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Violência

Uma noite em Ferguson

por Deutsche Welle publicado 13/08/2015 03h07
Os protestos nessa cidade do Missouri costumam começar pacíficos e resultar em violência. A DW acompanha uma manifestação em memória do jovem negro Michael Brown
Scott Olson / Getty Images / AFP
Manifestação-em-Ferguson

"A vida dos negros importa", diz cartaz em manifestação em memória de Michael Brown

É noite em Ferguson. É possível ouvir o barulho ameaçador das hélices dos helicópteros que cruzam o céu da cidade. Num terreno um pouco íngreme, manifestantes se espremem entre carros estacionados e lojas protegidas de forma improvisada.

A luz amarelada das poucas lâmpadas do local permite reconhecer o contorno dos corpos, mas quase nada dos rostos. Muitos homens jovens negros estão no local, alguns deles sem camisa, como se quisessem exibir sua virilidade.

É como se as pessoas tivessem escolhido a área mais escura da avenida West Florissant. Centenas ocupam ambos os lados da estrada de quatro pistas.

De repente, um carro passa em alta velocidade entre os manifestantes. Um homem atlético está agarrado ao teto, como uma estátua. Antes de ele desaparecer na escuridão, é possível ver que uma de suas pernas está engessada.

Logo depois, o carro está estacionado em frente a um salão de beleza que foi alvo de vândalos na madrugada desta terça-feira 11. O homem com a perna engessada também está lá, faz o sinal da vitória e dá uma forte tragada em seu cigarro.

Confrontos com a polícia

A maioria das pessoas não toma conhecimento dele – elas permanecem em silêncio e esperam. Como na noite anterior, quando exatamente neste local aconteceu uma troca de tiros entre policiais à paisana e o jovem Tyrone H., de 18 anos. No final, o jovem foi levado com graves ferimentos para um hospital.

Roberta Lynch estava aqui no momento do tiroteio e viu as pessoas correrem em pânico. Mesmo assim, ela retornou, mas não sabe dizer exatamente por quê. Como muitas pessoas, ela usa uma camiseta preta com os dizeres "A vida dos negros importa". Ela diz estar aliviada que as autoridades tenham imposto estado de emergência em Ferguson e no condado de St. Louis.

Agora, as forças de segurança de St. Louis são responsáveis também por Ferguson. "Isso vai salvar muitas vidas", comenta Lynch. Mas isso não significa que ela confie nessas forças, nem nas do condado nem na polícia de Ferguson.

Ainda assim ela acredita que a cidade saberá como reagir caso ocorram atos de violência depois das comemorações pacíficas em memória de Michael Brown. Ela reza para que, desta vez, a calma prevaleça. Mas isso é pouco provável.

Mais tarde acontecem novos confrontos entre manifestantes e a polícia, que usa cassetetes, spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo. Alguns dos manifestantes são detidos, entre eles uma menina de 12 anos.

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Jovem detido durante a manifestação em Ferguson | Crédito: Michael B. Thomas/AFP

Cristãos tentam acalmar os ânimos

Não muito longe dali, os seguidores do pregador Billy Graham estacionam uma caminhonete, chamada por eles de Mobile Ministry Center (algo como "ministério ambulante"). Apoiadores de Graham estão em todos os lugares onde a violência pode estourar, da última vez em Baltimore e várias vezes em Ferguson.

Kevin Williams é o líder deles e dispersou a sua "equipe rápida de resposta", como ele a chama, entre a multidão. A equipe se dirige às pessoas e tenta acalmar possíveis agitadores. A ideia é que a sua presença e a força da sua fé produzam milagres.

Mesmo diante do eminente confronto nas ruas, Williams não fala em fracasso. A reação das pessoas está na mão de Deus, e não na da sua equipe, argumenta. Williams faz questão de salientar que não toma partido. "Nós também amamos os violentos", diz. A partir do início de um tiroteio, a responsabilidade passa a ser da polícia, e não de sua equipe.

E a polícia quer intervir na primeira noite do estado de emergência. "Desta vez, eles não vão dominar as ruas", afirma o chefe da polícia, John Belmar. Ao que parece, ele tem razão. O preço que deverá ser pago por isso, porém, ainda não está claro no momento em que a violência irrompe.

Por Gero Schliess

Deutsche Welle

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