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Uma medalha por um ataque de drone

por Gabriel Bonis publicado 04/02/2014 05h56, última modificação 04/02/2014 06h30
Pentágono prepara revisão em normas para honrarias a militares e deve estender direito a pilotos de drones. Por que não? Por Gabriel Bonis, de Londres
Sascha Pohflepp / Flickr / Creative Commons
Drones

Pentágono prepara revisão em normas para honrarias a militares e deve estender direito a pilotos de drones. Por que não?

De Londres

A revista norte-americana Foreign Policy divulgou na última semana que o Secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, está preparando uma ampla revisão nas regras de concessão de honrarias a militares do país. As mudanças devem ficar prontas até o começo de 2015. Segundo o contra-almirante John Kirby, secretário de imprensa do Pentágono, a novidade é que a reformulação vai incluir “funcionários aos quais foram confiadas a responsabilidade de operar tecnologia remota para influenciar diretamente o combate, assim como formas de armas mais tradicionais”. Ou seja, caso a reforma se confirme, pilotos de drones, os aviões não tripulados, poderão receber condecorações por sua atuação, o que ainda não é possível.

A intenção de premiar pilotos de drones havia surgido com Leon Panetta. Antes de deixar o Pentágono em 2013, o antecessor de Hagel criou uma “medalha de distinção de guerra” para operadores de drones. Nenhuma delas chegou a ser emitida, mas a ideia causou reações negativas das tropas de combate em solo, que se sentiram desrespeitadas porque a honraria estaria acima de duas importantes condecorações militares para soldados: a Estrela de Bronze e a Purple Heart. A ideia mexeu com os ânimos de agentes que correm riscos reais em solo, enquanto “operadores de joystick” sentam em salas confortáveis a milhares de quilômetros dos conflitos nos quais atuam.

Hagel optou por não dar segmento à medalha para os pilotos de drones, mas mencionou uma distinção que seria colocada em prêmios já existentes. Essas honrarias também não chegaram a ser anunciadas. Entretanto, a preocupação em acomodar os ânimos de combatentes em solo e operadores de drones indica um esforço do Pentágono em reconhecer formalmente a importância de ambos os lados. A possível reforma em favor dos pilotos de aviões não tripulados nas premiações deve abrir espaços para uma categoria de “soldados” que tem causado, para alguns teóricos, uma revolução na forma de conduzir guerras, além de coloca-los em um nível de importância institucional semelhante ao de outras tropas norte-americanas.

Com o inegável aumento da relevância estratégica dos drones para a política externa dos EUA na última década, seria inevitável conceder mais benefícios aos operadores destes aviões. Estar apto a receber condecorações militares, e de fato recebê-las, é uma das maneiras mais eficientes de se conseguir promoções e posicionar-se melhor na hierarquia das forças armadas. Excluir operadores de drones destas honrarias seria inviável a longo prazo. E os números comprovam: desde 2005 houve um aumento de 1200% na quantidade de patrulhas aéreas norte-americanas com aviões não tripulados. Além disso, na última década, a frota de drones dos EUA aumentou de 50 para 7,5 mil aeronaves, ou 31% da frota do Pentágono, conforme revelou a revista Wired, em 2012.

Os EUA têm feito do seu programa de drones uma plataforma de ataques e monitoramento de regiões no exterior onde supostamente atuam e vivem terroristas ligados à al-Qaeda ou a grupos antiamericanos. Esses locais, como áreas tribais paquistanesas, seriam de difícil e arriscado acesso para tropas terrestres. Washington mantém, então, operações com drones ao menos no Paquistão, Afeganistão, Iêmen e Somália.

Diariamente, drones armados sobrevoam o Paquistão e o Afeganistão, coletando informações em voos ininterruptos de até 14 horas, embora novas tecnologias possam permitir autonomia de 30 horas. Sem os drones, a quantidade de agentes em campo para obter dados semelhantes seria exponencialmente maior, mais cara e mais arriscada para os oficiais.

O preço destes equipamentos é apontado como uma das razões para a administração de Barack Obama investir cada vez mais em drones. O Predador, um dos drones mais utilizados no mundo, custa 4,5 milhões de dólares, enquanto um caça F-35 sai por 159 milhões de dólares, um F-22 chega a 377 milhões de dólares e um B-2 a quase 2 bilhões de dólares. Além disso, treinar um controlador de drones custa menos de 10% do valor investido na qualificação de um aviador de combate.

