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Internacional

Análise

Reeleito, Evo Morales tem grandes desafios à frente

por André Takahashi — publicado 19/10/2014 09h52
O presidente da Bolívia amplia sua base de apoio, mas vê a margem de votos cair em alguns de seus principais redutos eleitorais
Aizar Raldes / AFP
Garcia Linera e Evo Morales

Evo Morales, ao lado de Alvaro Garcia Linera, seu vice-presidente, durante a inauguração da usina de separação e liquefação de gás Gran Chaco, na cidade de Yacuiba, em 16 de outubro

De La Paz

As eleições bolivianas tiveram poucas surpresas e os resultados oficiais comprovaram a tendência das pesquisas. Evo Morales foi reeleito no primeiro turno, vencendo em 8 dos 9 departamentos bolivianos, incluindo Santa Cruz, antigo pólo opositor e região fortemente ruralista. O MAS, partido de Evo, conseguiu uma votação de 60,89% nas eleições gerais, segundo a contagem do Tribunal Supremo Eleitoral com 95,49% das atas computadas. Em segundo lugar vem a União Democrática, com 24,49%. O Partido Democrata Cristão vem em terceiro, conseguindo 9,13% do eleitorado. Já o Movimento Sem Medo e o Partido Verde da Bolívia ficaram abaixo dos 3%, com 2,77% e 2,73%, respectivamente. Os bolivianos que votaram no exterior deram uma votação expressiva ao MAS com 72,22%, em segundo a UD com 15,45% e em terceiro o PDC com 8,18%.

A vitória incontestável chamou atenção a um fenômeno político que tem sido classificado como “fim da polarização”. Uma dupla polarização, na realidade, sendo uma racial, entre as maiorias indígenas que queriam o processo de mudanças e a elite boliviana que temia os efeitos dessas mudanças; e outra territorial, entre departamentos do ocidente (masista) e departamentos do oriente (opositor), a chamada “meia lua”. Os nove anos de governo de Evo Morales diminuíram o medo das classes médias haja visto que – até o momento – ele não realizou nenhuma ruptura radical com o sistema capitalista. Todas as grandes ações do governo, como a nacionalização dos recursos naturais, os programas sociais e sua politica exterior anti-imperialista, foram benéficas para a maioria pobre da população e para a classe média que cresceu nestes nove anos. É um governo antineoliberal mas pouco anticapitalista.

O MAS obteve um grande êxito econômico graças às exportações de gás, soja e minerais, e foi bem hábil para impedir que o aumento do mercado interno gerasse inflação. O país está tomado por obras de infraestrutura básicas e obras de impacto, seja no ocidente ou no oriente. Além dos sucessos econômicos reconhecidos por FMI e Banco Mundial (cujas recomendações a Bolívia do MAS nunca seguiu) Evo transformou sua maioria eleitoral em hegemonia politica, ampliando sua base social e mantendo a fidelidade do seu núcleo duro, os movimentos sociais. Além disso, o novo cenário alterou a pauta tradicional das eleições. Se em 2005 e 2009 os temas centrais eram a descolonização do estado e o ascenso das maiorias indígenas ao poder, com uma polarização classista, racial e territorial, em 2014 os temas foram centrados em propostas econômicas e projetos de país mais pragmáticos.

Para além do êxito é necessário analisar os dados da justiça eleitoral que estão vindo à tona. O que chama mais atenção é a redução da vantagem eleitoral do MAS em redutos tradicionais, como o Altiplano e Cochabamba. É evidente que o feito do MAS nessas eleições é notável: a reeleição com uma porcentagem ao redor de 60% de um governo que está há nove anos no poder, com índices de aprovação maiores que 70%, é inédito na Bolívia e na América Latina.

Mesmo assim, a redução da vantagem eleitoral nos seus redutos pode ser interpretada como um sinal de alerta para o governo.  Até o momento, na região altiplânica, a vantagem do MAS caiu consideravelmente em relação aos dados de 2009:  menos 11,46% em La Paz, menos 8,81% em Potosi, menos 13,62% em Oruro e uma leve queda de 2,94% em Cochabamba, o berço do MAS. Essa variação negativa pode ter diversos motivos.

Para Edgar Ramos, jornalista investigativo e simpatizante do MAS, o crescimento de pessoas de classe média na burocracia do governo – em detrimento dos indígenas – contribuiu para a diminuição dos votos no ocidente. Para Ramos “..nessa zona do ocidente o governo se deixou cooptar por grupos de classe média, de técnicos de classe média, que excluem grupos de indígenas que têm formação e também podem ser administradores do estado". Ramos prossegue com sua análise: “Evidente que o presidente ganhou em La Paz, Cochabamba, Potosi e Oruro, mas não ganhou com a contundência que deveria ter ganhado. A contundência foi menor por essa crítica, creio eu, da sociedade e dos grupos indígenas, que dizem: sim eu apoio esse processo, mas falta algo mais. Para mim falta uma maior participação qualitativa dos grupos de indígenas nos níveis de decisão.”

