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Oriente Médio

Ramadi revela a dificuldade de combater o Estado Islâmico

por José Antonio Lima publicado 22/05/2015 02h42
Contra os jihadistas, Iraque precisa recorrer a milícias xiitas, cujas ações reforçam a alienação sunita na qual está baseada a existência do ISIS
Haidar Mohammed Ali / AFP
Miliciano xiita no Iraque

Paramilitar da milícia xiita Liga dos Justos faz a guarda do quartel-general do grupo, em Basra, no sul do Iraque, em 18 de maio. Muitos sunitas temem as milícias tanto quanto o ISIS

No domingo 17, após meses de pressão, o autoproclamado Estado Islâmico tomou a cidade iraquiana de Ramadi. A conquista, parte de uma tentativa de dominar todo o oeste do Iraque, demonstra a força do grupo e ajuda a entender parte dos graves problemas da estratégia usada para combater os extremistas. Intrinsecamente contraditória, a luta, da qual fazem parte Iraque, Estados Unidos e Irã, tende a reforçar as raízes da existência do Estado Islâmico.

O ISIS, como também é conhecida a facção jihadista, vinha tentando conquistar Ramadi desde janeiro de 2014. No início deste ano, a cidade se tornou uma das prioridades estratégicas do grupo e, nos últimos dias, era alvo de uma intensa ofensiva. Por meio de ataques diversionários no início do mês, o ISIS buscou fixar as defesas das cidades de Haditha, Hit e Al-Baghdadi e da base aérea Al-Asad, impedindo o envio de reforços para Ramadi. Na ofensiva final, iniciada em 15 de maio, usou 28 carros-bomba dirigidos por suicidas e aproveitou uma tempestade de areia para agir sem a sombra dos bombardeiros norte-americanos que protegiam as tropas iraquianas.

Ramadi é estratégica para o ISIS por diversos motivos. Sua conquista ajuda a romper a formação de uma frente de ataque iraquiana e pode servir de base para a tomada de outros alvos importantes, como Haditha e a base Al-Asad. Além disso, Ramadi é a capital da província de Anbar, que concentra a população sunita do Iraque. Sunita como o ISIS, que usará a cidade para ampliar sua arrecadação por meio de imposto e extorsões (de cerca de 1 milhão de dólares por dia), mas também para obter novos recrutas.

Desde a tomada de Ramadi, mais de 25 mil pessoas já fugiram da cidade, temendo as execuções sumárias e destruição que se tornaram marcas do Estado Islâmico. Por falta de alternativas, muitos outros ficam, e alguns, à força ou voluntariamente, se tornarão soldados do ISIS. Como outras cidades sunitas controladas pelo Estado Islâmico, Ramadi vive agora um drama complexo. Hostilizados e acuados desde a derrubada de Saddam Hussein, os sunitas iraquianos se encontram entre a cruz e a espada: de um lado estão os jihadistas e, de outro, o governo iraquiano, dominado por xiitas e responsável por inúmeros abusos contra a comunidade sunita ao longo dos últimos anos, como prisões em massa e acusações forjadas de terrorismo.

Para retomar Ramadi, seria necessário um rápido contra-ataque, mas não há forças sunitas capazes de fazer isso. O exército iraquiano está destroçado e as tribos da província de Anbar reclamam da falta de armamentos, que em geral não chegam a elas porque algumas se aliaram a jihadistas no passado. Hoje, a arremetida contra Ramadi só poderia ser realizada pelas milícias paramilitares xiitas. Reorganizadas após a emergência do ISIS, elas somam hoje cerca de 120 mil soldados, mais que exército iraquiano. Algumas respondem ao governo do primeiro-ministro Haider al-Abadi, xiita que promete reconciliar as duas comunidades, mas outras recebem armas, financiamento e treinamento do Irã, vizinho xiita do Iraque. Durante a recente guerra civil iraquiana (2005-2008), essas milícias foram responsáveis por sequestros, torturas e assassinatos de sunitas. Na atual campanha contra o ISIS, novos casos de atrocidades têm sido registrados.

Criança iraquiana
Garoto iraquiano carrega galão de água em campo de refugiados internos montado em Bzeibez, ao sul de Bagdá, em 18 de maio: sunitas civis vivem dilema entre duas forças responsáveis por atrocidades

Ao menos três mil milicianos já se deslocaram para as cercanias de Ramadi para iniciar o contragolpe. Seu objetivo é impedir que o ISIS utilize a cidade como plataforma para atacar Bagdá (que fica a apenas 110 quilômetros) ou localidades sagradas para os xiitas, como Najaf e Karbala. Ciente da influência iraniana, os EUA prometem seguir ajudando os paramilitares xiitas, desde que eles continuem a responder ao governo Abadi. O sucesso das milícias, entretanto, dilui o poder político de Abadi, uma vez que os líderes desses grupos têm ganhando papeis cada vez mais proeminentes no Iraque. Enfraquecido, Abadi enfrenta dificuldades para demonstrar que seu governo tem vontade e é capaz de proteger todos os iraquianos, sejam eles xiitas ou sunitas.

Provar o caráter inclusivo da administração seria essencial para incorporar os sunitas ao exército do Iraque, criando garantias de segurança para essa comunidade. Se isso não ocorrer, a alienação sunita vai persistir e, com ela, o terreno fértil de onde o Estado Islâmico tira seus recrutas e sua justificativa para existir.