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Mundo árabe

Quem ganha a Líbia?

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 30/08/2011 10h00, última modificação 30/08/2011 16h45
As velhas potências vencem a primeira batalha da nova Guerra Fria com os BRICS. Mas o pior, como no Afeganistão, ainda pode estar por vir

Repete-se há seis meses que “a queda de Kaddafi é iminente”, mas com grande parte de Trípoli nas mãos dos revoltosos, inclusive o complexo do governo e a principal base militar nas vizinhanças da cidade, em Zuara, pode-se finalmente acreditar nessa frase sem correr o sério risco de superestimar a competência dos rebeldes.

Risco que continua alto. Na noite de 22 de agosto, todas as mídias anunciaram a captura de Saif al-Islam, filho e principal porta-voz de Muammar Kaddafi, supostamente confirmada pelo Tribunal Penal Internacional, mas ele apareceu em um hotel cheio de jornalistas, dirigindo seu próprio carro, para assegurar que controlava a cidade e “escorraçaria as ratazanas”. Muhammad, o filho mais velho também “capturado”, escapou à prisão, segundo os rebeldes. Cidades como Sirte, no litoral, e Sabha, no Fezã, continuam fiéis a Kaddafi e podem continuar a luta por mais alguns dias. É incerto se seu líder se deixará capturar. Vale lembrar que “Kaddafi foge para a Venezuela” (ou algum outro país) é outra das “barrigas” mais repetidas dos últimos meses.

Em todo caso, o regime que dominou a Líbia por 42 anos foi derrotado. Menos pela Primavera Árabe, neste caso pouco mais que pretexto, do que pela intervenção direta dos EUA e seus aliados, sob a folha de figueira do mandato da ONU para “proteger os civis” por meio de uma zona de exclusão aérea. Foram decisivos o fornecimento de armas (proibido pela resolução da ONU, que determinou embargo para ambas as partes), os ataques diretos dos navios, aviões e helicópteros da Otan às tropas e instalações civis e militares de Kaddafi (redobrados durante a ofensiva a Zawiya e Trípoli).

E também a participação discreta, em terra, de conselheiros e instrutores militares da SAS (Special Air Service, força especial do exército britânico) e de espiões- do MI-6 no planejamento das ofensivas militares, bem como de forças especiais da França, Catar e Jordânia, como anotou o jornal britânico Guardian. Mercenários britânicos, franceses, árabes e da Europa Oriental, recrutados com ajuda da CIA, do serviço secreto britânico e de companhias ocidentais de “segurança” engrossaram o inexperiente, indisciplinado e escasso contingente revoltoso. Sem tudo isso, a rebelião, ao que tudo indica, teria sido destroçada há meses.

Mas quem venceu? “Os rebeldes” é uma resposta que, além de ingênua, não quer dizer muita coisa. A oposição a Kaddafi é um saco de gatos que inclui monarquistas pró-ocidentais do antigo regime, militantes da Irmandade Muçulmana e ex-combatentes da Al-Qaeda (como reconheceram comandantes da Otan), socialistas e empresários, além de muitas figuras importantes do regime teoricamente deposto. E, ao mesmo tempo, não inclui todas as regiões e grupos tribais da Líbia. Os conflitos internos foram brutais mesmo durante a luta, como mostrou o assassinato do ex-ministro do Interior de Kaddafi e comandante militar rebelde Abdul Fatah Younis, em 28 de julho, supostamente por rebeldes islamitas. Deixados a si mesmos, os rebeldes estariam prontos para outra rodada de guerra civil.

Nos primeiros dias da ocupação de Trípoli, o principal porta-voz do governo provisório rebelde, como notou Jonathan Rugman da revista Foreign Affairs, foi o secretário britânico do Desenvolvimento Internacional, Andrew Mitchell. A vitória, por enquanto, pertence aos norte-americanos e europeus, que tentarão colher os louros na forma de petróleo. Os rebeldes deram várias indicações de que os premiarão com contratos e concessões e punirão as empresas de países que se recusaram a apoiá-los e romper com Trípoli, inclusive o Brasil. Abdeljalil Mayouf, diretor de informação da petroleira líbia Arabian Gulf Oil Company (Agoco), sob controle rebelde, foi explícito: “Não temos problemas com países ocidentais, como as companhias italianas, francesas e britânicas. Mas podemos ter algumas questões políticas com Rússia, China e Brasil”.

