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EUA: onde jornais valem menos que o beisebol

por Eduardo Graça — publicado 12/08/2013 08h49, última modificação 12/08/2013 10h06
Em 1981 o “Chicago Tribune” comprou o Cubs por mais de US$ 20 milhões. Em 2013, o dono do Red Sox comprou o “Boston Globe” por US$ 70 milhões
Flickr / dennis crowley
boston globe

Jornal foi comprado por US$ 70 milhões

O título pode parecer óbvio. Mas não foi sempre assim. Em 1981 o “Chicago Tribune” comprou o Cubs por pouco mais de US$ 20 milhões. No domingo passado o dono do Red Sox, John Henry, comprou o “Boston Globe” por US$ 70 milhões. Em três décadas, mudaram os times de beisebol ou os grandes jornais americanos? O paralelo não é perfeito. Não foi o Red Sox quem comprou o diário mais importante da Nova Inglaterra, cérebro tradicional da maior economia do planeta. Tampouco a Amazon.com adquiriu, um dia depois, o venerando “The Washington Post” por US$ 250 milhões, e sim seus donos, usando fortunas pessoais. Mas a ironia não perde a força em uma semana que também viu a agora exclusivamente digital “Newsweek” mudar de mãos uma vez mais, no curto período de três anos, desta vez por valor não anunciado, mas provavelmente não muito diverso do simbólico US$ 1 de 2010, quando era parte justamente do conglomerado do “Post”. Os números são importantes. O mesmo “Globe”, juntamente com poucos subsidiários, foi vendido em 1993 para o “The New York Times”, por US$ 1,1 bilhão. Mais: o Boston Red Sox tem valor estimado, hoje, em US$ 1.31 bilhão. O “Globe”, por sua vez, não chega a 7% deste valor.

Há cinco anos, quando o “The Wall Street Journal” foi adquirido pelo magnata ultra-direitista australiano Rupert Murdoch por US$ 5 bilhões (incluindo no pacote toda a Dow Jones, com agência de notícias, produtos locais e o conteúdo da rede de tevê a cabo CNBC), acadêmicos, políticos e jornalistas anunciaram o início da era da vulgarização da grande imprensa americana. Afinal de contas, o homem responsável pelo infame tablóide “The New York Post” e pelo híbrido de canal de notícias 24 horas e plataforma de propaganda política conservadora Fox News comandaria um dos três títulos mais influentes do jornalismo impresso no país.

Há meses se dá como certa a negociação entre os irmãos Koch, bilionários e comandantes da segunda maior companhia privada dos EUA, e o Tribune, dono dos títulos “Chicago Tribune”, “Los Angeles Times”, “The Baltimore Sun”, “Orlando Sentinel” e, não por acaso, o segundo maior jornal em língua espanhola dos EUA, o “Hoy”. Os dois são conhecidos por apoiarem o Tea Party e organizações políticas ultra-conservadoras e há o natural receio de que utilizem a rede de jornais como poderoso braço impresso de seu agressivo ativismo político, justificando assim o investimento mesmo com o balanço deficitário das publicações. Os Koch são peças importantes em um momento histórico que parece desafiar a máxima jeffersoniana tão cara aos americanos, aquela que defende a liberdade e o acesso à imprensa como base da democracia ianque.

Da Santíssima Trindade do jornalismo diário impresso americano, apenas o “The New York Times” ainda é gerenciado pela família que o notabilizou. Jeff Bezos, o novo dono do “Washington Post”, é amigo da família Graham, senhora do título desde os anos 30, e, embora não tenha dado entrevistas, deixou algumas poucas pistas de como pretende supervisionar – de Seattle, ele garante – as ‘mudanças inevitáveis’ pela qual o jornal, que teve seus anos de ouro na década de 70 e foi imortalizado no cinema em “Todos Os Homens do Presidente”, deve passar.

Bezos tem um perfil político bem mais tímido do que os Koch ou mesmo Murdoch. Amigos próximos dizem que ele é simpático aos ‘libertários’, avessos à ingerência do Estado em qualquer esfera da vida dos cidadãos, quase sempre aliados dos republicanos, mas defensores de posições mais progressistas no âmbito do direito individual. O que se sabe ao certo é que entre seus investimentos pessoais estão a construção de um relógio gigantesco em uma montanha no Texas, que deve seguir funcionando com exatidão por 10 mil anos, e um micro-sistema de acolchoamento para celulares. E o “Washington Post”.

Curiosamente, há quatro meses, Robert Redford, que viveu no filme o jornalista Bob Woodward, se reuniu com o próprio e seu colega Carl Bernstein (encarnado em “Todos Os Homens” por Dustin Hoffman) para um debate, no Newseum, em Washington D.C., no que se transformou em um festival de reminiscências e impressões sobre o mundo da mídia. Na audiência, Ben Bradlee, 91 anos, o editor-executivo do “Post” que decidiu publicar tanto os “Papéis do Pentágono” quanto a série de reportagens do escândalo de “Watergate”, fundamentais para o fim prematuro da presidência de Richard Nixon. Bradlee, Woodward e Bernstein enfatizaram a importância de o “Post” ser comandado, em seu momento mais nobre, por Katherine Graham (1917-2001). Ela teria ignorado a ameaça da revogação da licença de dois canais de televisão na Flórida – e a conseqüente redução pela metade do valor das ações do “Post” - para seguir adiante com as publicações sobre o Watergate. O equilíbrio entre lucro e jornalismo de fato não estaria comprometido com títulos comandados por empresários mais familiarizados com times esportivos e experiências de distribuição e venda de produtos na internet?

No caso específico do “Post”, interessantíssimo foi o debate, no programa de Rachel Maddow, no canal de notícias MSNBC, sobre o quão importante é saber quem comanda, afinal de contas, os títulos – ainda - mais respeitados da imprensa americana. Se um Graham ou um Bezos. A resposta mais interessante veio de Dan Rather, outrora a imagem mais reconhecida do jornalismo da CBS, dispensado pela empresa depois de uma briga judicial com o então presidente George W.Bush em torno do histórico militar do republicano, um dos conselheiros da série televisiva da HBO em cartaz no Brasil “The Newsroom” que trata justamente da crise do jornalismo ‘convencional’ americano.

Hoje o sobrenome mais famoso de uma empresa jornalística digital cujos donos são, ironicamente, o empresário de esportes Mark Cuban e a celebridade televisiva Ryan Seacrest (leia-se “American Idol”), Rather foi direto: “Não há dúvida alguma. É claro que, neste tipo de negócio, quem comanda a empresa tem um papel fundamental. Quando ouvi que Bezos havia comprado o ‘Post’, confesso que perdi a respiração. Mas depois refleti. Se a aquisição será boa para a integridade do jornalismo americano, para os leitores, para o país, ou apenas para ele próprio, dependerá exclusivamente de sua atitude como capitão da imprensa. Grande jornalismo começa com donos e publishers corajosos, que não recuam, que não sucumbem à trivialização e à politização da notícia. Se ele trouxer para o ‘Post’ seu expertise de inovação e sua capacidade de manter a relevância de marcas importantes, juntamente com a paciência que ele teve em seus outros investimentos, se decidir se concentrar nos leitores, seus consumidores finais, poderá de fato criar neste experimento do ‘Post’ a salvação do jornalismo americano tal qual o conhecemos. Sei que é um senhor peso, mas é como penso”.

Torçamos pela paciência de Bezos, quiçá o combustível ideal para que a era da vulgarização da imprensa americana fique para trás. E logo.