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Setor privado dos EUA fornece mercenários da guerra às drogas ao México

por Agência Pública — publicado 11/04/2011 16h42, última modificação 11/04/2011 16h42
Empregadores procuram ex-soldados para oferecer táticas de guerra urbana e treinamento contrainsurgente

Por Bill Conroy*

A L-3 MPRI, uma divisão de uma das maiores contratistas de defesa (empresas de segurança privada que prestam serviço a governos) dos Estados Unidos, está buscando contratar na comunidade mercenária “posições de comando” que possam ajudar a supervisionar os funcionários da companhia no México e, também, trabalhar em conjunto com “funcionários militares mexicanos” em uma dezena de locais de treinamento no México, chamados de “VMTC”.

 Tais Centros Virtuais de Treinamento Militar (VMTCs) oferecem “treinamento de alta qualidade e apoio de simulação”, e os funcionários para posições de comando se reportarão diretamente ao administrador do projeto L-3 MPRI na Cidade do México, afirma um anúncio de emprego publicado na página da internet do L3-MPRI.

 Por muito tempo, críticos da política de guerra às drogas vêm afirmando que o militarismo fomentado por ela está, em grande parte, motivado pelo lucro, com uma Iniciativa Mérida de 1,5 bilhão de dólares oferecida como prova do caráter mercenário de tal política. Por trás da iniciativa, os EUA concordaram em oferecer ao governo mexicano sofisticados equipamentos militares e treinamento para ajudar na “guerra contra o crime organizado e a violência associada a ele”, de acordo com o Departamento de Estado dos EUA.

 Mesmo que não esteja claro quem financia os centros de treinamento L-3 MPRI no México – se são apoiados pelo dinheiro da Iniciativa Mérida, pelo governo mexicano ou outro programa –, o que fica claro é que o anúncio de emprego representa uma evidência importante que as companhias do setor privado estadunidense têm operações mercenárias dentro do México, as quais parecem proporcionar treinamento de alto nível ao Exército mexicano, em apoio, ao menos em parte, à guerra contra as drogas no país.

 Desde que Felipe Calderón assumiu a presidência em 2006 e lançou sua chamada guerra aos “cartéis de drogas”, 35 mil pessoas foram assassinadas.

A L-3 MPRI foi fundada em 1987 por um grupo de militares estadunidenses de alta patente. Seu presidente, nomeado em janeiro de 2010, é John Craddock, que, antes de se aposentar do Exército estadunidense em 2009, foi comandante em chefe do Comando Europeu dos Estados Unidos e como comandante Supremo Aliado na Europa, supervisionando os exércitos de 28 países membros da Otan.

 A L-3 MPRI foi adquirida em 2000 e, agora, opera como uma divisão da L-3 Comunicações, corporação que tem 62 mil empregados e rendimento anual de 16 milhões de dólares. Serve como a principal contratista no mercado de defesa e segurança, oferecendo serviços e produtos de “comando, controle, comunicações, inteligência, vigilância e reconhecimento” aos Estados Unidos e a governos estrangeiros aliados, de acordo com sua página na internet. Entre os serviços prestados pela divisão MPRI do L-2 que emprega cerca de  5 mil pessoas, está o treinamento militar que usa “simuladores e simulações”, de acordo com seu sítio na internet.

O folheto de marketing de L-3 MPRI a seguir oferece uma melhor visão sobre a oferta da empresa, como neste vídeo:

Treinamento em defesa internacional e equipamento – Proporcionamos a nossos clientes internacionais em defesa e militares programas de treinamento e educação relativos à modernização e desenvolvimento da força, estabilização  militar, simulações  e exercícios de treinamento com disparos de armas de fogo, segurança marítima e de fronteira, e tudo isso sob a licença do governo dos Estados Unidos.

.. Produtos de simulação, treinamento e tecnologia. Proporcionamos treinamento com tecnologia de simulação  de última geração  para a condução (de patrulhas, caminhões, veículos de emergência), pontaria com laser (com todo tipo de armas) e marítimo (navegação, manobras com barcos, motores e manejo de carga).

Mais uma vez, o anúncio da L-3 MPRI nao esclarece quais sao os serviços específicos que oferece ao governo mexicano através de suas 12 VMTC no México, tampouco indica no anúncio quanto tempo esses centros de treinamento estiveram em operação.

No entanto, o anúncio de emprego deixa claro o que a companhia busca nas “posições de comando”.

 Do anúncio:

 Requisitos: Grau mínimo: oficial de companhia ou suboficial aposentado (E7-E9) com quinze anos de serviço, que já seja do Exército dos Estados Unidos ou da Infantaria de Marinha. Mínimo de três anos de combate ou experiência contratista como líder de equipe em treinamento de guerra com exércitos estrangeiros ensinando combate de guerra urbana, contrainsurgência, táticas de defesa ou infantaria. Prefere-se que fale espanhol.

 Localização: México (vários locais)…

 A Narco News contatou um porta-voz da L-3 MPRI, o vice-presidente em comunicações estratégicas Rick Kiernan, através de telefone e correio eletrônico, pedindo respostas às seguintes perguntas:

1. Qual é a natureza do treinamento oferecido ao Exército mexicano através dos Centros Virtuais de Treinamento Militar no México?