Os riscos políticos investidos nos aviões não tripulados também são menores. É uma conta simples: a derrubada de um drone representa apenas a destruição de uma estrutura de metal, ou a possibilidade de expor parte da tecnologia ao “inimigo” caso este consiga recuperar o avião em bom estado. Por outro lado, a guerra do Iraque matou quase 4,5 mil norte-americanos e a do Afeganistão vitimou outros 2,1 mil, após mais de uma década dos conflitos.

As guerras do Afeganistão e Iraque, entretanto, serviram como laboratórios para novas tecnologias. Como avalia Peter W. Singer, diretor do Centro para Segurança no século 21 e Inteligência do Instituto Brookings, quando as tropas norte-americanas invadiram o Iraque, não havia sistemas robóticos no chão. Em seu livro, Wired for War: The Robotics Revolution and Conflict in the 21st Century, Singer afirma que, ao final de 2004, havia mais de 150 destes sistemas. No ano seguinte, eram mais de 2,4 mil. No final de 2008, eram 12 mil. O uso dos drones no Iraque e no Afeganistão chega a ser definido pelo autor, citando um oficial dos EUA, como os “Flintstones conhecem os Jetsons”, em referência ao avançado nível tecnológico utilizado pelos EUA em comparação às forças de resistência.

Mudanças estruturais

O aumento exponencial no uso de aviões não tripulados também indica uma reorganização interna das forças armadas dos EUA, com prognósticos da utilização cada vez maior de drones. Tropas em terra continuarão a desempenhar um papel essencial, mas os pilotos de drones tendem a se posicionar mais próximos das tropas de primeiro escalão. Em 2003, por exemplo, os EUA registraram cerca de 35 mil horas de voos em aviões não tripulados no Iraque e no Afeganistão. Atualmente, esses números ultrapassaram 800 mil horas.

Mais tempo no ar exige um contingente maior de pilotos capacitados para comandar aeronaves não tripuladas. Algo que influencia diretamente a formação das turmas da força aérea norte-americana. Em 2011, o órgão treinou mais pilotos para drones que para combate e bombardeio juntos, conforme mostrou o jornal The New York Times. Naquele ano, a academia também foi a primeira a graduar cadetes especialistas em operar estas aeronaves. Atrair novos cadetes passa por conceder mais reconhecimento aos operadores de drones.

Na última década, não foi apenas o número de cadetes formados que aumentou. Os ataques com drones também cresceram. Apenas no Paquistão, em 2004, houve apenas uma ação, ante as 117 registradas em 2010. O Instituto Brookings estima que 2,769 militantes morreram nestes ataques, sem contar os civis. O público norte-americano é constantemente assegurado de que a altíssima porcentagem dos mortos extra-judicialmente é de militantes extremistas, mas as vítimas são frequentemente desconhecidas e as mortes quase nunca investigadas.

Dados da organização The Bureau of Investigative Journalism mostram que entre 2004 e 2013, os EUA realizaram 371 ataques no Paquistão (320 na administração Obama), matando entre 2.505 mil e 3.584 mil pessoas. Destes, estima-se que entre 407 e 928 sejam civis, além de até 195 crianças vitimadas.

A possibilidade de premiação para operadores de drones levanta críticas de que esses agentes não arriscam suas vidas no campo de batalha, apesar do seu importante papel estratégico nos conflitos. Tecnicamente, contudo, a eficácia de uma guerra não é necessariamente medida pelo número soldados na linha de frente. O general norte-americano George Patton possui uma frase famosa neste sentido: “não é o seu trabalho morrer pelo seu país, é seu trabalho fazer o inimigo morrer pelo país dele”. Um dos grande teóricos da guerra, Carl von Clausewitz também define guerra como “um ato de força para compelir o nosso inimigo a fazer a nossa vontade”. Colocando de lado as polêmicas envolvidas no uso de drones, os pilotos de aviões não tripulados podem atingir esses objetivos, assim como outras tropas terrestres e aéreas. Por que, então, não premia-los por isso?

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