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Uma tragédia conveniente?

por Luiz Alberto Moniz Bandeira — publicado 13/09/2011 10h08, última modificação 06/06/2015 18h28
Por que a inteligência dos EUA ignorou os vãrios alertas de atentados

Dois meses antes do atentado de 11 de setembro contra as torres do World Trade Center (WTC), o presidente George W. Bush foi informado tanto pela CIA quanto pelo FBI sobre a possibilidade de que terroristas sequestrassem um avião e atacassem algum alvo nos Estados Unidos. Conforme The 9/11 Commission Report. Final Report of the National Commission on Terrorist Attacks Upon the United States (pág. 254), ele recebeu o top-secret briefing memo, preparado pela CIA e intitulado: Bin Laden Determined to Strike in US, em 6 de agosto de 2001.

Esse documento, desclassificado em 10 de abril de 2004 sob pressão do Congresso, transmitia mensagem do agente Phoe-nix (Kenneth Williams), do FBI. Segundo ele, fonte clandestina, governos estrangeiros e informes da mídia “indicavam que Bin Laden, desde 1997, queria conduzir ataques nos Estados Unidos”, como o realizado pelo terrorista Ramzi Yousef no próprio WTC, em 26 de fevereiro de 1993.

O agente Phoenix ponderou não haver sido capaz de corroborar algumas das mais sensacionais ameaças, tais como de um (trecho censurado) serviço, em 1998, segundo o qual Bin Laden queria sequestrar um avião dos Estados Unidos para obter a libertação do Blind Shaykh (como era conhecido o xeque Omar Abd al-Rahman) e outros extremistas presos nos Estados Unidos. Contudo, informação do FBI desde aquele tempo indica padrões de atividades suspeitas nesse país consistentes com preparações de sequestros ou outros tipos de ataque, inclusive recente vigília de edifícios federais em Nova York.

Já em 5 de janeiro de 2001, oito meses antes do ataque às torres do WTC, a Direction Générale des Services Extérieurs (DGSE) dos serviços de inteligência da França, numa nota de cinco páginas – Projet de détournement d’avion par des islamistes radicaux – havia alertado o governo dos EUA sobre a possibilidade de que terroristas de Al-Qaeda realizassem atentados suicidas em Nova York e Wash-ington, conforme documento revelado pelo jornalista Guillaume Dasquié no diá-rio Le Monde, em 4 de abril de 2007. E os jornalistas Evan Thomas e Mark Hosenball contaram, na revista Newsweek, que um dia antes dos atentados, altos oficiais do Pentágono subitamente cancelaram planos de viagem para a manhã seguinte, aparentemente por causa de segurança. O estado de alerta foi dado duas semanas antes e um aviso urgente foi recebido pelo Pentágono na noite anterior a 11 de setembro, o que levou a group of top Pentagon officials a suspender seus planos de viagem. A Newsweek noticiou que os altos níveis da comunidade de inteligência militar dos EUA souberam de alguma coisa e consideraram seriamente a informação.

Ari Fleischer, porta-voz da Casa Branca, e Condoleezza Rice, assessora de Segurança Nacional, confirmaram implicitamente saber que algum atentado ocorreria, embora, talvez, não como seria efetuado, ao alegarem que ninguém imaginou “o uso de aeroplanos como mísseis”. Outros funcionários da Casa Branca explicaram que Bush não levou o aviso muito a sério por falta de informações mais recentes. E o tenente-general da Força -Aérea, Michael- V. Hayden, diretor da National Security Agency (NSA), justificou: não havia nenhuma indicação de que a -Al-Qaeda tivesse como alvo Nova York e Washington, ou mesmo que estivesse a planejar um ataque em solo dos Estados Unidos.

Eleanor Hill, antiga inspetora-geral do Departamento de Defesa e chefe da equipe formada pelo comitê do Congresso para investigar os atentados de 11 de setembro, revelou, contudo, que, desde 1998 até agosto de 2001, a CIA, o FBI e outros serviços de inteligência receberam repetidamente comunicados sobre a possibilidade de um ataque em Washington e Nova York, com aviões ou outros meios. Segundo informou o International Herald Tribune, o comitê conjunto do Congresso constatou que alguns analistas do governo, em Washington, haviam focalizado a possibilidade de que terroristas usassem “aeroplanos como armas”.

Autor do best seller Die CIA und der 11. September, Andreas von Bulön, ex-secretário de Estado do Ministério da Defesa (1976) e ex-ministro da Pesquisa e Tecnologia (1980-1982) no governo de Helmut Schmidt, e, na condição de deputado, supervisor das atividades do serviço de inteligência da República Federal da Alemanha, o Bundesnachrichtendienst (BND), julgou estranho que os serviços de inteligência americanos nada fizessem para impedir a ocorrência dos atentados e, em 48 horas, logo divulgassem o nome dos 19 sequestradores, dos quais 15 eram sauditas, bem como apontassem Bin Laden como o mastermind da operação.

