Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Ti Haiti, entre o lixo e o mar na maior favela do Haiti

Internacional

Minustah - 10 anos

Ti Haiti, entre o lixo e o mar na maior favela do Haiti

por Marsílea Gombata publicado 09/08/2014 09h02, última modificação 11/08/2014 16h50
Porção mais empobrecida de Cité Soleil escancara abandono do poder público e ciclo de pobreza extrema
Marsílea Gombata
ti haiti.jpg

Canal que termina no porto de Waaf dá espaço para lixo acumulado há anos

De Porto Príncipe

Bairro mais pobre do Haiti, a comuna de Cité Soleil abriga 365 mil haitianos. Ali, há casas de alvenaria simples, barracos de madeira e chapas de zinco, com um entorno composto por lixo, esgoto a céu aberto e vendas improvisadas de diesel, frutas e alimentos fritos. A impressão é de que a miséria reinante na maior favela de Porto Príncipe é o cenário mais degradante possível no cotidiano de alguém. O sentimento é relativizado quando se chega a Ti Haiti, a porção mais pobre de Cité Soleil.

O lixo acumulado se integra à paisagem sem cores. No canal que deságua no mar, a água há muito deu lugar a um imenso lixão, cujo caminho tortuoso leva dejetos, restos de comida e embalagens velhas. É ali que crianças brincam sem roupa e porcos buscam alimento. Quando chove, a água não tem como ser absorvida e um misto de chorume com esgoto invade os miseráveis casebres, fazendo as chances de propagação de doenças aumentarem. Logo adiante, no porto de Waaf, idosos, adultos e crianças se banham no mesmo espaço, em meio a garrafas descartáveis e outros lixos. A sensação latente é de que há tempos o poder público se esqueceu dali.

A porção miserável é dividida em alto Ti Haiti e baixo Ti Haiti. A transição de um para outro é clara: na parte alta, crianças e mulheres com bacias na cabeça transitam por ruas asfaltadas. Entusiasmados com a presença dos militares da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti), os pequenos acenam e gritam: “Hey, you! Hey, you!”. A expressão remonta à época da ocupação dos EUA, quando os soldados americanos passavam dizendo “Hey, you! Chocolate!” e distribuíam doces entre os civis.

No baixo Ti Haiti, o cenário é de devastação e descuido. As ruas de pedra, barro e traços de esgoto dão espaço para crianças correrem descalças no chão. Há tristeza no olhar de quem vive ali. Há desesperança e apatia na feição dos mais velhos. “Meu país sempre foi muito bagunçado, e a gente sofre com isso”, afirma Jean Dieusidor, 55 anos. Morador de Ti Haiti há dez anos, Dieusidor está desempregado há quatro meses, desde que problemas de saúde o obrigaram a deixar o emprego na fábrica de cimento. Responsável pelo sustento da esposa e de três filhos, ele mostra desânimo ao falar do futuro. “As coisas estão melhorando, e talvez tenha como sobrevivermos um pouco mais”. Em meio a tanta miséria, é difícil imaginar que os moradores dali consigam chegar aos 62 anos de idade, expectativa de vida média da população haitiana.

A carência quase absoluta se reflete nas próprias crianças, que apertam com força as mãos dos militares que patrulham a pé a região sob o sol a pino. Elas veem os estrangeiros como novidade e os acompanham por todo o trajeto das forças da Minustah como se quisessem dizer: “Me leva com você. Qualquer lugar para onde for será melhor do que isso aqui”.

A formação de Cité Soleil carrega em sua própria história o germe da falta de planejamento e descaso das instituições haitianas em relação à população. Nos anos 1950, a região foi pensada para funcionar como um polo industrial. Multinacionais chegaram a se instalar na porção leste, onde hoje existe um vazio demográfico. Na parte sul, o contraste de um adensamento populacional decorrente de famílias que migraram de outras regiões do país e de Porto Príncipe para viver próximo às fábricas. O projeto falhou, mas deixou como herança a maior favela do país, ainda palco da violência crônica dos enfrentamentos de gangues do Haiti.

Na área onde atuam 92 policiais haitianos, o ir e vir dos taps taps (caminhonetes privadas que fazem a vez do transporte público nas quais haitianos se amontoam) é intenso. O comércio ambulante nas ruas é habitual, assim como os modestos salões de beleza e as lotos, casas de aposta espalhadas por todo o país. A poucos metros do mar, uma ambulante passa com seu carrinho vendendo melancia em pedaços e pão com pasta de amendoim.

A falta de esperança nesta região é imensa. Ali, não há espaço para otimismo. Moradora de Ti Haiti, Omaine Bienville, 42 anos, é cética em relação às mudanças dos últimos dez anos, desde que teve início a missão da ONU. “Nada mudou com a presença das tropas aqui. Nada”, explica a haitiana que alimenta os dez filhos com o trabalho de vendedora ambulante. “Antes e agora é a mesma coisa. Para a minha vida, não fez a menor diferença”.