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Resposta à xenofobia

por Gianni Carta publicado 19/09/2008 17h02, última modificação 25/10/2011 13h40
As primeiras expulsões de roma ocorreram em 1926, sob a ditadura de Benito Mussolini

As primeiras expulsões de roma ocorreram em 1926, sob a ditadura de Benito Mussolini

O tema do debate do Conselho Europeu, na terça-feira 16, não poderia ser mais propício: como lidar com a xenofobia contra os roma, vulgarmente chamados de ciganos. Em 2005, a União Européia lançou um projeto de 30 bilhões de euros para integrar os cerca de 12 milhões de roma que vivem na Europa. Mas como diz o bilionário George Soros, fundador do instituto de apoio aos ciganos, o Open Society Institute, os governos europeus agem em relação a essa minoria discriminada com “medidas esporádicas”.

Outro governo faz pior: ventila xenofobia para ganhar popularidade. Trata-se da administração de Silvio Berlusconi, que se porta como o defensor dos italianos – contra os imigrantes e, em particular, contra os ciganos. E o Conselho Europeu deu especial atenção aos direitos dos roma, em Bruxelas, por conta da campanha de ódio e discriminação racial contra essa minoria na Itália.

A imagem do governo Berlusconi é tão ruim na Europa que quando Eugenia Maria Roccella, subsecretária de Estado da Itália, tomou a palavra no encontro, foi vaiada. Integrantes de ONGs abandonaram a conferência. A ministra sueca da Integração, Nyamko Sabuni Sorya Post, condenou a medida das autoridades italianas em tomar impressões digitais dos ciganos, inspirada, disse ela, na “ideologia fascista dos anos 30”. Vale lembrar: as primeiras expulsões de roma ocorreram em 1926, sob a ditadura de Benito Mussolini.

As autoridades dizem que as impressões digitais são necessárias para que se possa recensear a população cigana. Segundo dados pouco confiáveis, há 160 mil roma na Itália, dos quais 70 mil têm a nacionalidade italiana. Pergunta-se: por que as autoridades tiram as impressões digitais de ciganos e não de imigrantes russos, por exemplo?

O preconceito contra esse povo com origens no Rajastão, no subcontinente indiano, região da qual emigraram um milênio atrás, é em parte racial. Há outros motivos: na sua maioria são nômades, há aqueles avessos ao trabalho – e, por tabela, não se integram na sociedade. Por outro lado, se parte dos roma e os sintos (outro grupo) não se adaptam, é porque historicamente são marginalizados.

Sempre foram perseguidos na Europa, onde chegaram por volta do século XV. Em 1721, o imperador alemão Karl VI ordenou seu extermínio. Centenas de milhares foram mortos pelos nazistas em campos de concentração.

O fundo da UE destinado principalmente aos países com grandes populações de roma visa dar melhores condições de saúde, moradia, emprego e educação aos povos ciganos. Milhões de crianças ciganas não são aceitas em escolas européias. Foi o caso de Nikola Cervenakova, hoje com 18 anos. Nascida em Ostrava, ex-Tchecoslováquia, teve de cursar escola para crianças com problemas mentais. No ano passado, a Corte Européia estabeleceu que Nikola é uma jovem sem quaisquer problemas. Ela recebeu uma indenização de 4 mil euros. Contudo, sua mãe alega que o dinheiro não faz jus ao fato de a filha não poder contar ou ler e só poder realizar trabalhos manuais.

No país de Berlusconi, a situação é ainda mais grave. Aliviado porque agora não pegará cana pelos seus crimes (conseguiu passar uma lei de auto-imunidade judiciária), o premier enviou mais de mil soldados para patrulhar as cidades.

Ironicamente, numerosos entrevistados pela tevê se sentem mais seguros com a presença das mulheres e homens fardados. A medida, para esses cidadãos, é justificável: em abril, uma cidadã italiana foi estuprada por um romeno. Em maio, na Nápoles da Camorra, uma cigana teria seqüestrado um bebê.

E assim grupos de vigilantes, comandados por senhores da Camorra, perpetraram atos de inenarrável violência contra campos de ciganos. Instado se essa reação lhe parecia normal, o ministro do Interior, Roberto Maroni, retrucou: “É isso que acontece quando ciganos roubam bebês”.

Nessa Itália assustadora, há histórias verídicas piores que rumores de ciganas que roubam bebês que jamais serão esquecidas. No verão, duas irmãs ciganas, Cristina e Violetta Djeordsevic, de 13 e 11 anos, nascidas na Itália e fichadas com suas impressões digitais, foram vender tartarugas de madeira na praia de Torregaveta, próxima de Nápoles. Resolveram tomar banho de mar e morreram afogadas. Seus corpos, cobertos por toalhas, os pés expostos, ficaram na praia à espera de uma ambulância por três horas. Enquanto isso, o povo continuou a se divertir.

Em dezembro, o Conselho Europeu deverá formular “propostas concretas” para melhorar o futuro dos roma.