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Internacional

Eleição 2011

Só um cataclismo político tira a reeleição de Cristina

por Ricardo Carvalho — publicado 16/08/2011 14h35, última modificação 19/08/2011 13h08
Assim como no Brasil, a oposição argentina não consegue apresentar um projeto político alternativo e vê, atordoada e sem rumo, o kirchnerismo garantir a reeleição antes mesmo de a partida começar
Só um cataclismo político tira a reeleição de Cristina

Como no Brasil, a oposição argentina não tem projeto alternativo e vê, atordoada, o kirchnerismo garantir a reeleição antes de o jogo começar. Por Ricardo Carvalho. Alejandro Pagni/AFP

Para a presidenta da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, o último domingo (13 de agosto) foi uma sólida demonstração de força eleitoral. Nesta data, foram celebradas as primeiras eleições prévias abertas e obrigatórias no país, consideradas um grande ensaio geral para o pleito presidencial de 23 de outubro. A menos que ocorra um cataclismo político na Argentina, Cristina se reelegerá ainda no primeiro turno com tranquilidade, uma vez que nas prévias mostrou ter a preferência de 50,07% dos eleitores.

Alguns fatores corroboram essa análise. Primeiro, as leis eleitorais dos nossos vizinhos estabelecem que um candidato, caso supere os 45% dos votos, vence ainda no primeiro turno. A regra também se aplica para quem conquistar 40% do eleitorado, desde que o segundo colocado esteja ao menos 10% atrás. Desse modo, num período de aproximadamente 70 dias, Cristina tem uma confortável margem de manobra de 5%, algo um pouco superior a um milhão de votos. Além do mais, seus dois adversários mais bem colocados, Ricardo Alfonsín (Unión Cívica Radical – UCR) e Eduardo Duhalde, que, apesar de ter sido o fiador político de Néstor Kirchner em 2003, hoje pertence a uma corrente peronista dissidente, somaram cerca de 12% dos votos cada um. O abismo eleitoral que os separa de Cristina torna-se ainda mais irreversível com a nova legislação eleitoral de 2009, que veta a formação de alianças entre candidatos que tenham participado das prévias.

“Foi, de certo modo, uma surpresa. A Cristina Kirchner esperava conseguir algo em torno de 40% e nem o Alfonsín e nem o Duhalde concebiam ficar abaixo dos 20%”, analisa, de Buenos Aires, o escritor e jornalista Eric Nepomuceno.

Nos meses anteriores às prévias, o kirchnerismo havia amargado derrotas eleitorais na cidade de Buenos Aires e nas províncias de Santa Fe e Córdoba, o que gerou especulações nos meios de comunicação argentinos e brasileiros sobre seu vigor para tentar a reeleição.

Cristina não só mostrou-se virtualmente imbatível nos números absolutos, como praticamente passou a borracha nos resultados eleitorais reversos deste ano. Ela venceu em todas as províncias, com exceção da pequena San Luis. Na cidade autônoma de Buenos Aires, historicamente antiperonista, Cristina liderou com 30% da preferência do eleitorado, mesmo após assistir seu candidato, Daniel Filmus, perder de lavada a prefeitura da capital para o conservador Mauricio Macri. O aspirante a presidente Duhalde, apoiado por Macri, conseguiu pouco mais do que 22% dos votos na cidade.

“Se alguém tinha dúvidas sobre a força da Cristina, é melhor parar e pensar. Além do mais, as prévias provam que, assim como no Brasil, a oposição argentina é um balaio de gatinhos inofensivos, que miam muito e não fazem nada”, diz Nepomuceno.

Ricardo Alfonsín, por exemplo, serviu-se unicamente de seu sobrenome para tentar capitalizar-se eleitoralmente e fazer frente ao kirchnerismo. Seu pai, Raul Alfonsín, foi o primeiro presidente civil após a última ditadura militar (1983) e tem uma imagem muito ligada à transição para a democracia. Mesmo assim, Ricardo foi incapaz de apresentar um projeto político de oposição e levar seu partido, um dos mais tradicionais do país e com mais de 100 anos de história, para além de míseros 12%. “Ele (Ricardo) só existe porque se chama Alfonsín. Caso se chamasse Ricardo Pérez, não ia se eleger síndico do prédio”, ironiza Nepomuceno.

