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Estados Unidos

Trump desmoraliza a lei de Godwin

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 27/11/2015 14h04, última modificação 28/11/2015 00h36
Críticos sérios, inclusive dentro da direita Tea Party, começam a argumentar que Trump é fascista
Ty Wright / Getty Images North America / AFP
Donald Trump

Na segunda-feira 23, Trump discursa em Columbus, cidade no estado norte-americano de Ohio. A imigração é um tema central de sua campanha

Já no distante ano de 1990, a dinâmica dos debates na internet levou o advogado e escritor Mike Godwin a formular o que ficou conhecido como lei de Godwin: “quando uma discussão online se prolonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou o nazismo aproxima-se de 100%”.

Muitas vezes, tais analogias foram feitas de forma arbitrária ou absurda. Por exemplo, contra argumentos a favor do vegetarianismo ou de subsídios à indústria, houve quem alegasse que Hitler era vegetariano ou subsidiava a indústria, como se isso fosse prova de que essas práticas são malignas.

Muitos moderadores de fóruns tiraram, porém, a conclusão errada: que independentemente do tema, comparações com o nazi-fascismo devem ser proibidas ou que quem as faz necessariamente está sem argumentos e perdeu a discussão.

Entretanto e infelizmente, nem sempre tais analogias são falaciosas. O discurso racista e xenófobo, os clamores pela erradicação de povos, culturas ou movimentos sociais e a influência da ultradireita tem crescido nos últimos 25 anos. Quando se converte em recusa a ver semelhanças onde elas realmente existem ou censurar sua menção, a lei de Godwin torna-se uma falácia.

Que ela está se tornando obsoleta é visível nos EUA, onde um pré-candidato de destaque é cada vez mais descrito e criticado como fascista. E não se trata dos minúsculos espaços da extrema-esquerda nesse país, mas de meios conservadores.

A retórica racista de Donald Trump assume atitudes e propostas cuja semelhança com as implantadas pelo nazismo é flagrante. Depois de prometer expulsar onze milhões de imigrantes e seus filhos, prometer um muro na fronteira e fazer o México pagar por ele, propôs para os cidadãos muçulmanos carteiras de identidade especialmente marcadas como as impostas aos judeus no III Reich.

A proposta foi devidamente apontada como fascista não por Hillary Clinton ou Michael Moore, mas por apoiadores dos rivais republicanos Jeb Bush, Marco Rubio e Ted Cruz. "Registro federal forçado de cidadãos dos EUA com base na identidade religiosa é fascismo. Ponto. Não há outro nome a dar”, escreveu no Twitter John Noonan, assessor de segurança nacional de Bush.

Só os mais ridículos fanáticos do livre mercado (inclusive um comentarista da Globo e Estadão), indiferentes a seu racismo, mas irritados pelas propostas de políticas protecionistas para a indústria estadunidense (inclusive imposto de 35% sobre carros importados do México) insistiram em tentar caracterizá-lo, em vez disso, como um “peronista esquerdista”.

Ainda não apareceram militantes de uniformes e braçadeiras, mas outras características do fascismo são evidentes: culto à personalidade, manipulação das emoções das massas, mística do “renascimento nacional”, exaltação da vontade, horror à análise crítica, glorificação da violência, desprezo pelas minorias e pelos fracos. 

Depois de acusar imigrantes latinos de serem não só criminosos por terem entrado ilegalmente no país como estupradores e quadrilheiros, Trump divulgou estatísticas falsas, inventadas por neonazistas, que atribuem aos negros a maioria dos assassinatos no país. Defendeu a tortura de suspeitos de terrorismo porque “mesmo que não funcione, eles merecem”.

Quando um negro entrou em um comício de dez mil pessoas para fazer um protesto solitário e seus fãs o socaram e chutarem, ele os defendeu: “Talvez ele merecesse ser agredido porque o que ele fez era absolutamente repugnante”.

Quando um jornalista do New York Times que sofre de artogripose (doença congênita que afeta as juntas) o criticou por inventar a falsa história de que muçulmanos de New Jersey teriam aplaudido os atentados de 11 de setembro, Trump o ridicularizou imitando seus movimentos limitados.

O mais perturbador é que essas multidões vibram ao ouvi-lo falar de deportações, tortura, vingança, invasões militares e ameaças à China, Japão e México. Até agora, nenhum de seus repetidos absurdos, cada um dos quais teria bastado para liquidar uma candidatura em tempos mais civilizados, foi capaz de abalar seu crescimento nas pesquisas.

Ganham adeptos, como nos anos 1930, um “elitismo popular” que faz cada cidadão da raça “certa” acreditar que pertence “ao melhor povo do mundo” e a celebração da masculinidade agressiva. É improvável que isso baste, desta vez, para vencer a eleição presidencial ou mesmo conquistar a candidatura republicana, mas é um sinal preocupante de em que direção se movem os EUA.

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