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Internacional

Revolta na Espanha

Uma noite na Porta do Sol

por Beatriz Borges — publicado 19/05/2011 19h07, última modificação 24/05/2011 16h57
Como mais de 300 jovens passaram a última madrugada em frente ao palácio do governo estadual, em pleno centro de Madri
Uma noite na Porta do Sol

Como mais de 300 jovens passaram a última madrugada em frente ao palácio do governo estadual, em pleno centro da capital do país. Por Beatriz Borges, de Madri. Fotos: Marta Maeso

De Madri

Sentados sobre caixas de papelão, cervejas em mãos, seis jovens discutem sobre se deveriam ou não votar nas eleições regionais do próximo dia 22 quando uma garota, de 24 anos, interrompe a conversa:

-A latinha tá vazia? Passa pra mim, por favor, que eu jogo lixo – diz ela, enquanto arrasta uma grande sacola plástica.

Segundos depois, o debate é novamente interrompido, desta vez por um rapaz:

-Me ajuda a segurar o balde, por favor? Assim a goteira não molha vocês.

A preocupação em manter a ordem é quase uma prioridade no acampamento-protesto na Porta do Sol, o marco zero de Madri, onde, desde domingo, centenas de pessoas, a maioria jovens, protestam contra medidas de contenção anunciadas pelo governo espanhol – entre as quais o aumento do limite para aposentadorias.

Revolta civilizada

No local, epicentro dos protestos que percorreram outras cidades do país e também da Europa, alguns se encarregavam da limpeza. Outros, da comida. “Por favor”, “obrigado” e “desculpa”. Todos pareciam empenhados em transformar o movimento na mais civilizada das revoluções. Jovens com roupas velhas, camisetas com imagens de Che Guevara, slogans revolucionários, cabelos sujos, dreads e rastafaris dividiam o reduzido espaço com humor e músicas.

“Chamam isso de democracia, mas não é”... “PSOE e PP é a mesma merda...” – cantam, em referência ao Partido Socialista do Trabalhador Espanhol, atualmente no governo, e o conservador Partido Popular.

O coral se dissipa como uma epidemia e, em instantes, a voz grave alcança multidão de braços levantados.

Na quinta-feira 19, quarto dia de manifestação, choveu. Em vez de arredar pé, os manifestantes da praça resolveram improvisar toldos. Passaram a noite amontoados debaixo de lonas de paraquedas e barracas de camping.

A tormenta durou a noite toda.

Muitos, sem local seco para acomodar seus colchonetes e sacos de dormir, não conseguiram descansar durante a noite. Para remediar a chuva, o improviso: jovens com fitas isolantes nas mãos tentavam tapar os buracos nas lonas. Em vão: cada vez que o vento soprava, mais a lona subia.

"Somos barcos"

Molhados, os manifestantes se pegavam a rir ou gritar. Entre as bandeiras levantadas em meio à tormenta, uma chamava a atenção: “Não importa que chova. Somos barcos”. Era mais uma inscrição entre outras tantas bandeiras e cartazes que tapavam a cúpula de vidro ao centro da Praça do Sol, espécie de muro das lamentações da insurgência espanhola.

Em meio a chuva, o conforto parecia pouco importar. A ordem, durante a noite, era resistir à tormenta para que a manifestação continuasse em pauta nos noticiários e programas de televisão. A ideia era que as reivindicações fossem ouvidas: alguns pediam que se votasse em branco; outros, que se escolhesse um partido pequeno para que os principais (e mesmos) políticos não vençam por maioria absoluta. Somavam-se aos manifestantes os eleitores comunistas, os anarquistas, os apolíticos e os que estavam ali apenas para reclamar do desemprego. Ativistas de ONGs também marcavam presença. Entre os manifestantes, membros de partidos pouco conhecidos se uniam aos lamentos para, enfim, conseguir propagar suas mensagens.

Quem estava na praça sentia que, de alguma forma, fazia parte de um momento único da história recente da Espanha e sua jovem democracia, datada de 1976. Quase 35 anos depois, as manifestações agora não se referem ao direito ao voto – como pedem os revoltosos árabes, que inspiraram a insurgência espanhola – mas mudanças no atual sistema. Reivindicam, por exemplo, o fim do bipartidarismo em um país que conta com 50 partidos políticos e a eliminação de privilégios da classe política, como isenção de impostos e impunidade frente aos casos de corrupção. Os revoltosos pedem também que o governo revogue mudanças na idade mínima para a aposentadoria, que subiu de 65 para 67 anos.

Reação contra a apatia

As condições de emprego na Espanha, no entanto, é que estão na base da revolta. Hoje, existem quase cinco milhões de pessoas desempregadas no país – entre os jovens o problema atinge 43% da população entre 18 e 35 anos.

Embora tenha como foco as eleições regionais, o recado dos manifestantes tem como objetivo ressoar na disputa presidencial do ano que vem. O movimento 15-M, como foi batizado pela imprensa espanhola, surgiu a partir do Twitter e do Facebook, assim como aconteceu em parte das revoltas árabes. Foi organizado por um grupo intitulado “Democracia Real Já”. Sob a liderança de Fabio Gándara, o movimento já pode ser considerado uma resposta dos jovens espanhóis às críticas de que eram apáticos e acomodados em relação à política do país.

Talvez porque, como dizem os manifestantes, eles não identifiquem a política atual como um instrumento que lhes permita ter esperança. E, como diz um dos cartazes expostos pelos manifestantes: “Se não nos deixam sonhar, não lhes deixaremos dormir”. A revolução permanece no ar.

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