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Entrevista

Um nome para o futuro

por Paolo Manzo — publicado 02/09/2010 10h06, última modificação 02/09/2010 10h06
O presidente da região das Apúlias , Nichi Vendola, desponta como a nova liderança da esquerda italiana e possível candidato contra Silvio Berlusconi

O presidente da região das Apúlias , Nichi Vendola, desponta como a nova liderança da esquerda italiana e possível candidato contra Silvio Berlusconi

Não bastasse a crise econômica, a Itália vive um momento grave de turbulência política. O presidente da Câmara, Gianfranco Fini, cofundador juntamente com Silvio Berlusconi do Popolo della Libertà, partido governista, foi expulso da agremiação por sua resistência à apresentação de projetos anticonstitucionais e antidemocráticos. Na mais recente votação da Câmara, o governo levou a melhor com uma votação inferior à maioria absoluta, em virtude de cerca de 80 votos em branco. Teria perdido se parte das abstenções fosse voto contra. O que poderá ocorrer a curto prazo, quando Berlusconi voltar à carga com algum dos projetos combatidos por Fini.

A perspectiva por ora está nublada, fala-se em eleições antecipadas e também na formação de um governo técnico. Em caso de antecipação, o candidato inevitável da direita continua a ser Berlusconi, hoje apoiado pela Liga Norte da qual, de certa forma, é refém. No centro parece estar em gestação uma nova agremiação, à qual se agregariam Fini e os 34 finianos que acompanharam o líder. E a esquerda? Afora figuras ligadas a um passado de derrotas diante de Berlusconi, um personagem novo surge em cena, Nichi Vendola, recentemente reeleito à presidência da região das Apúlias, a mais rica do Sul da Península, depois de vencer as primárias contra os candidatos figurões do PD, maior partido de oposição.

Nascido em Bari há 52 anos, batizado Nicola, formado em Letras e Filosofia, comunista e católico, filho de um comunista católico, filiado ao PC desde a juventude, quando da dissolução do partido um dos fundadores da Refundação Comunista, é também fundador da Arcigay italiana. Homossexual assumido, “pedaço do meu cisma das duas igrejas, a comunista e a católica”, como costuma afirmar. Em 2009 saiu da Refundação e atualmente lidera a Esquerda Ecologia e Liberdade. Bom orador, corajoso, carismático, é apontado como o futuro da esquerda italiana.

CartaCapital: O senhor viaja muito desde os tempos da universidade. Segundo seu ponto de vista, como a Itália é considerada hoje no mundo?
Nichi Vendola
: Acredito que, no momento, o mundo considere a Itália como país- marginal e encare o protagonismo do nosso primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, como um fenômeno de costume mais que político. Existe uma difusa ironia planetária em relação àquilo que nós chamamos de berlusconismo.

CC: Poderia explicar aos nossos leitores o que é o berlusconismo?
NV
: Trata-se de um fenômeno que origina dois fatores, o populismo e o neoliberalismo. Foi e continua sendo a expressão de um fundamental mercantilista que soube capitalizar a crise da política, dos partidos, e que, em aproximadamente 15 anos, transformou a Itália num país muito mais desequilibrado e, do ponto de vista civil, muito mais histérico.

CC: Quais são as consequências do berlusconismo?
NV
: Hoje, a Itália possui uma classe dirigente que exprime intolerância em relação ao constitucionalismo democrático, que suporta mal o equilíbrio de pesos e contrapesos, indispensável a uma moderna arquitetura democrática, que atira contra a autonomia dos poderes Judiciário e Legislativo, e do poder informativo. É uma situação bastante grave porque Berlusconi é ao mesmo tempo o homem mais rico do país, proprietário de grande parte da imprensa e das emissoras privadas, e é o fiscal político de todas as emissoras públicas. É uma anomalia que mancha a imagem de um país amadurecido e de grande tradição democrática como a Itália.


CC: O controle da mídia leva a situações inimagináveis em qualquer democracia realizada. Bastaria pensar no que está acontecendo com Gianfranco Fini, até ontem aliado de ferro de Berlusconi e cofundador do PdL, o partido majoritário, e hoje em desgraça, somente porque é contrário a algumas leis que favoreceriam a criminalidade organizada.
NV
: Contra Fini assistimos mais uma vez a uma ofensiva política realizada com o uso do assassinato moral e dos serviços secretos e também dos aparelhos de repressão. Uma luta política levada a termo com extraordinária violência verbal, com a volta à cena de poderes explicitamente criminais, como aqueles da Cosa Nostra e da Camorra, e como os da Maçonaria desviada, que condicionam diretamente a vida política nacional. Tudo isso representa um prejuízo incalculável para a Itália.

