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Internacional

Entrevista

"Terror do Boko Haram atingiu novo patamar"

por Deutsche Welle publicado 13/01/2015 14h51, última modificação 13/01/2015 16h03
O etnólogo Roman Loimeier diz que meta do grupo é espalhar terror entre os civis muçulmanos. O grupo, que surgiu na Nigéria, recentemente atacou Camarões
AFP
Boko Haram

Vila atacada pelo Boko Haram em abril de 2013

As ações terroristas do grupo radical islâmico Boko Haram começam a cruzar a fronteira com os Camarões. Em entrevista à DW, o pesquisador Roman Loimeier, da Universidade de Göttingen, comparou a atividade do grupo nigeriano com o conflito mantido pelo "Estado Islâmico" na Síria e no Iraque. Loimeier analisa as mudanças de fase do Boko Haram nos últimos 12 anos e os motivos das suas investidas cada vez mais violentas contra civis.

Deutsche Welle: O Boko Haram vem espalhando o terror na Nigéria há anos, e as ações têm se tornado cada vez mais violentas. Por que não há um esforço internacional para reprimir a milícia?

Roman Loimeier: Esta é uma questão problemática. As potências internacionais já se deram conta de que o exército nigeriano tem um histórico de vender suas armas para o Boko Haram. É uma piada, é cínico. E os norte-americanos estão particularmente aborrecidos com o fato de seu apoio militar ter grandes chances de ser vendido para o Boko Haram. Isso tem levado a um certo desencanto com a Nigéria, mas, ao mesmo tempo, os norte-americanos, a França e Israel têm os seus agentes secretos na região e acompanham de perto o que está acontecendo.

DW: O último final de semana foi novamente bastante sangrento para a região nordeste da Nigéria, com pelo menos 23 pessoas mortas em ataques suicidas. Você acha que haverá uma escalada do conflito

RL: Quando olhamos para o desenvolvimento histórico do terrorismo do Boko Haram, nós podemos diferenciar três estágios: de 2003 a 2009, no começo da jihad contra as autoridades do norte da Nigéiria, a maioria dos ataques eram direcionados a unidades policiais, bloqueios de estradas, instalações militares, instituições governamentais e prisões. Após 2009, o Boko Haram tentou conquistar territórios, suas operações tinham um caráter bem militar. Aí tivemos uma espécie de guerra. Neste período, [o grupo armado] também aterrorizou minorias étnicas e religiosas na conquista de territórios. Nós agora entramos em um terceiro estágio do terrorismo do Boko Haram: eles ficaram sob pressão e, de 2013 para cá, começaram a agir contra a população civil muçulmana. Estão fazendo isso para amedrontá-la e forçá-la a não colaborar com as autoridades. Este terror contra os civis vai continuar.

DW: Relatos de ataques do Boko Haram nos Camarões ficaram mais frequentes recentemente. O grupo militante está se espalhando para fora da Nigéria?

RL: Sim. Já está se espalhando há algum tempo, na verdade. É claro que existem camaroneses muçulmanos que ingressaram no Boko Haram nos últimos anos. Mesmo assim, é apenas uma pequena minoria que está com o Boko Haram. O segundo fator é que o Boko Haram tem visto o norte dos Camarões em particular e também o Níger como áreas de recuo quando estão sob a pressão do exército nigeriano.

DW: Na semana passada, o líder do Boko Haram, Abubakar Shekau, ameaçou os Camarões em uma mensagem de vídeo, afirmando que Camarões teria o mesmo destino da Nigéria.

RL: Abubakar Shekau tem um legado de ameaçar a todos. É claro que a milícia tenta expandir suas operações nos Camarões e desencadeia um processo similar ao da Nigéria por lá. Mas, até agora, eu não acho que eles tenham tido sucesso com isso. Deve ser porque o exército camaronês é muito mais bem equipado e treinado do que o exército nigeriano, além de ser menos corrupto. Os muçulmanos do norte dos Camarões também estão muito mais integrados com redes de esclarecimento e movimentos religiosos. Eles [o Boko Haram] têm procurado radicalizar os muçulmanos do norte dos Camarões.

DW: Então você não vê o risco de o Boko Haram instalar um império regional na Nigéria, Camarões, Níger e Chade como o "Estado Islâmico" faz na Síria e no Iraque?

RL: Não, eu não vejo isto. Em ambos os lados da fronteira existe também um considerável número de pessoas que não são muçulmanas nem cristãs, mas adeptas de religiões africanas, religiões locais. E estas pessoas são bastante relevantes na resistência ao Boko Haram.

DW: Apesar destes grupos locais e de o exército camaronês combater o Boko Haram, a seita terrorista continua atacando cada vez mais. Na semana passada, o presidente dos Camarões, Paul Biya, pediu ajuda militar à comunidade internacional. Os Camarões são tão fracos para repelir estes ataques?

RL: Em termos de efetivo, é claro que o exército camaronês é menor que o da Nigéria. É por isso que Paul Biya pede ajuda. Mas, na minha experiência, vejo que líderes africanos, especialmente na região do Sahel, têm pedido ajuda externa diante das mais diferentes situações. Paul Biya deve usar o fato de o Boko Haram ameaçar os Camarões para ter a atenção do Ocidente e para receber equipamento mais moderno. Ele quer ser reconhecido como um parceiro na luta contra o terror.

  • Autoria Peter Hille (md)

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