Katu Arkonada, intelectual basco que vive há cinco anos na Bolívia, afirma que é necessário analisar bem os motivos dessa queda para pensar o próximo período. Arkonada acredita que a vinda de antigos direitistas para o MAS tem algum impacto no crescimento no oriente, mas também na queda no ocidente. Porém, não consegue avaliar qual a dimensão desse impacto. Segundo ele, “é certo que o MAS ganhar em oito de nove departamentos, exceto em Beni, é importante porque se conseguiu quebrar a “meia lua”, mas não parece que com essa estratégia [de recrutar ex-direitistas] se quebrou a porcentagem tradicional de votos da direita”, diz. Historicamente, a direita tem porcentagens que se situam entre 30% e 35%. Nessas eleições os resultados indicam que a direita vai estar entre 33% ou 35%, que seria a soma de votos de Samuel Doria Medina (União Democrática) e Jorge Quiroga (Partido Democrata Cristão).

A senadora masista Nelida Sinfuentes acredita em dois motivos para a queda eleitoral no ocidente: a escolha não consensual de alguns candidatos e uma acomodação da militância achando que o ocidente já estava ganho. “Escolhemos nossos candidatos consensualmente, mas, em alguns casos, é preciso ser honesta, a escolha não foi consensual. E aí, em algumas circunscrições, nós perdemos e a direita ganhou. Nossos candidatos do ocidente também estavam muito confiantes em comparação com 2009 e fizeram muito pouca campanha. Aqui no ocidente a campanha ocorreu com muita tranquilidade, com muita confiança. Já no oriente nós colocamos toda força para fazer a campanha. Na politica não se pode ter confiança, tem que trabalhar até o último minuto que você tem” disse Nelida.

Javier Fernandez, ex-presidente da Federación de Juntas Vecinales de El Alto (FEJUVE El Alto), organização que foi vanguarda na rebelião popular de 2003 conhecida como Guerra do Gás, também responsabiliza a queda de votos a um protesto da base contra a imposição de alguns candidatos, não respeitando o tradicional consenso na indicação dos mesmos. “Essa diminuição ocorreu por não se respeitar a decisão popular. Para a eleição dos representantes de deputados e senadores não houve um consenso massivo nas diferentes circunscrições e diferentes organizações sociais", afirma. "Isso foi uma determinação que veio dos dirigentes que indicaram tal e tal pessoa, e essas pessoas nunca tiveram participação em seus distritos. Isso gerou um desconforto em algumas circunscrições, já que a maioria não consensuou quais pessoas seriam candidatas da sua circunscrição” diz Fernandez.

Para Katu Arkonada o próximo período será marcado por dois desafios: administrar a hegemonia conquistada e cumprir as metas da Agenda Patriótica 2025, que inclui a erradicação da miséria. “Não há nenhuma dúvida de que o processo conseguiu construir uma hegemonia. Porém, essa hegemonia está se construindo a partir da ampliação dos limites, da incorporação de outros setores. Isso é o que o vice-presidente chama de “tensão criativa do processo”. Como ampliar sua base social, incluir outros setores, mas sem que seu núcleo duro te abandone? Como vai ser administrar a política crucenha (de Santa Cruz) por exemplo, com tantos interesses que às vezes vão ser contrapostos ao processo de transformação? É um desafio muito grande.”

Arkonada lembra que dentro do desafio de administrar a hegemonia está a inclusão da juventude ao processo, haja visto que em 2019, ano das próximas eleições, votará uma juventude que nunca conheceu outro governo que não o MAS: “Uma nova direita que se recicla, novas classes médias com outras aspirações, uma juventude que não se lembra ou não conheceu o neoliberalismo.  Esses são os principais desafios como projeto político.” Segundo ele, o alerta vem da Venezuela e do Brasil, países onde a classe média e parte da juventude que sai as ruas é disputada pela “direita reciclada”, como Marina Silva ou Henrique Capriles, e que nunca conheceu outro governo que não os de turno.

O segundo desafio, o cumprimento da Agenda Patriótica 2025, tem 13 pilares, sendo o principal a erradicação da pobreza extrema. “Nenhum processo pode sobreviver se não resolve as condições materiais das pessoas. Podemos colocar todos os horizontes, falar de socialismo e “Madre Tierra”, podemos falar de muitas coisas; mas se não resolver as condições materiais de sobrevivência a população vai perder sua confiança, você vai sair do governo e não poderá fazer nada” conclui Arkonada.