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Internacional

Manifestação

Resistência passiva desafia o governo da Turquia

por Gianni Carta publicado 19/06/2013 19h39, última modificação 20/06/2013 14h29
Manifestantes adotam nova forma de protesto: ficar em pé, imóveis, diante do retrato de Ataturk, fundador da República Turca. Por Gianni Carta, de Istambul
Gianni Carta
praça taksim1

Contra Recep Erdogan, manifestantes fazem protesto silencioso e em pé na Praça Taksim, no centro de Istambul, na Turquia

De Istambul

Praça Taksim, centro de Istambul, quarta-feira 19, 16h. É difícil fazer com que os chamados “homens de pé”, ou “pessoas de pé”, se exprimam.

Eles e elas aderiram, após três semanas de confrontos entre as forças policiais e manifestantes, a uma nova forma de manifestar: ficam de pé, imóveis, não se comunicam. Os olhares fixam o Centro Cultural Ataturk, onde jaz um conspícuo retrato do fundador da República Turca, em 1923: a de Mustafa Kemal Ataturk.

Trata-se de uma forma de resistência passiva, iniciada anteontem pelo coreógrafo Erdem Gunduz.

Através das redes sociais, a nova onda se esparramou país afora.

Um senhor de cabelos brancos, na Praça Taskim, me diz: “Não quero falar. Faço isso em honra do ‘homem de pé’”.

Outro, este com um violão, olhar fixo na imagem de Ataturk, aceita, com um aceno da cabeça, ser fotografado. Mas não quer falar.

E uma moça a ler de pé explica: “Estou lendo”.

O motivo pelo qual esses cidadãos protestam são claros.

O premier Recep Erdogan, há dez anos no poder, e líder do Partido de Justiça e Desenvolvimento (AKP), sigla de centro-direita com raízes islâmicas, “tornou-se um déspota nos últimos anos”, me disseram na noite de terça-feira um grupo de manifestantes.

Todos concordaram que nunca houve uma democracia plena na Turquia desde sua fundação, em 1923. Houve, afinal, quatro golpes militares desde os anos 1920.

“Mas houve liberdade”, diz um dos presentes.

Erdogan, apesar de ser um muçulmano conservador, parecia respeitar as regras de governos seculares estabelecidas por Ataturk. Nos últimos anos, contudo, o atual primeiro-ministro Erdogan parece ter tomado outro caminho.

Durante as últimas três semanas, grupos de manifestantes se expuseram a canhões d’água e gás lacrimogêneo. Berrak e Simla, duas jovens, estão na vanguarda desse movimento.

O motivo?

Simla: “Sempre soubemos que Erdogan tinha uma agenda islamita, mas agora está claro”.

Álcool não pode ser vendido entre as 22 horas e 6 da manhã. O beijo público está vetado, assim como as pílulas de aborto. O governo recomenda a cada casal ter no mínimo três filhos – e, nesta semana, Erdogan retificou o tiro: melhor ter cinco filhos. Mais: protestos são proibidos, mesmo que a Constituição os permita.

A mídia é controlada.

Por tabela, a base religiosa conservadora a apoiar Erdogan, tem acesso somente à mídia turca, e, assim, não sabe o que realmente acontece no país.

Os protestos pacíficos das últimas três semanas que levaram a polícia a atuar com inaudita brutalidade esmoreceram.

Houve, na quarta-feira, esparsos protestos país afora, mas nada similares aos violentos confrontos ocorridos nas últimas três semanas na Praça Taksim.

Eis o balanço: cinco mortos, centenas de feridos e milhares de presos e torturados.

“Fizemos o que pudemos. Temos de voltar à democracia”, observa Simla. “No entanto, agora sabemos o poder que temos. Erdogan pode latir, mas cão que ladra não morde. E poderemos voltar a agir quando for necessário.”

Berrak parece pronta a voltar a agir.

Ela sofre de asma, mas diz estar alerta para novos eventos. Na noite de sábado 15, apenas duas horas após o discurso de Erdogan, que parecia conciliatório com a oposição, a polícia atacou brutalmente a Praça Taksim.

Berrak teve um ataque de asma durante cinco minutos, mesmo com máscara. Pensou que fosse morrer. “Mas eu era outra pessoa, sentia que tinha uma missão.” E acrescenta: “E como não lutar contra um premier que nos chama de terroristas e lança gás lacrimogêneo de helicópteros?”

Finalmente, na Praça Taksim, encontro um casal de “silenciosos” a honrar “o homem de pé”, disposto a conceder uma entrevista.

Diz Menderes, diretor de uma loja, de 26 anos: “Estou aqui porque quero liberdade”. Sua companheira, Guliz, de 23 anos, trabalha na área de telemarketing. Ela diz: “Sou muçulmana praticante, mas acho que Erdogan está islamizando esse país”.

Indagado se eles não têm medo, visto que na terça-feira 18, 71 “pessoas de pé” na Praça Taksim foram presas por uma noite, o casal retruca em uníssono. “Não. E você não tem medo de nos entrevistar?”

Guliz diz se sentir mal por não ter podido participar das manifestações em Istambul. Ela não estava na cidade, “e por isso me senti frustrada”.

Por sua vez, Menderes, participou. Teve problemas de saúde, mas agora adotou esse novo método, “silencioso”, de manifestação.

Guliz e Menderes, como vários turcos, acreditam que têm de se exprimir para mudar o futuro “autocrático” da Turquia.

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