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Steve Jobs e os deslumbrados pela Apple

por Fernando Vives — publicado 26/08/2011 14h52, última modificação 29/08/2011 11h42
Elogios após o anúncio da aposentadoria do executivo fazem dele quase um Moisés do mundo moderno, com os gadgets no lugar dos mandamentos

Quando a notícia da aposentadoria de Steve Jobs percorreu a internet no fim da tarde da última terça-feira (24), faltou pouco para muitos applemaníacos estragarem seus ipads ao derramar-lhes as mais sentidas lágrimas. Steve Jobs, atualmente o mais cultuado homem de negócios do planeta, deixou o cargo de CEO da Apple para cuidar de sua saúde - aos 56 anos, sofre de um tipo raro de câncer de pâncreas e já passou por transplante de fígado.

Boa parte dos grandes portais do Brasil e do mundo trataram a aposentadoria de Jobs nas principais manchetes, o mesmo espaço que seria usado em caso de morte de presidentes de países importantes. A idolatria ao chefão da Apple também é endossada por comentaristas de tecnologia. Um importante (e, normalmente, acima da média) articulista do ramo declarou em seu blog que “Steve Jobs é o John Lennon” de nossa geração. Mais que exagerada, compare-se abacaxi com galinha.

Houve também quem dissesse que a aposentadoria é mais uma chance para Steve Jobs “se mostrar genial”, num caso clássico de tietagem mais próximo de fãs clubes do que de imprensa especializada. Outra frase pinçada: “Ao renunciar ao cargo, ele (Jobs) deu apenas uma demonstração de lucidez” e que a aposentadoria “traria nova dimensão à sua genialidade”. Lucidez em relação a quê é impossível entender, uma vez que o guru deixou o cargo exclusivamente por conta dos graves problemas de saúde pelos quais enfrenta.

Jobs é, de fato, um cara muito talentoso e isso não se discute. Ele fundou a Apple em 1976 e foi um dos responsáveis por diminuir o tamanho dos microcomputadores, fato que permitiu a invasão deste aparelho pelo mundo corporativo ainda nos anos 1970 e, a partir da década seguinte, as casas dos Estados Unidos e do mundo. A Apple quase faliu quando ele deixou a empresa, mas, com sua volta já nos anos 1990, ela se tornou referência com os Macintosh e, na última década, com os ipods, iphones e ipads. Hoje as marcas de aparelhos eletrônicos seguem sempre a tendência lançada pela Apple.

E esses não são os únicos fatores que fazem o ex-CEO ser retratado como uma espécie de Moisés do mundo corporativo, com seus gadgets no lugar dos mandamentos. Ele é bom no gogó e fez apresentações muito empolgadas no lançamento de seus produtos. Usa sempre as mesmas roupas pretas e tênis simples, vendendo uma imagem limpa e cool de si, a mesma que dá aos seus aparelhos.

O problema é que o gênio high tech também tem feitos discutíveis, o que foi amenizado (ou esquecido) nas epígrafes sobre sua carreira.

O primeiro é que, apesar da qualidade dos aparelhos que produz, a Apple vai exatamente de encontro às tendências open source da tecnologia atual. É como se você comprasse um carro de uma marca e fosse obrigado a comprar todos os equipamentos dele como bancos, rádio, pneus e combustível exclusivamente fabricados pela mesma marca. E só conseguisse comprar estes equipamentos nas lojas da fabricante do carro. A Apple é assim. Enquanto várias empresas concorrentes usam sistemas que, em parte, podem ser modificados e aprimorados por usuários, a Apple é totalizadora das tecnologias e dos direitos em usar seus sistema.

Os beatos de Steve Jobs também não falam que sua empresa mantém parceria com a fábrica taiwanesa Foxconn, terceirizada que produz os componentes da Apple. A Foxxconn virou notícia mundial por conta dos altos índices de suicídio entre funcionários no ano passado. Entre janeiro e maio de 2010, 16 empregados da fábrica tiraram a própria vida, a maioria dos quais se atirando do alto da sede da empresa. Como boa parte das fábricas da China e de Taiwan, a Foxxconn, segundo amplamente veiculado pela imprensa, tem uma gestão considerada militarizada, na qual os funcionários da linha de produção trabalham demais e ganham pouco, normalmente em condições aviltantes de trabalho. A Apple, assim como Dell, Nokia e Sony, que também terceirizam a produção com a Foxxcom, seleciona muito imprudentemente as empresas com as quais trabalha.

Parece que, de alguma forma, Steve Jobs tem outro mérito indiscutível: sua capacidade de fazer com que analistas de tecnologia se transformem em fãs e releguem a segundo (ou nenhum) plano os temas polêmicos de sua carreira. Talvez nem John Lennon tenha alcançado tal feito.

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