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Oriente Médio

Um duplo não à anexação palestina

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 16/11/2015 05h10
A pretensão israelense a eternizar a ocupação e colonização de territórios palestinos e sírios sofre golpes da União Europeia e dos Estados Unidos
Fotos: AFP / MENAHEM KAHANA
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"Product of Israel": judeu morador de assentamento em Shilo mostra uma garrafa de vinho que exporta

Na quarta-feira 11, a União Europeia decidiu que os produtos “israelenses” de colônias judias nos territórios ocupados – Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Golan – não mais poderão usar a legenda Made in Israel e receberão rótulos específicos. Por retirar aos produtos dos colonos as isenções tarifárias de que gozam os produtos israelenses na Europa e expô-los a boicotes, a medida enfureceu o governo de Benjamin Netanyahu, que a comparou às estrelas amarelas impostas pelos nazistas aos judeus e suas lojas nos anos 1930.

O paralelo é absurdo, pois não se trata de discriminar os judeus como povo ou Israel como nação, mas apenas os frutos da ocupação e anexação ilegal de territórios palestinos e sírios, condenada por seus próprios aliados. Trata-se de um meio de pressão bastante civilizado, análogo à proibição da importação pela mesma União Europeia de produtos da Crimeia, cuja anexação pela Rússia também não é reconhecida por Bruxelas. Mesmo assim, Israel suspendeu várias negociações com a Europa previstas para as próximas semanas.

Os produtos diretos dos colonos representam apenas 1% dos 13 bilhões de dólares anuais em exportações israelenses para a Europa. Incluem frutas, legumes, vinho, mel, azeite, ovos, aves e cosméticos.

Há também sugestões para sancionar bancos israelenses que financiam casas na Cisjordânia, proibir redes de varejo com lojas em assentamentos de operar na Europa, punir fabricantes que usem peças feitas nas colônias e mesmo exigir dos colonos vistos para visitar a União Europeia, dos quais os israelenses estão isentos. Mas essas medidas não foram aprovadas e não parece provável que o sejam no futuro próximo.

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Showroom de sabonetes produzidos no assentamento israelense de Kohav Hashahar

Aspectos simbólicos à parte, o impacto do eventual boicote aos produtos coloniais seria economicamente pouco relevante, principalmente se comparado com a tendência a uma rejeição muito mais ampla de cooperação econômica, cultural e acadêmica com Israel enquanto não abrir negociações sérias com a Palestina e admitir sua independência como um Estado viável.

Isso obviamente exigirá a retirada dos colonos judeus, como se fez anteriormente no Sinai e em Gaza, ou de pelo menos uma parte deles, dentro de um acordo de troca de territórios. Entretanto, estes se tornaram uma força política não só necessária à sustentação do governo conservador de Netanyahu, como temida por ele, que recentemente declarou considerar “insolúvel” o problema de Jerusalém Oriental e do Morro do Templo ou Esplanada das Mesquitas. O que equivale a dizer que jamais aceitará uma Palestina independente.

Enquanto isso, Barack Obama, por meio de um alto funcionário da Casa Branca, fez saber ao jornal israelense Haaretz que os Estados Unidos rejeitaram o pedido de Netanyahu, durante a visita a Washington no dia 9, para que reconhecessem a soberania israelense sobre o Golan ocupado. Não por questões éticas, mas por pura realpolitik: a Casa Branca receia desmoralizar a oposição síria pró-ocidental e expô-la como traidora da pátria aos olhos do próprio povo, o que seria inevitável se seu maior aliado no Ocidente endossasse a anexação israelense.

Para a estratégia dos EUA e do Ocidente, que busca desesperadamente uma solução para o caos do Oriente Médio que salve sua influência na região, a relação custo/benefício de sua aliança com Israel é cada vez menos favorável.