Talvez não interesse nem mesmo às potências ocidentais abrir um precedente de ruptura de contratos com empresas privadas. Nicolas Sarkozy convidou “nossos amigos chineses, russos, brasileiros e indianos” (além dos 22 países do Grupo de Contato formado pela Otan, Japão e alguns países árabes) para a conferência sobre reconstrução da Líbia, que deverá ocorrer em 1º de setembro em Paris. Segundo o jornal Valor Econômico, o presidente do Conselho Nacional de Transição dos rebeldes líbios (e ex-ministro da Justiça de Kaddafi), Mustafa Abdel Jalil, garantiu ao embaixador brasileiro que os contratos com empresas brasileiras (Odebrecht, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e Petrobras, principalmente), no valor total de 5 bilhões de dólares, serão cumpridos. Pode ser que outros gatos do saco pensem diferentemente. Ninguém sabe qual a composição final do novo governo e, se houver eleições livres, como prometido, ninguém hoje é capaz de adivinhar o resultado. Mas não se aposte em novos grandes negócios com países de fora da Otan.

Não que esses países já não estivessem lá bem instalados, desde a reconciliação do regime de Kaddafi com as potências ocidentais nos anos 1990. Empresas petrolíferas europeias como a italiana Eni, a francesa Total, a austríaca OMV e a britânica British Petroleum operavam na Líbia. Eram notórios os laços do país- com o Reino Unido, que iam muito além da amizade de Saif al-Islam com Anthony Giddens e Tony Blair e seu patrocínio à London School of Economics. Os EUA também não perdiam a oportunidade de fazer negócios: em agosto de 2009, uma delegação de senadores dos EUA liderada pelo ex-candidato republicano John McCain (com os correligionários Lindsay Graham e Susan Collins, além do independente Joseph Lieberman) visitou Kaddafi para oferecer equipamentos militares “não letais”, e assessorias dos EUA planejavam com o regime a privatização do sistema bancário.

Por outro lado, conforme revelou mensagem de novembro de 2007 da embaixada estadunidense em Trípoli, vazada pelo WikiLeaks, as petroleiras reclamavam que a Líbia era “um lugar difícil para operar”, devido à burocracia, aos impostos altos e à disposição de Kaddafi de jogar uma empresa contra outra para extrair o máximo de lucros para o país (ainda que uma parte fosse para os bolsos da família). Agora a concorrência ficará menor e esses problemas provavelmente deixarão de incomodá-las. Claro que podem surgir outros, como descobriram as petroleiras anglo-americanas no Iraque.

No primeiro momento, ao menos, a queda de Trípoli também proporcionará uma bem-vinda lufada de oxigênio político a governos ocidentais assediados por crises econômicas, inquietação social, eleições iminentes ou tudo isso junto, como certamente esperavam Barack- Obama, Nicolas Sarkozy e David Cameron ao dar início à intervenção. Mas o investimento saiu muito mais caro e demorado que o orçado, e o retorno, nesse aspecto, será provavelmente tão efêmero quanto aquele da execução de Osama bin Laden, muito mais simples.

Mas, se o aspecto político-eleitoral tem relativamente pouco peso, o geopolítico-estratégico pode ser ainda mais importante do que o econômico-petrolífero. -Assim como as invasões do Afeganistão e Iraque foram tentativas de isolar o Irã e garantir bases permanentes dos EUA na Ásia -Central e no Golfo Pérsico, a Líbia deverá servir para consolidar o Africom, o novo comando das forças do Pentágono- na África (exceto Egito, que continuou sob a “jurisdição” do Centcom), anuciado em 2007 e ativado em outubro de 2008 (com sede, por enquanto, em Stuttgart, na Alemanha). Também servirá à Europa, em tese, para controlar o fluxo de imigrantes provenientes da África.

Autoritarismo (pior que o de Kaddafi) à parte – e mesmo tendo servido, na guerra Irã-Iraque, aos interesses dos EUA –, Saddam Hussein foi, em seus melhores tempos, uma referência do nacionalismo árabe laico e do anti-imperialismo no Oriente Médio. Kaddafi teve um papel semelhante na África e foi um dos criadores da União Africana, que por sua vez serviu de modelo para a Unasul sul-americana. Como em Bagdá, a mudança de regime em Trípoli visa substituir uma relação ambígua e desconfortável por uma segura plataforma de operações contra possíveis novos incômodos e de vigilância dos recursos africanos disputados com os BRICS, inclusive o integrante mais fraco do grupo, a África do Sul.