CC: Com o berlusconismo hoje na Itália ninguém faz carreira a não ser que possa ser chantageado. O senhor subscreveria esta consideração que ouvi pronunciar muitas vezes nos Estados Unidos por ítalo-americanos muito influentes?
NV
: Iria além disso. A Itália de hoje assemelha-se muito à Itália da Idade Média, um país não país no qual dominam os -senhores locais, as satrapias, os pequenos clãs. Atrás da corrupção dos políticos há uma complexa rede de poder de dimensão tipicamente local. Enquanto a Lega Nord canta o hino antipatriótico da “Padânia” nas celebrações do 15º aniversário da Unidade da Itália vão se legitimando as pequenas pátrias, algumas delas nas mãos dos clãs paracriminais.

CC: No entanto, em 15 de agosto, o ministro do Interior, o leguista Roberto Maroni, e o da Justiça, Angelino Alfano, sustentaram que ninguém realizou tanto como Berlusconi no combate à criminalidade organizada... Para Mario Landolfi, do PdL, somente Mussolini foi melhor que o Sultão no combate à Máfia...
NV
: Não é o governo que emite ordens de prisão, este é o grande embuste daqueles vendedores de tapetes que são os ministros Maroni e Alfano. Os juízes e procuradores são ofendidos e caluniados diariamente por Berlusconi, que travam a luta contra os clãs mafiosos e os chefões foragidos. A captura de um foragido é fruto de muito trabalho, às vezes de -dezenas de anos. Penso que um governo sério deveria perguntar-se por que, depois de tantas prisões, permanece inalterado o poder econômico das máfias, o seu domínio sobre territórios nacionais inteiros e a extraordinária capacidade de se tornarem protagonistas da globalização. Pode-se imaginar que na máfia vigoraria um princípio, semelhante àquele da economia de mercado: as prisões podem representar apenas uma espécie de turn over, e se figuras envolvidas com a criminalidade organizada continuam no poder. Por exemplo, o ministro Maroni deveria responder por que não expulsou o seu colega de governo Cosentino, quando alguns procuradores solicitaram a sua detenção por associação com a Camorra.

CC: Há quem sustente que o senhor poderá ser o primeiro premier da era pós-berlusconiana. O que o senhor acha disso?
NV
: O problema é que eu fico a grande distância da política compreendida como de palácio, como poder.

CC: Por quê?
NV
: Por enquanto, porque por duas vezes tive de derrotar o centro-esquerda nas primárias para poder vencer o centro-direita nas eleições de uma região-laboratório para a direita como a Púglia. Se venci, é porque a minha vida, a minha linguagem, a minha história, são expressões de uma dimensão nova, diferente da política.

CC: Quem é Nichi Vendola?
NV
: Sou aquele que viajou em volta do mundo, que se enfiou em zonas de guerra e de guerrilha, que narrou as dores do mundo, sou aquele que se bateu no decorrer da sua vida pelos direitos de cada ser humano, sou aquele que governa uma região grande, a Púglia, conseguindo em três anos torná-la a mais importante do mundo pelas energias renováveis, sou aquele que abre uma frente de luta contra a privatização da água, tendo à sua disposição o maior aqueduto da Europa, sou aquele que declara guerra aos italianos exploradores de imigrantes. Enfim, não sou um caçador de borboletas, não canto para a lua, tento manter coerência entre aquilo que digo e aquilo que faço. Vivo a política como o pensamento de uma sociedade mais civil. E sou alguém que, ao vencer, não esquece os perdedores.

CC: O ex-neofascista Granata, dissidente berlusconiano, juntamente com Gianfranco Fini, afirmou que apoiaria um governo liderado pelo senhor.
NV
: Na Itália, Granata exprime um novo gênero de direita, liberal democrática, de estilo europeu, gaullista, que é a melhor direita possível. Sou cético quanto a alianças paradoxais. Tenho estima por Granata, mas esta é outra conversa. Penso que o fenômeno político-cultural de Futuro e Libertà (Futuro e Liberdade), a formação política que Fini pretende fundar, seja um fenômeno habilitado a contribuir para se chegar a um novo centro. Veremos. Direita e esquerda às vezes na Itália parecem categorias equivalentes.