Além do mais, o partido UCR, o qual Alfonsín representa, ainda é associado à crise econômica que assolou a Argentina entre o final da década de 90 e os primeiros anos do governo de Néstor Kirchner. Fernando De La Rúa, o presidente-ícone do desmoronamento econômico, pertencia a legenda.

Por outro lado, Eduardo Duhalde, peronista mais à direita, já ocupou a presidência da Casa Rosada, num mandato desastroso e lembrado principalmente pelo corralito, a versão argentina do confisco de contas bancárias semelhante à promovida no governo Fernando Collor de Mello. Apesar de ter sido o padrinho político de Néstor Kirchner, Duhalde afastou-se do casal K. quando o país rompeu com o Fundo Monetário Internacional.

A Morte é peronista?
Imediatamente após a divulgação dos resultados das prévias, os jornais começaram a noticiar que a alta popularidade de Cristina ainda se vale da morte do marido, há pouco menos de um ano. De fato, nos eventos políticos não é incomum a presidenta evocar a imagem de Néstor Kirchner. Por sinal, lê-se num dos slogans da campanha “A força dele”, em alusão ao ex-presidente. Ao jornal O Estado de S.Paulo, o filósofo Juan José Sebreli disse que a morte é “uma das obsessões dos argentinos” e que o governo utilizou a mise-en-scène principalmente no velório de Néstor. Analistas também destacaram que Ricardo Alfonsín tentou usar a recente morte do pai, em 2009, para inflar seu capital político.

Eric Nepomuceno prefere um pouco menos de obscurantismo na análise. Ele diz que a capitalização política da figura de Néstor Kirchner por Cristina foi similar ao uso da figura do ex-presidente Lula pela então candidata Dilma Rousseff em 2010. “Ninguém fala que a Cristina tem uma militância política mais antiga e ativa do que o seu marido”, diz. “A Dilma, por exemplo, falava constantemente no Lula, uma jogada de marketing legítima, e ela seria muito tola se não o fizesse”, finaliza.

Mais do que obsessão pela morte, os argentinos parecem ter levado em conta um projeto político que, desde 2003, garantiu uma sólida e rápida recuperação da pior crise econômica já vivida pelo país. Hoje, a taxa de emprego é estável em 7% e os índices de crescimento econômico são dos mais elevados no continente.

Professor titular de história contemporânea da Universidade de São Paulo, o argentino Osvaldo Coggiola, faz, porém, uma importante ressalva. Para ele, a estabilidade econômica do tempo do kichnerismo será colocada à prova com os desdobramentos da crise econômica mundial. “Nos últimos anos, a Argentina vêm atrelando suas exportações muito a China, que inclusive vai passar o Brasil como principal parceiro”, argumenta. Dessa forma, caso haja uma queda na demanda, essa estrutura econômica que vai garantir a reeleição de Cristina Kirchner pode sofrer um forte abalo.

Perón, Perón!
As prévias também revelam que o eleitorado argentino ainda é majoritariamente peronista. Os votos somados dos candidatos provenientes das mais diferentes vertentes do peronismo superam 70%. “Nenhum governo desde 1955 conseguiu governar sem o apoio do peronismo. Exceção aos militares que, para tanto, matavam gente”, explica Nepomuceno. O problema é justamente definir uma corrente com tamanho apoio da população e tantas dissidências. “O peronismo é um movimento muito disforme. A Cristina Kirchner, por exemplo, está mais próxima da social-democracia. Já o Duhalde é de um peronismo mais populista e à direita”, explica o jornalista e escritor.

O professor Osvaldo Coggiola faz análise semelhante. “Hoje o Perón é uma figura simbólica. O peronismo é algo ultragenérico, com pessoas que se valem do seu nome à esquerda, ao centro e à direita”. O professor também destaca que a legislação eleitoral aprovada em 2009 teve como consequência o veto de partidos minoritários mais à esquerda. A nova norma não permite a participação nas eleições dos candidatos que obtiverem menos de 1,5% dos votos nas prévias, caso de três chapas. Assim, devem se apresentar para o pleito em dois meses sete candidatos à Casa Rosada.

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