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Boliviana

'Ser Gay en Tiempos de Evo'

por Denise Mota — publicado 22/09/2011 15h31, última modificação 22/09/2011 15h31
Em livro, jornalista Edson Hurtado levanta o véu da discriminação num país onde a sexualidade ainda é motivo de ofensa, violência ou vaias

Para a comunidade gay internacional, no ano passado Evo Morales perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado, quando disse em um evento que o uso de hormônios na criação de frangos era a causa dos “desvios sexuais” dos homens. Como uma espécie de resposta a comportamentos como esse, o jornalista boliviano Edson Hurtado resolveu tirar do armário 140 histórias reais de homossexuais que “precisam urgentemente de visibilidade”, para que comentários de teor homofóbico entrem ao menos na pauta de discussões do país.

“Ser Gay en Tiempos de Evo” reúne casos relacionados à homossexualidade que algumas vezes foram publicados em jornais, histórias que emergiram de entrevistas realizadas pelo autor, profissional de rádio há 15 anos, ou passagens que fazem parte do anedotário pessoal de Hurtado. É um trabalho que implicou ao jornalista assumir publicamente sua sexualidade no país, algo bastante complexo pelo que se depreende da leitura de sua obra, com o propósito de levantar o véu da discriminação em um momento em que a Bolívia é governada pelo primeiro mandatário indígena de sua história.

O cutucão começa na capa do livro, em que Hurtado, também ativista pelos direitos da comunidade gay de seu país, une a “whipala”, símbolo indígena, a bandeira boliviana e as cores do arco-íris, símbolo internacional da comunidade LGBT.

“Evo Morales é muito especial e contraditório ao mesmo tempo. Representa a mudança política no país, já que seu discurso calou fundo em um povo que desejava transformações urgentes. No entanto, esse discurso empalidece quando se trata de outras minorias que não sejam as indígenas-camponesas. A representatividade não chega para todos, entre os gays, lésbicas, bissexuais ou trabalhadores sexuais, apenas para mencionar alguns exemplos. Como aconteceu em todos os governos, esse também tem problemas em falar do assunto e, por medo de gerar controvérsia, prefere se calar. Desse modo, o silêncio se transforma em outra forma de discriminação. Mudar isso é o desafio”, diz o autor nascido em Vallegrande a CartaCapital.

Em 2007, a Defensoría del Pueblo do país (entidade governamental de defesa dos direitos humanos) publicou uma pesquisa segundo a qual pessoas com orientação sexual e identidade de gênero diferentes (ou seja, “gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros”, enumera Hurtado) compunham o terceiro grupo mais discriminado da Bolívia, depois dos portadores de HIV e dos indígenas e camponeses.

Levantamento realizado pela Mesa Nacional de Trabajo, outra instituição que atua em prol dos direitos humanos em diversas cidades bolivianas, corrobora o alto índice de preconceito vigente e indica que 60% das instituições de saúde discriminam homossexuais. O número sobe para 70% entre estabelecimentos da rede de ensino e 80% no mercado de trabalho.

Escritos em estilo narrativo próximo ao de Eduardo Galeano, inspiração literária confessa de Hurtado, os relatos de “Ser Gay en Tiempos de Evo” são curtos, diretos e muitas vezes permeados por um fino humor que nem por isso tira a dureza de muitas das histórias descritas: episódios de humilhação social, agressão física e morte.

As famosas palavras de Morales ganham um capítulo à parte  - “Sabotagem” -, em que Hurtado reconstrói os bastidores que levaram ao acidentado discurso do mandatário boliviano, segundo ele alterado às pressas por uma figura desconhecida, senão do governo, ao menos do grande público. Apesar de avaliar que os avanços sociais representados pela chegada de um indígena ao poder não tenha atingido os homossexuais, o autor também relembra em outro fragmento de seu livro que foi durante a gestão de Morales que se aprovou uma lei antidiscriminatória no país.

Também não deixa de apontar o preconceito que alguns homossexuais alimentam com relação à comunidade indígena, em um círculo vicioso que termina por enfraquecer ao mesmo tempo dois dos setores mais fortemente marginalizados. “Para quem desejar usar o livro a favor ou contra o governo de Morales, ele não vai servir porque aqui estão relatos que se relacionam a um determinado contexto, nada mais. Minha intenção é gerar debate e reflexão, e não escândalo ou disse-que-disse”.

Integra ainda a coleção de historietas do jornalista o episódio em que, no Dia da Independência de 2006, um cidadão boliviano, por chamar o vice-presidente Álvaro García Linera de “marica”, amargou 24 horas de prisão, mesmo em meio a uma série de protestos em que outros “impropérios”, como ladrão ou traidor, foram proferidos contra o político. Hurtado questiona, obviamente, por que ser classificado de homossexual causou a detenção do manifestante, ao passo que outras “ofensas” não incorreram em nenhuma punição.

O autor descreve a tentativa de boicote, a um só tempo ridícula e ingênua, sofrida pelo argentino Charly García às vésperas de um show que realizou em Santa Cruz em meados dos anos 1980. A rejeição de uma parcela de habitantes da cidade se devia ao fato de acreditarem que o artista, um dos maiores nomes do showbiz portenho, fosse portador do vírus HIV.

Entre outras curiosidades que testemunham a homofobia boliviana, Hurtado fala, ainda, da proibição bastante comum e explícita em hotéis de La Paz de que sejam admitidos dois homens que desejem ocupar o mesmo quarto.

“Ser Gay en Tiempos de Evo Morales” é um projeto editorial alternativo, lançado com o apoio da gestora cultural Ayni e nada mais. Hurtado conta que organiza e encabeça desde o roteiro de lançamentos do livro, neste momento, em várias cidades bolivianas, até negociações para edições em outros países, caso de Chile, Argentina e Espanha, por exemplo, que devem lançar uma edição em futuro próximo. Além do trabalho editorial e de rádio, o jornalista desenvolve um projeto social em Santa Cruz financiado pela União Europeia e que consiste em resgatar a memória histórica do Plan 3000, a periferia mais discriminada da mais conservadora cidade boliviana.

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