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Xenofobia

'Vamos ter que aprender a viver juntos'

por Gabriel Bonis publicado 12/12/2011 10h28, última modificação 12/12/2011 10h28
Multiculturalismo americano fará com que o ódio dos conservadores, representado pelo Tea Party, transforme-se numa batalha perdida, diz pesquisador
xenofobia

Multiculturalismo americano fará com que o ódio dos conservadores, representado pelo Tea Party, transforme-se numa batalha perdida, diz pesquisador. Foto: USAG-Humphreys/Flickr

De Nova York

 

O taxista que parte do aeroporto Jonh F. Kennedy rumo a Manhattan se comunica com um forte sotaque do leste europeu. Há oito anos na cidade, trocou Kashin, cidade a sete horas de trem de Moscou, por uma das partes mais perigosas do Brooklyn, em Nova York.

“Se você seguir a sua vida sem interferir no que vê à sua volta, os criminosos também vão ignorar a sua presença”, conta resignado.

O russo se junta a milhares de outros rostos e sotaques de imigrantes (legais ou ilegais), que também dirigem táxis, comandam bancas de jornais ou apenas visitam a cidade.

Um multiculturalismo intrínseco da sociedade norte-americana, que vislumbra um cenário nos próximos 50 anos no qual o grupo de não-brancos (negros, asiáticos e latinos) terá maior proporção demográfica. Algo que amedronta os setores mais conservadores do país, alimentando posições xenófobas.

“Os conservadores vão agir com fúria e desespero, assim como o Tea Party já vem fazendo, mas é uma batalha perdida”, diz à reportagem de CartaCapital Benjamin Barber, pesquisador distinto sênior da organização Demos, presidente e diretor da ONG internacioal CivWorld, por telefone, poucas horas antes de participar de um painel sobre xenofobia na Europa e EUA, organizado pela Universidade de Nova York.

“Desesperados para agir contra o inevitável, [os conservadores] vão utilizar todos os instrumentos que possuem, inclusive mudando regras eleitorais para manter a sua base conservadora mais poderosa, pois assim que esta cair, não serão mais eleitos”, alerta.

 

Segundo o analista, posições anti-imigração, religião e etnias se agravaram ainda mais na Europa e EUA devido às recentes crises econômicas mundiais.

Mesmo ocupando cargos antes indesejados pelos norte-americanos, destaca ele, as turbulências globais trazem à tona o rancor contra essa parcela da população, tida como “ladra de empregos”.

“Uma economia instável traz maiores desigualdades e menos oportunidades, o que aumenta o desejo por postos antes vistos como não atraentes e joga o problema para o lado racial.”

Baber acredita, porém, que os EUA têm melhores condições de lidar com a xenofobia, por ser uma sociedade historicamente composta por imigrantes e possuir uma visão multicultural, ao contrário da ótica monocultural europeia. “No continente, as minorias são de fato parcelas pequenas da sociedade, por isso é mais difícil avançar neste sentido.”

Outro problema europeu é a posição mais conservadora dos jovens do continente, tradicionalmente mais abertos culturalmente, evidenciada na pesquisa The New Face of Digital Populism (O Novo Rosto do Populismo Digital, em tradução livre) do Instituto britânico Demos (que não tem relação com a entidade de Barber).

O levantamento mapeou grupos com ideias de extrema direita e identificou que jovens abaixo dos 30 anos de idade têm grande participação proporcional nestas organizações. “Na Europa os jovens vem enfrentando altos índices de desemprego e, nos EUA, quem passa por esse problema são os mais velhos, que enxergam agora um imigrante como concorrente”, diz.

Além disso, a Zona do Euro registrou índice de desemprego de 21,9% entre pessoas com até 25 anos de idade, enquanto a média geral para o período foi de 10,3%, segundo dados da Eurostat, braço de estatísticas da União Europeia. “Lá, os jovens têm que competir com os imigrantes por oportunidades que eles julgam que deveriam ser deles e por isso se ressentem com essa faixa da população”, aponta Barber.

Segundo ele, ao contrário da Europa, onde o islamismo é visto como um elemento-chave na xenofobia, os EUA “se consomem em medo da imigração em massa dos latinos”. Em ambos os cenários, destaca, o ódio e o medo podem criar em pessoas instáveis a sensação de “líder dos oprimidos”, gerando violência e morte, assim como nos atentados assumidos por Anders Behring Breivik na Noruega, em 2011.

“Um claro exemplo do poder deste sentimento é o medo dos norte-americanos nos anos 60 em relação aos negros, que culminou no assassinato de Martin Luther King e de Jonh Kennedy.”

À época, essa parcela da população conquistava uma série de direitos civis e a sociedade norte-americana passava por fortes mudanças de paradigma, uma transformação que deve ocorrer novamente, com o grupo das minorias tornando-se maior que a população de brancos do país. “Creio que isso seja ótimo para uma sociedade composta por imigrantes como a norte-americana e vamos ter que aprender a viver melhor juntos, porque é assim que as coisas funcionam em uma verdadeira democracia.”

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