaquistão por Nazarbayev, no poder desde fevereiro de 1990.

Desde 2009, o dissidente Ablyazov recebeu asilo político britânico e vive em Londres.. A esposa Alma e a filha Alua residem em Roma, numa casa à rua Casal Palocco.

O sequestro e a brutal deportação começou a ser tramada no final de maio deste ano e se efetivou em 14 de junho. Mas, o escândalo só veio a furo nesta semana e culminou com a demissão do chefe de gabinete de Angelino Alfano, o ministro do Interior que esqueceu do ensinamento popular de que a mentira possuir pernas curtas.

Tudo começou como se o embaixador kazaco, Adrian Yelemessov, fosse o chefe da polícia italiana e mandasse no ministério do Interior. Adrian esteve com o chefe de polícia para informar e exigir a prisão (decretada no Kazaquistão)  de Mukhtar, que estaria em Roma a visitar a filha e a esposa. Depois, Adrian solicitou audiência e esteve no palácio Viminale, sede do ministério do Interior.

O ministro Alfano determinou que o embaixador do Kazaquistão fosse recebido pelo seu chefe de gabinete, Giuseppe Procaccini. Só que Alfano alertou Procaccini, pessoalmente, que se tratava de “um caso muito grave”.

Se o caso a ser tratado pelo embaixador kazaco ao chefe de gabinete Procaccini era grave, pergunta-se como Alfano afirma, depois do vergonhoso “pasticcio” a comprometer a imagem da Itália no mundo,  que não sabia de nada. Alfano sustenta, ainda, nunca ter falado com o embaixador kazaco e que  jamais soube da presença de Alma e da menor Alua (friso: 6 anos de idade). Em outras palavras, quer tirar o corpo, -- como se não tivesse responsabilidade política por tão grave caso--, e jogar a culpa no chefe de gabinete, que já pediu as contas, e na polícia. Sobre esse seu comportamento, o prefeito de Florença, Matteo Renzi, condenou o hábito de dirigentes italianos de colocarem, para salvar os seus cargos, a culpa nos “peixes miúdos”: Renzi é do PD, faz oposição interna e se apresentará em breve como candidato a secretário-geral do partido Democrático (PD). Sua meta é ser primeiro-ministro, evidentemente.

Alfano, o delfim de Berlusconi, mente, descaradamente. Pior, a deportação realizada implica em chantagem ao dissidente Muktar, que tem, -- no momento--,  a esposa presa (prisão domiciliar na capital Astana) por fuga do Kazaquistão com passaporte falso. E a menor Alma, segundo informa o jornal italiano La Repubblica, estaria sob a guarda de uma tia, mas com risco de ser colocada sob custódia e proteção da ditadura de Nazarbayev.

No Kazaquistão, convém lembrar, a Justiça funciona com juízes escolhidos  e nomeados pelo ditador Nazarbayev. E o ditador seleciona, também ao seu bel prazer, o chefe do ministério Público. Assim, toda a postulação feita pelo ministério Público é aceita pelos juízes.

Na última eleição italiana, o Partido Democrático (PD), a contrariar o entendimento do seu demissionário e sério secretário-geral, Píer Luigi Bersani, fez uma coalizão com o partido de Berlusconi. Numa partilha, Enrique Letta (PD) virou primeiro-ministro e Angelino Alfano (PDL) vice-premier e ministro do Interior.

Com o escândalo kazaco, a Itália agitou-se e a saída de Alfano do governo, -- por quebra de confiança (vota-se a “sfiducia” amanhã no Senado), era esperada.

Para surpresa geral, o premier Letta, como a se agarrar na cadeira,  não concorda com a saída de Alfano. Letta teme a reação do PDL e o fim da coalização, com marcação de novas eleições. Letta digere Alfano em nome da governabilidade. A saída de Alfano, segundo ameaçam os sabujos de Berlusconi, implicará no fim do governo Letta, ou seja, a quebra da coalizão e convocação de novas eleições. A moção de desconfiança (sfiducia), que será votada amanhã no Senado, foi apresentada pelo Movimento 5 Estrelas, do humorista Peppe Grillo. E Grillo cresce em prestígio, novamente, entre os eleitores. No momento, está a afirmar que Letta e Alfano não pensam na Itália mas em manter o poder.

Uma questão moral, de dignidade e violação absurda de direitos humanos, sede lugar à governabilidade. E a Itália, apesar da ditadura Nazarbayev , é a segunda maior parceira do rico Kazaquistão na Europa : a primeira é a Alemanha.

Nesta quinta-feira 18 na parte da manhã, os senadores do PD se reuniram e, por 80 votos e 7 abstenções, concluíram que, amanhã, não votarão pela derrubada de Alfano. O premier Letta continua a sustentar que Alfano nada sabia e, dessa forma, finge acredita numa deslavada mentira.

Outro episódio vergonhoso diz respeito a Emma Bonino, uma ex-ativista de direitos humanos guindada ao ministério de Relações Exteriores. Bonino mantem-se em silêncio e diz que tudo ocorreu em outro ministério e não teve responsabilidade pelo caso kazaco.

Pano rápido. Letta quer salvar Alfano por acreditar que, com a sua derrubada, cairá também. Mostra o jornal Corriere della Será, na edição de hoje, poder ser votada uma desconfiança individual, ao ministro Alfano, e não a todo o governo. Na matéria, cita a uma decisão de 1966 da Corte Constitucional e que levou a queda do ministro da Justiça, Filippo Mancuso, e a manutenção do governo do premier Lmberto Dini.