A CIA possuía muitas informações. O BND havia fornecido, em 1999, o nome e o telefone de Marwan al-Shehhi, terrorista que tomou o controle do voo 175 da United Airlines e arremeteu o aparelho contra um dos edifícios do World Trade Center. Os nomes foram obtidos por monitoramento do telefone de Muhammad Haydar Zammar, um militante islâmico residente em Hamburgo e intimamente vinculado aos conspiradores da Al-Qaeda na articulação dos ataques de 11 de setembro.

Alguns terroristas como Zacarias Moussaoui, Ahmed Ressam, Khalid AL-Mihdhar, Nawaf al-Hazmi e Salim al-Hazmi haviam sido detidos pelo Immigration and Naturalization Service (INS), dos Estados Unidos, e estavam sob observação da CIA e do FBI. Não era segredo nem para a CIA nem para o FBI de que Zacarias Moussaoui tomava aulas de voo na Airman Flight School, em Norman (Oklahoma) e na Pan Am Boeing 747. Um agente do FBI, que manejou o caso de Moussaoui juntamente com o representante da Minneapolis Joint Terrorism Task Force, percebeu rapidamente que Moussaoui possuía jihadist beliefs e suspeitou de que ele planejasse sequestrar um avião e treinasse para um potencial ataque. Também Muhammad estivera sob vigilância da CIA, entre maio e junho de 2001, quando tomava lições de voo em Frankfurt/Main, na Alemanha, mas estranhamente nada foi informado ao INS e lhe foi permitido entrar nos Estados Unidos e treinar como piloto, inclusive na Maxwell Air Force Base, no Alabama. A Muhammad Atta também foi permitido entrar no país, depois de uma viagem à Alemanha, a despeito da violação do status do seu visto.

Os atentados contra o World Trade Center e o Pentágono, em 11 de setembro de 2001, não foram circunstanciais nem surpreendentes. Foram convenientes aos interesses do complexo industrial-militar. O presidente George W. Bush necessitava de uma “razão propagandística”, como Adolf Hitler em 1939, para deflagrar uma guerra permanente, legitimar-se no poder, após uma eleição duvidosa e contestada, e executar os objetivos do Project for the New American Century. Ele recebeu a notícia, impassivelmente, quando lia um texto sobre educação para os alunos da Emma E. Booker Elementary School. E, como se não se surpreendesse, comentou que “the incident must have been caused by pilot error”. Em seguida, saiu da escola, tomou o Air Force One, sem saber exatamente para onde ir e, dizendo que os Estados Unidos haviam sofrido uma agressão, declarou guerra sem saber contra quem, mas uma guerra do bem contra o mal, “sem campos de batalhas ou cabeças de praia”. Não sem razão anotou no seu diário, na noite do dia 11: The Pearl Harbor of the 21st century took place today – ataque esse do Japão (1941), documentalmente comprovado que não foi uma surpresa para o presidente Franklin D. Roosevelt. E a mídia americana passou a noticiar os acontecimentos sempre sob o título America at War.

Após os atentados, ocorreu misteriosa dispersão, através de correspondência e outros meios, do Bacillus anthracis, usado como arma bacteriológica. A origem nunca foi desvendada. Certamente, o que se pretendia era fomentar o pânico, chocar a opinião pública mundial, lançá-la contra os árabes, criar condições para um estado de guerra global, infinita e indefinida, contra um inimigo abstrato: o terrorismo. E não foi por mera coincidência que o mapa da guerra contra o terrorismo se estendia do Oriente Médio à Ásia Central, o mesmo mapa do gás e do petróleo. Assim, em 17 de setembro, seis dias após os atentados, Bush assinou um documento de duas páginas e meia (Top Secret), no qual não apenas delineou a campanha contra os talebans, no Afeganistão, como ordenou ao Pentágono que iniciasse o planejamento de opções militares para invadir o Iraque. Depois, obteve do Congresso a outorga de poderes para fazer a guerra e deu um ultimatum aos talebans para que entregassem Bin Laden. Os talebans não se intimidaram.

Em 6 de outubro, Bush anunciou a campanha global contra o terrorismo e declarou que os EUA estavam a apresentar a todas as nações uma clara opção. Aquelas que não o fizessem – o que para ele significava estar com os terroristas – pagariam um alto preço. E os EUA, juntamente com a Grã-Bretanha, começaram, no dia seguinte, 7 de outubro, a Operação Liberdade Duradoura. Bombardearam os campos de treinamento e as instalações de Al-Qaeda no Afeganistão, cuja construção a CIA e a Arábia Saudita, com a colaboração do serviço de inteligência do Paquistão, haviam financiado nos anos 1970 no intuito de combater a União Soviética. Suas tropas e aviões, entre 7 de outubro de 2001 e 4 de junho de 2002, mataram cerca de 3 mil civis no Afeganistão. De 2001 a 2011, foram mortos aproximadamente 14 mil civis, além de 28 mil policiais afegãos, soldados, talebans e outros insurgentes.

Luiz Alberto Moniz Bandeira é cientista político, professor-titular de História da Política Exterior do Brasil na UnB (aposentado) e autor de mais de 20 obras, entre as quais A Reunificação da Alemanha – Do ideal socialismo ao socialismo real (Editora Unesp, 2009) e O Milagre Alemão e o Desenvolvimento do Brasil (1949-2011) (Editora Unesp, 2011). Há muitos anos vive na Alemanha.

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