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The Observer

Se os EUA são a maior potência mundial, por que a política infantil?

por The Observer — publicado 09/10/2013 04h58, última modificação 28/11/2013 17h17
O país está à beira do desastre, empurrado por um movimento único em sua incrível falta de realismo e rigor
Saul Loeb / AFP
Barack Obama

Barack Obama faz discurso em 7 de outubro, sétimo dia do fechamento do governo, provocado por divisão entre republicanos e democratas

Por Henry Porter

Um casal de aparência perfeitamente normal senta-se à sua frente no trem. Eles parecem agradáveis e você começa a conversar, mas logo percebe que o homem fala coisas sem sentido e começa a espumar pelos cantos da boca. A cada vez ele contradiz sua parceira ou, de modo mais estranho, a si próprio, e você percebe que por dentro ele fervilha com temores violentos e paranoicos. Você conclui que essa pessoa vai causar sérios danos a si mesma e nisso poderá ferir outros passageiros, então você se levanta e vai procurar um lugar em outro vagão.

Essa é nossa experiência de conviver com a direita norte-americana – os ativistas do Tea Party que levaram a maior economia do mundo à beira da catástrofe para fazer uma última oposição à Lei de Acesso à Saúde e Proteção de Pacientes. O mundo está impotente para convencer ou intervir, e estamos à mercê de um comportamento que parece verdadeiramente irracional.

Este é com certeza uma espécie de ponto máximo na missão de perturbar do Tea Party, mas não pode ser considerado simplesmente uma delinquência. O movimento apresenta os sintomas de um prolongado espasmo infantil, ao mesmo tempo como uma crença coerente em que o governo central e especialmente o Obamacare são inimigos da liberdade do indivíduo e da liberdade dos estados em determinar seu futuro.

Os liberais descreverão isto como um fracasso da política de consenso que tem sido conduzida pela menor desconfiança e o menor preconceito encontrados na sociedade americana, manipulada por grandes empresas, por empresas de mídia negligentes ou demagógicas como a rede de TV Fox News, e cheia de políticos ambiciosos que prometem uma terra de fantasia que não podem entregar.

Essa é principalmente minha opinião, mas devo admitir que ela ignora a profunda desconfiança do poder centralizado nos EUA que remonta aos pais fundadores e é uma parte essencial da cultura nacional. A separação de poderes criada pelos autores da Constituição parece arcaica em um mundo que exige uma ação executiva rápida, mas não devemos esquecer que apesar de o Obamacare ter sido democraticamente avaliado e aprovado pelo Congresso as restrições estão sendo aplicadas pelo Tea Party em nome da liberdade.

Ainda existe uma minoria de republicanos – 18 a 20 – no Senado que se opõe à paralisação do governo ou teme uma moratória, que significaria que o governo deixaria de pagar suas contas quando atingir seu limite de dívida em ou depois de 17 de outubro, e assim causar uma crise internacional maior que qualquer coisa já vista nos últimos cinco anos. É evidentemente suicida, mas, por enquanto, representantes do Tea Party como Ted Cruz, o mais jovem senador do Texas que fez um discurso de 21 horas para obstruir o Congresso, atacando tudo na Casa Branca exceto a horta da senhora Obama, estão dando as cartas.

Mas a estratégia, se é que é essa a palavra, deverá falhar, porque o presidente Obama não pode recuar na principal reforma de seu governo e, a certa altura, o Tea Party terá de ceder ou correr o risco de atrair a raiva da maioria da população norte-americana e assim ameaçar as probabilidades do Partido Republicano na próxima eleição presidencial.

O movimento se colocou em uma posição em que não pode vencer e que será muito prejudicial para seu hospedeiro republicano, que já foi muito distorcido pelo microorganismo invasor TP. Como indica a Economist, os filiados republicanos do Congresso tornaram-se mais temerosos de ser contestados por seus próprios extremistas do que de perder uma eleição geral. "Muitos cedem aos extremistas de seu próprio lado em vez de forjar alianças sensatas com o outro", disse o editorial da revista.

Algumas semanas atrás, escrevi sobre o controle de armas nos Estados Unidos e apliquei a técnica irônica de tratar o país com a mesma condescendência com que ele fala de outros países. Mas esses recursos seriam inúteis para o Tea Party, pois há poucos movimentos em qualquer lugar do mundo que sejam tão irreais ou tenham tamanha falta de rigor. A sátira e a ironia são inúteis quando se trata de um movimento que é a favor da vida no aborto, mas a favor da morte na questão de executar pessoas ou na das 32 mil vidas ceifadas anualmente por armas de fogo particulares. Os republicanos do Tea Party apimentam seus discursos com a palavra "liberdade", mas nada fazem contra os programas de vigilância do governo que infringem os direitos de todos os norte-americanos. Eles arengam contra o poder do grande governo, mas nunca sobre os malefícios das grandes empresas.

Eles estão espalhados por todo o mapa. Suas políticas são como a dieta de xarope de milho com alto nível de frutose que os TPs muitas vezes apreciam – apetitosa, temporariamente satisfatória, mas afinal um risco para a saúde.

Temos no Reino Unido nossos próprios políticos idiotas no Ukip e no Partido Conservador (Jacob Rees-Mogg aplaudiu a paralisação do governo norte-americano), mas raramente somos expostos ao incrível fanatismo de um homem como Cruz. Ele foi eleito em novembro passado, mas já se tornou uma figura nacional e está sendo considerado um possível candidato presidencial em 2016. Educado em Princeton e Harvard, filho de um cubano, ele parece muito uma versão jovem do senador Joe McCarthy. E de fato, pouco depois de chegar a Washington, sua linha persecutória de questionar Chuck Hagel, o indicado por Obama para secretário da Defesa, referindo-se a possíveis ligações com inimigos estrangeiros, lembrou McCarthy. "O senhor já foi ou jamais esteve..."

Recomendo suas entrevistas filmadas, especialmente com Evan Smith do Texas Tribune, porque você não verá um zelote mais polido. Ele concordou que a seguridade social era um esquema de pirâmide, porque pagava aos investidores com seu próprio dinheiro ou o dinheiro investido por outros. Ele considera muitos de seus colegas "republicanos esponjosos" e repete este refrão: "O governo federal está envolvido em uma guerra por empregos e o que está em jogo são a liberdade individual e a Constituição". Nada disso faz sentido, diante das centenas de milhares de empregados do governo que hoje estão em licença não remunerada por causa da paralisação.

Se você se encontrar em um trem com Cruz, ficará marcado por sua inteligência e sua maneira confiante, e inicialmente poderá comprar sua tese de que a Constituição precisa ser reescrita para reforçar a 9ª e a 10ª Emendas, o que, segundo ele, enfatizaria as liberdades individuais e os poderes dos estados. Mas muito em breve você veria que nada disso leva a nada e que sua suspeita do governo é muito maior que seu amor pela liberdade.

A Constituição talvez precise ser reescrita, mas só para dar ao Executivo o poder de governar o Estado americano moderno e colocar ordem nas finanças do país. Pois em tudo isso ninguém menciona o número elefantino na sala – a dívida americana, estimada pela última vez em US$ 16,699 trilhões.

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