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Equador

Um golpe que virou levante

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 12/10/2010 14h54, última modificação 12/10/2010 14h54
Tentou-se derrubar Correa, mas sem o auxílio dos suspeitos habituais

Tentou-se derrubar Correa, mas sem o auxílio dos suspeitos habituais

Não há como negar que foi uma tentativa de golpe – como reconheceram a Unasul e o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza –, embora incompetente. Enquanto assediavam o presidente, os revoltosos tentaram apoderar-se da Assembleia Nacional e da televisão estatal e depois quiseram matá-lo, o que não faria sentido caso fosse simples reivindicação trabalhista.

O carro blindado que resgatou Rafael Correa foi alvejado por quatro balas e dois soldados que participaram da operação foram mortos pelos revoltosos. Em gravações da frequência de rádio da polícia, supostos agentes instigaram ao assassinato do presidente: “Que matem Correa para que isto acabe!” Outras mensagens tentaram coordenar os sublevados para enfrentar o Exército. A violência gerou ao menos dez mortos e 274 feridos.

Há fundamento para as acusações do governo ao ex-presidente Lucio Gutiérrez. Enquanto o país estava no caos, os três partidos ligados a Gutiérrez elogiaram a insubordinação e ensaiaram movimentos para tomar o poder.

Liderado por um ex-advogado de Gutiérrez, Pablo Guerrero, e pela universitária Alejandra Cevallos, alguns policiais e dezenas de civis ligados ao Partido Sociedade Patriótica (PSP), de Gu-tiérrez, quebraram as portas de vidro da emissora estatal, danificaram o equipamento e invadiram o prédio com a exigência de que os deixassem levar ao ar sua versão dos acontecimentos. Militantes do MDP, frente liderada pelo -neomaoísta PCMLE – Partido Comunista Marxista--Leninista do Equador, afim ao Partido Comunista Revolucionário (PCR) do Brasil –, tomaram dois governos de província, proclamando-se poder popular. O líder do movimento indígena Pachakutik emitiu um comunicado responsabilizando o presidente por “grave crise política e comoção interna” e chamando o Legislativo a destituí-lo.

Parte da mídia aderiu a esse jogo, focalizando os saques e a desordem pela qual culpavam o presidente, enquanto ignoravam as agressões que ele sofria. A Teleamazonas, do banqueiro Fidel Egas Grijalva (Grupo Pichincha), simpática ao PSP, insistiu em que o presidente não estava sequestrado e permanecia lá por sua vontade – discurso repetido pelo chefe da polícia, general Freddy Martínez –, enquanto os policiais agrediam integrantes do governo e populares que tentavam abrir caminho ao hospital.

O governo acusou dez políticos de participação na tentativa de golpe e pediu a prisão de cinco: dois da Sociedad Patriótica – Pablo Guerrero e Fidel Araujo, ex-major e ex-assessor de comunicação de Gutiérrez, acusado de coordenar a revolta (foi filmado falando ao celular durante o movimento) e três do MDP. Foram também detidos 46 policiais e o chefe da guarda parlamentar, coronel Rolando Tapia, conivente com o levante. O general Martínez renunciou.

Ou os setores gutierristas conspiraram para provocar o levante ou tentaram pescar em águas turvas, apostando em uma adesão militar que acabou por se limitar a setores da Força Aérea. Depois de alguma hesitação dos oficiais, que cobraram compromisso de Correa com o reajuste dos soldos dos oficiais (depois -cumprido), o Exército apoiou o governo e salvou o presidente.

Não se pode, porém, falar de enfrentamento claro entre uma esquerda bolivariana e uma direita conservadora, como foi o caso dos movimentos golpistas que fracassaram na Venezuela e Bolívia, venceram em Honduras e ameaçam repetir-se no Paraguai. A rebelião foi deflagrada por medidas de racionalização fiscal denunciadas como “arrocho neoliberal” pela extrema-esquerda e o mais popular líder conservador, o prefeito de Guayaquil, Jaime Nobet (Partido Social Cristão, PSC), rechaçou o golpe.

O ex-coronel Gutiérrez e seus aliados não são exatamente “direita conservadora”. Em 2002, depois de derrubar o presidente Jamil Mahuad (da UDC, centro-esquerda) e derrotarem nas urnas o bilionário neoliberal Álvaro Noboa, representaram uma proposta popular e indigenista, embora esta tenha se diluído ao prosseguir com a dolarização e a política neoliberal do ex-presidente Jamil Mahuad, e afastar-se das esquerdas para se aliar ao PSC. Quando rompeu também com este e tentou buscar o apoio de outros partidos tradicionais (PRE, do ex-presidente Abdalá Bucaram, e Prian, de Noboa), acabou isolado e deposto por seus ex-aliados da direita e da esquerda. Depois recuperou o apoio do Pachakutik e do MDP.

Gutiérrez, ao contrário de Correa, não desafiou os EUA em política externa. Apoiou o projeto da Alca de Bush júnior, prometeu renovar o acordo de Mahuad que lhe cedia a base aérea de Manta e hoje acusa Correa – que integrou o país à Aliança Bolivariana das Américas (Alba), de Hugo Chávez, e despejou o Pentágono de Manta em julho de 2009 – de ser “títere de um projeto internacional totalitário que quer comprar a América Latina com petrodólares”.

Ainda assim, não se pode concluir que Washington incitou o golpe, como acusaram Venezuela e Bolívia – mesmo se o Pachakutik recebeu recursos do National Endowment for Democracy e da Usaid e a polícia do Equador recebe recursos e treinamento dos EUA. O próprio Correa diz não acreditar nisso, embora não descarte que estadunidenses possam estar envolvidos sem conhecimento da Casa Branca.

O nó principal do problema está no impasse entre o desenvolvimentismo da “Revolução Cidadã” de Correa, que quer impulsionar a exploração de petróleo e recursos naturais e as reivindicações ecologistas e autonomistas dos indígenas – um conflito que, sob diferentes formas, ganha vulto em toda a América Latina. Importantes, mas não a ponto de assumir um papel central como na Bolívia, os indígenas do Pachakutik aliam-se a quem lhes faz promessas e tratam o governo como principal inimigo – assim como policiais e funcionários públicos apoiados pelo MDP em suas expectativas ilimitadas.

O personalismo do presidente, por sua vez, o fecha a negociações e o leva a apostar no apoio popular, que cresceu de 53% para 58% após a crise. Pode ser que esta o ajude a isolar a oposição e consolidar-se no poder, mas a solução dos impasses que a originaram ainda não está à vista.

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