CC: O senhor é de esquerda. O que significa hoje ser de esquerda na Itália?
NV
: Para a esquerda, vencer deve ser apenas um verbo que pode ser traduzido num sentimento popular, vencer como um sentimento que muda a vida. É como quando a vitória da esquerda no Brasil significa travar uma luta contra a miséria e o analfabetismo. Em toda a América Latina, a esquerda nos últimos dez anos iniciou essa luta, a luta pela igualdade, pelos direitos sociais, enquanto a esquerda europeia observa com um certo sentimento de suficiência. Ao mesmo tempo, na Europa de hoje, há 80 milhões de pobres, 20 milhões dos quais são crianças. A política de esquerda deve voltar sua atenção para esses problemas.

CC: Qual é a sua situação em termos de futuras eleições?
NV
: Acho interessante o sucesso que obtive no coração do Vêneto da Liga, num confronto com o governador Zaia. Eu fui lá expor minhas ideias e dizer aos empreendedores: “Vocês estão em dificuldade porque lhes contaram uma lorota, ou seja, que era possível conduzir a competição internacional massacrando os trabalhadores, diminuindo o custo do trabalho. Pelo contrário, para mim isso é feito com processos de inovação, criando um sistema, uma rede, não tendo receio das realidades emergentes. A competição, por si só, é uma palavra destrutiva”. Dizendo isso e dizendo que os ricos deveriam pagar as taxas recebi aplausos, eu terrone (sulista) no coração do Norte leguista. Eu represento o contrário da síndrome de Zelig.

CC: De que se trata?
NV
: A esquerda exprime-se com uma linguagem cardinalícia quando fala com o Vaticano, e de forma patronal se fala com a Confederação das Indústrias. Quer ser igual a seus interlocutores. Pelo contrário, deve defender as próprias razões, salvaguardar o bem das pessoas.

CC: Qual é o programa que o senhor propõe para a Itália do futuro?
NV
: A minha é uma esquerda que não cultiva saudade, é uma esquerda que tem curiosidade, que procura entender as linguagens dos jovens, que não procura os melhores, mas todos, que não se forma por missões vindas do alto, mas se constitui como debate embaixo, que não consegue estar enquadrada em partidos da esquerda, mas se encontra nas escolas, nas paróquias, nas dificuldades, na vida real das pessoas. A minha é uma esquerda mais rica de perguntas que de respostas sobre o futuro, sobre o viver associado, uma esquerda popular, plural, dos direitos humanos. Aquela que tem a capacidade de ouvir o mundo novo. Na América Latina, Turquia e Índia, pode-se perceber o perfume de novas ideias. A Europa é um continente no qual reina a morte e para devolvê-lo à vida precisamos de uma grande e nova esquerda.

CC: No entanto, o único que derrotou Berlusconi até agora foi Romano Prodi, um centrista.
NV
: Tenho uma grande afeição por Romano Prodi. Receio que na política não haja mais a possibilidade de dar réplicas do passado, mas as diretivas do prodismo, mesmo com todos os erros cometidos, levaram a uma política com grandes potencialidades expansivas. Se Berlusconi foi o responsável pela narcotização televisiva, pela falta de responsabilidade da massa, a inversão do sistema que criou deve partir de um novo grande protagonismo democrático. Estou mortalmente cansado das diatribes simbólico-ideológicas no interior da esquerda: não dispõem mais nem de tempo nem de espaço. Eu não luto para uma esquerda minoritária, luto para vencer. Não é necessário ter medo da nossa gente, então. É com a nossa gente que venceremos. Juntos, com eles e graça a eles.

CC: Qual é a sua relação com o Brasil?
NV
: Estive duas vezes no Brasil. A primeira em férias no Rio, no primeiro dia do ano, em São Paulo e em Florianópolis. Outra vez participei do Fórum Social de Porto Alegre. Para mim, o Brasil representa uma parte de minha alma. Aqueles da minha geração aprenderam a fazer política desde meninos, tendo sempre o globo terrestre na frente. E um lugar especial era a América Latina. Desde criança sabia tudo sobre a América Latina. Naturalmente, a vitória de Lula, as batalhas dos seringueiros, aquelas do MST, as extraordinárias lutas deste lugar da alma que é o Brasil constituíram uma peça fundamental do meu imaginário. É uma das minhas pátrias. Se a esquerda não aprender a ter uma multiplicidade de pátrias, acabou. Queria por isso fechar com as palavras de Rocco Scodellaro, um antigo poeta do Sul: Eu sou um fio de grama, um fio de grama que treme, e a minha pátria é onde o fio de grama treme.

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