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Se não fomos uma das vítimas, cabe a nós reagir

por Maíra Kubík — publicado 15/11/2015 12h23, última modificação 15/11/2015 13h28
Um dos efeitos macabros do terror é nos fazer pensar que poderíamos ter sido uma de suas vítimas
MIGUEL MEDINA / AFP
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Metralharam o restaurante em que eu comia e o bar onde eu bebia, a poucas quadras de onde eu morava. Naquela rua mesma onde eu ia às vezes ao supermercado, comprava flores, voltava de bicicleta de algum lugar tarde da noite e me sentindo totalmente segura porque estava em Paris, não em Salvador. Esse é um dos efeitos macabros do terror e quiçá sua arma mais poderosa: nos fazer pensar que poderíamos ter sido uma de suas vítimas. 

Talvez esse horror surpreenda menos as populações que estejam em regiões em conflito prolongado, como a da Síria, principal ponto de operação do Estado Islâmico, autor dos atentados na capital francesa. Ou a do Iraque, onde quase semanalmente, desde 2003, um aglomerado de gente vai pelos ares. Ou a palestina, que há décadas vive em campos de refugiados fora de seu território e em áreas cercadas dentro dele.  

Penso que acabamos nos adaptando às situações mais improváveis e inóspitas para sobreviver, como farão os parisienses nos próximos dias. Já não estamos também, todos nós, em um cotidiano intolerável e chocante de violência urbana com o qual, de alguma maneira, continuamos convivendo? Não acumulamos histórias de assaltos, blitz e ações desastrosas da polícia militar? O Brasil tem um índice de 143 mortes por dia. Uma Paris a cada 24 horas, em geral nas periferias, atingindo a população negra. 

E quando parece que o mundo já está ruim demais, duas barragens que serviam para receber rejeitos da mineração se rompem em Mariana, levando vidas de muitas espécies, destruindo um rio e comprometendo todo o oceano Atlântico por décadas – há quem diga séculos. Como se não fosse suficiente, o poder público demora em reagir diante de uma catástrofe cuja responsabilidade recai sobre uma das principais financiadoras de campanhas no país, a Vale.

Como sair desse lamaçal imposto pelo capitalismo imperialista e cuja resposta mais contundente até agora vem de grupos extremistas religiosos, inclusive no Brasil, e é uma não resposta, já que nos afunda ainda mais nele? 

(Não é mero jargão dizer “capitalismo imperialista” se nos lembrarmos do papel do Brasil de exportador de minério, ou seja, de matéria-prima no mercado internacional; ou se recontarmos a história de invasões e saques que as potências, França inclusa, e perpetraram mundo afora).

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Não fossem dois eventos que participei em São Paulo essa semana, eu estaria sem ânimo para começar esse texto. Mas resolvi compartilhar a experiência porque eles me devolveram algum tipo de fagulha no olhar: a marcha que as mulheres fizeram contra o PL 5069, de autoria de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) e que pretende impedir as mulheres vítimas de estupro a terem acesso à contracepção de emergência com a chamada “pílula do dia seguinte”, e as ocupações nas escolas públicas estaduais. 

A mobilização das mulheres, a segunda desse tipo na capital paulista, foi na quinta-feira (12/11). Havia no ar uma energia incrível, que atravessava gerações de feministas. Elas eram muitas e ganharam as ruas da cidade com seus tambores e bandeiras para reivindicar o direito de decidir sobre seus próprios corpos e gritar “fora Cunha”. Já na reta final, a passeata fez uma parada em frente à Secretaria de Educação do Estado de São Paul, na praça da República, para se solidarizar com o movimento estudantil secundarista, que deflagrou as ocupações nos colégios estaduais contra a reformulação do sistema empreendida pelo governo Alckmin. Uma parte das pessoas seguiu de lá para as escolas. 

Passei rapidamente no Fernão Dias, um dos colégios ocupados e que fica na zona Oeste de São Paulo. Na porta de entrada, ao lado da faixa “Fernão resiste, fora Geraldo”, tremulava a bandeira da Palestina. Lá estavam jovens defendendo a educação pública e ainda preocupando-se em serem solidários a um outro povo – assim como as mulheres em mobilização contra Cunha estavam sendo com eles.

No fim das contas, é essa a lição que nos deixam os estudantes e as mulheres e que vai me fazer levantar da cama amanhã: se não fomos até hoje uma das vítimas, cabe a nós reagir.

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