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Refugiados vivem no limbo no norte da França

por Deutsche Welle publicado 21/06/2015 03h05, última modificação 21/06/2015 08h52
Num acampamento na cidade portuária de Calais, migrantes vindos de países como Síria e Sudão sonham em atravessar o Canal da Mancha rumo ao Reino Unido
Philippe Huguen / AFP
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Quartas e quintas costumam ser dias de engarrafamento em Calais, no norte da França, com muitos caminhões parados nas vias de acesso às balsas. Lá embaixo, na "selva", como os moradores chamam o acampamento numa área de dunas logo abaixo da estrada, os primeiros saem correndo. Younis corre encosta acima, junto com uma centena de outros, que se dividem em pequenos grupos. Younis entra num caminhão polonês e logo sai de novo. "Não tem nada, só geladeiras", grita. Entre as grandes caixas, é difícil se esconder. Segundo o jovem, há 80% de chance de escapar. A maioria consegue fugir à noite, quando o escuro torna tudo mais fácil, diz.

''Por todos os lados, refugiados tentam abrir as portas e se esconder entre a carga. Eles têm que ser rápidos, porque em poucos minutos chegam os carros da polícia. Eles seguem pelo acostamento até o começo do engarrafamento, os policiais saltam dos veículos segurando cassetetes.

Quem já está dentro de um caminhão, com as portas fechadas, está relativamente em segurança, pois inspecionar todos os caminhões levaria muito tempo. Mais para trás, a polícia arrasta um punhado de sudaneses para fora de um veículo lituano. Younis já está correndo de volta para o acampamento, e o compatriota Tahir corre atrás dele.

"A polícia é violenta, nos impede de entrar nos caminhões", diz Younis, que já tentou entrar num caminhão 30 vezes. "Eles usam spray de gás lacrimogêneo, e muitos são feridos por cassetetes. Isso não é humano, a Europa devia ser humana."

Rota pela Líbia

Vista aérea da região de Calais, norte da França, onde refugiados acampam

Younis, de 26 anos, vem do norte do Sudão e pertence à tribo dos núbios, que são discriminados e perseguidos há décadas pelos governantes na capital, Cartum. Ele é professor, mas tem que ganhar a vida com outros bicos. Ele e seu amigo Khalid se conheceram na fuga do Sudão para a Líbia. Khalid também era professor e é chamado pelos moradores da "selva", respeitosamente, de "professor", porque fala inglês e é um dos mais velhos do lugar.

Os dois foram levados à Líbia por traficantes de pessoas, na caçamba de caminhões, através do deserto do Sudão. Havia muito pouca água, quem protestasse era espancado, houve mortes. Por fim, chegaram a um acampamento, e só os que ainda tinham algum dinheiro conseguiram sair.

Eles viveram, então, um ano e meio como trabalhadores ilegais na Líbia. Mas Khalid conta que a situação tem se agravado recentemente. Há armas em todos os lugares. "As pessoas são assaltadas e roubadas na rua", diz. Ele próprio foi espancado por um empregador, e Younis foi preso pela polícia. Era hora de seguir adiante na fuga.

De pesqueiro rumo à Itália

Na cidade portuária de Suara, Younis pagou 2 mil euros para um traficante e foi despachado à noite num barco de pesca, junto com cerca de 350 outras pessoas. Depois de algumas horas, o barco ainda circulava perto da costa da Líbia. O timoneiro era um rapaz de 18 anos, que nunca tinha conduzido um barco. No final, o traficante os contatou por celular e veio logo depois, a bordo de uma lancha, com a qual rebocou o pequeno barco rumo a águas internacionais. Isso porque, "se os refugiados se afogassem, seria ruim para a reputação dele", conta Younis.

Finalmente, o grupo foi capaz de fazer uma chamada de emergência. Autoridades italianas os resgataram e os levaram para a Sicília, como já ocorreu com outros 50 mil migrantes neste ano. Alguns dias mais tarde, as autoridades colocaram Younis num ônibus em direção a Milão. De trem, ele finalmente chegou a Calais, escondendo-se no banheiro. Todo o caminho através da Europa durou apenas 12 dias.

Vida difícil na "selva"

"Só quero encontrar um lugar para viver. Quero trazer minha família de qualquer jeito. Sinto muitas saudades! Quero comprar uma bicicleta para meu filho, abraçar minha filha e minha esposa", diz Younis. Ele suportou a fuga através do Saara, sobreviveu à viagem pelo Mediterrâneo e teve muita sorte por não ter se afogado. "Mas a maior sorte seria me reunir com a minha família. Só não sei como as coisas vão correr aqui em Calais."

Todas as tardes, ele enfrenta no acampamento uma longa fila de distribuição de alimentos. Esse é um ritual diário para cerca de 3 mil refugiados na "selva". O governo francês paga a comida, e uma ONG cuida da cozinha. O lugar também abriga 50 mulheres e crianças, que são os únicos a terem um teto fixo sobre a cabeça. Depois da refeição, os homens têm que retornar à cidade improvisada, com barracos de madeira, abrigos feitos com lonas plásticas e barracas de acampamento.

Organizações de ajuda humanitária disponibilizam os materiais, mas cada um tem que construir seu próprio refúgio. Lixo se acumula entre os barracos. "Viemos do inferno do mundo árabe para a sujeira da Europa", diz Younis.

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Aqui também há hierarquia. Os afegãos, endurecidos pela guerra, são os governantes silenciosos do acampamento. Eles também administram algumas vendas, onde os refugiados podem comprar sopas instantâneas, peixe em conserva e refrigerantes. Vez ou outra, acontecem brigas entre eles, sudaneses e eritreus. Duas semanas atrás, barracas foram incendiadas durante a noite, e a polícia foi chamada.

O local reúne diferentes nacionalidades, mas os sírios construíram suas tendas num lugar mais afastado. Eles querem ir o mais rápido possível para Londres, onde a maioria tem parentes. Quando perguntado sobre sua história, um jovem sírio não consegue segurar as lágrimas. "Venho de Aleppo, Aleppo não existe mais."

Poucos dias depois da 30ª tentativa de entrar num caminhão e atravessar o Canal da Mancha, Younis tem um novo plano. O amigo Khalid foi o primeiro a entrar com pedido de asilo junto às autoridades francesas, recebendo um lugar num abrigo numa pequena cidade francesa, o que significa que ele pode deixar a "selva".

Em maio deste ano, o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, aconselhou os refugiados a pedirem asilo na França ao invés de tentarem o caminho incerto até o Reino Unido, onde as chances são ruins mesmo para os refugiados da guerra na Síria.

A resposta do governo britânico para a crise de refugiados na Europa é "não aceitamos mais ninguém". Para milhares que arriscam a travessia passando por Calais, isso significa uma vida na ilegalidade ou a detenção à espera da deportação. Younis também decidiu pedir asilo na França. E prefere nem pensar na hipótese de o plano não dar certo.

Deutsche Welle