2. Onde se localizam os VMTCs no México, ou, ao menos, em quais regiões do país?

3. Poderiam indicar o nome da entidade (ou seja, o governo mexicano ou organismo dos EUA) que contrata a L-3 MPRI para os serviços de treinamento VMTC?

4. Quantos empregados, contratistas? Trabalham para a L-3 MPRI nos VMTCs no México?

5. Poderiam descrever como um VMTC está desenhado para oferecer em termos de serviço e treinamento? (Por exemplo, os VMTCs utilizam inteligência da vida real sobre o terreno ao criarem cenários virtuais de treinamento?)

6. Além do Exército mexicano, há VMTC de L.3 MPRI oferecendo treinamento e serviços a outros grupos do Exército mexicano ou agências da lei? Em caso afirmativo, poderia nomeá-los?

 Kiernan, ao ser contatado por telefone, respondeu às perguntas da seguinte maneira: Não temos um contato (no México) para fazer esse tipo de trabalho. Que eu saiba, não houve nenhum contrato assinado.

No entanto, fontes de Narco News sustentam que o anúncio de L-3 MPRI está circulando na comunidade mercenária e, até o momento da publicação desta reportagem, o anúncio de emprego estava na lista de trabalhos dessa empresa. Neste link  é possível ver uma captura do quadro de anúncio.

 As declarações do porta-voz da L-3 MPRI negando que a companhia tenha um contrato ativo no México é desconcertante, apesar de que Kiernan tenha dito que a L-3 é uma grande companhia e contrata de o tempo todo, assim, é possível que esse acordo particular simplesmente não seja de seu conhecimento por alguma razão.

 Antes da cobertura de Narco News, também estava claro que o Departamento de Defesa está envolvido em proporcionar serviços de treinamento ao Exército mexicano, não muito diferentes dos descritos no anúncio para mercenários de “posições de comando” da L-3 MPRI.

 Em fevereiro, a repórter Erin Rosa, de Narco News, escreveu o seguinte no artigo “Os Estados Unidos dão cursos de ‘contrainsurgência’ a militares mexicanos na guerra contra as drogas”:

 Em agosto de 2009, uma equipe móvel de treinamento, juntamente com a Universidade de Operações Especiais Conjuntas (JSOU, na sigla em inglês), uma escola militar que ensina táticas de forças especiais, treinou o Exército e a Marinha mexicanas. Diferentemente dos informes dos anos anteriores, o documento não  detalha a localização exata onde aconteceram esses treinamentos.

Em outubro passado, quando uma investigação de Narco News descobriu que tanto a JSOU como a WHINSEC estavam operando no México, o Departamento de Estado e o Departamento de Defesa não informaram onde estavam sendo realizados e onde estavam localizados. Na ocasião,  Alex Featherstone, porta-voz da embaixada dos EUA no México, disse que o Departamento de Defesa, por meio do Escritório de Coordenação  da Defesa na embaixada, levam a cabo “seminários, conferências e reuniões”, incluindo eventos que tem como foco “esforços antidrogas”.

 E, agora, parece que o Exército dos Estados Unidos, como em muitas zonas de conflito em todo o mundo, possa estar trabalhando juntamente com as forças mercenárias na guerra contras as drogas no México.

Tosh Plumlee, ex-piloto contratista da CIA, não parece surpreso com a revelação: “Há alguns meses alguém… me enviou uma cópia (de um anúncio) parecido com esse”, disse à Narco News. “Não estou seguro se era a mesma companhia ou outra… Atualmente, há muitos recrutas de mercenários”.

 Atualização de 4 de abril

 Revelou-se um pouco mais sobre a natureza dos Centros Virtuais de Treinamento. Outro anúncio de emprego publicado no site da L-3 Comunicações chamou a atenção da Narco News.

O anúncio de emprego descreve a rede de VTMC no México como parte de um esforço chamado “Projeto Esparta”, que está desenhado para “treinar soldados do Exército mexicano em operações de combate urbano básicas e avançadas”, com a meta de criar uma “Força de Elite de Combate Urbano”.

 A “nova força de reação especializada” apoiará “agências da lei federal, estatal e municipal na guerra contra o crime organizado e os cartéis de droga”, afirma o anúncio da L-3 MPRI.

Mais do anúncio:

O Programa de Combate Urbano treinará soldados de nível básico nas habilidades necessárias para apoiar as campanhas contra o crime organizado, para entender e apoiar as funções e processos das agências de aplicação  da lei, para operar dentro do marco jurídico civil e atuar com eficácia com a sociedade mexicana.

 Requisitos (para o especialista em treinamento) – Ex-oficial de combate ou suboficial com cinco anos de serviço no Exército dos Estados Unidos ou Infantaria da Marinha. Mínimo de dois anos de experiência de combate ou de contratista de combate em um cenário de treinamento de guerra com exércitos estrangeiros ensinando combate urbano, contrainsurgência, técnicas de defesa ou infantaria. De preferência, que fale espanhol.

Vale a pena assinalar que os dois anúncios de L-3 MPRI que apareceram nesta história estão buscando ex-soldados, essencialmente mercenários, que, de outra maneira, não tiveram treinamento em “processos e funções de aplicação da lei”. No entanto, dada a limitada informação disponível nos anúncios da L-3 MPRI, é possível que “O Programa de Combate Urbano” possa estar recrutando treinamento com um contexto de aplicação da lei.

O anúncio pode ser visto neste link.

* Publicado originalmente em Narconews.com, em português na Agência Pública.

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