Não é à toa que o venezuelano Hugo Chávez e seu aliado nicaraguense Daniel Ortega foram os críticos mais duros da intervenção e continuaram a se declarar amigos de Kaddafi até o fim. A postura da Venezuela na América do Sul é análoga, em muitos aspectos, à que era a da Líbia na África (e a do Brasil, até certo ponto, à da África do Sul). Se, no fim das contas, a mudança de regime em Trípoli se mostrar proveitosa do ponto de vista -ocidental, os EUA podem se sentir tentados a repetir a experiência em Caracas.

Assim, uma leitura possível é que as velhas potências do Atlântico Norte tenham vencido a primeira batalha de uma nova Guerra Fria, que as opõe aos BRICS. Se consolidarão essa vitória, só o tempo dirá: Kabul e Bagdá mostraram que uma invasão bem-sucedida pode ser apenas o começo de uma longa dor de cabeça. As mineradoras que esperavam grandes lucros do Afeganistão e as petroleiras que sonhavam torná-lo um caminho alternativo para os oleodutos da Ásia Central já devem ter tirado seus cavalinhos da chuva, e as empreiteiras e petroleiras anglo-americanas que esperavam ver o Iraque transformado em paraíso neoliberal enfrentam hoje o inferno do terrorismo, do fundamentalismo e dos conflitos étnicos e sectários, ao lado de um governo precário e dominado por xiitas simpáticos ao Irã.

Os EUA parecem dispostos a tentar aproveitar algumas das lições aprendidas a duras penas. Por exemplo, provavelmente- tentarão preservar a máquina governamental líbia e buscar acordos e compromissos com ex-partidários e ex-funcionários de Kaddafi, em vez da perseguição implacável que promoveram ao Taleban e ao Partido Baath, a ponto de tornar o Afeganistão e o Iraque ingovernáveis e a pacificação impossível. Mas não depende só de Obama – por um lado, seu governo tem de lidar com uma oposição líbia arrogante e sedenta de vingança e com sua própria oposição republicana, idem.

E quanto à Primavera Árabe? Apesar de algumas análises triunfalistas, é pouco provável que os acontecimentos de Trípoli façam diferença. Mesmo que deles surja algo que se possa chamar de democracia, não servem de modelo. Uma intervenção da Otan nos mesmos termos certamente não acontecerá no Iêmen ou no repressivo Bahrein, cujos regimes, embora mais impopulares que o de Kaddafi, são aliados dos EUA. E é muito improvável que aconteça na Síria, onde os interesses petrolíferos são menores, a população é bem maior e a oposição, ao que tudo indica, não é tida como tão confiável por Washington e Tel-Aviv. Se houver um caminho para a mudança nesses países, seus povos terão de encontrá-lo sem o apoio interessado do Ocidente, talvez contra ele.

A queda de Kaddafi pode, porém, ter efeitos nos vizinhos Tunísia e Egito. Em tese, um regime pró-ocidental em Trípoli, com bases da Otan, deveria desencorajar governos antiocidentais nesses países, ao mesmo tempo que a reconstrução pode oferecer empregos a seus trabalhadores e aliviar a crise econômica e a tensão social crescentes, à medida que sobem os preços dos alimentos. Mas um quadro caótico como o do Iraque e do Afeganistão pode abrir oportunidades a movimentos armados radicais em Túnis e no Cairo, ou ao menos a governos eleitos mais hostis ao Ocidente.

O mundo árabe continua em um estado fluido, no qual mesmo imprevistos de menor porte podem ter desdobramentos imprevisíveis e incontroláveis. E imprevistos não faltarão, como mostram os últimos incidentes em Gaza e na fronteira entre Israel e Egito, às vésperas da ofensiva diplomática palestina para obter reconhecimento de seu Estado pela ONU. Os ataques em Eilat demonstraram que o Cairo não controla inteiramente seu território, mas a resposta de Israel, ainda que violenta, foi relativamente contida. Benjamin Netanyahu convenceu seu gabinete a aprovar uma trégua e certa cooperação indireta com o Hamas para evitar uma escalada, argumentando que o país não tem legitimidade para uma operação em grande escala em Gaza. Não se brinca com fogo quando a gasolina está vazando por toda parte.

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