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Extremismo

Quatro anos após massacre, jovens noruegueses voltam a Utoya

por Deutsche Welle publicado 08/08/2015 08h15, última modificação 08/08/2015 10h36
Neste fim de semana volta a acontecer o encontro da juventude do Partido Trabalhista da Noruega na ilha onde, em julho de 2011, o terrorista de direita Anders Behring Breivik matou 69 pessoas
Jon Olav Nosvold / AFP
Utoya, Noruega

Mani Hussaini (à esq.), presidente da juventude do Partido Trabalhista norueguês, Anniken Huitfeldt, parlamentar trabalhista, e Jens Stoltenberg, hoje secretário-geral da Otan, em Utoya em 6 de agosto

Por Valeria Criscione

No dia 22 de julho de 2011, o terrorista radical de direita Anders Behring Breivik pegou uma balsa em direção à idílica ilha de Utoya, a uma hora de Oslo, e matou 69 pessoas – a maioria crianças. Mais cedo naquele dia, ele explodiu um carro-bomba na frente da sede do governo chefiado pelos trabalhistas, na capital norueguesa, matando oito pessoas.

Eskil Pedersen era líder da juventude do Partido Trabalhista na ocasião e prometeu, no dia seguinte ao ataque, que o grupo retornaria a Utoya.

Quatro anos mais tarde, Hakon Knudsen será um entre as centenas de membros do grupo a retornar. No dia do massacre, ele estava no prédio da cafeteria quando ouviu os primeiros tiros e avistou alguém que parecia ser um policial norueguês.

Quando viu Breivik atirar em um de seus colegas a sangue frio, percebeu que não era uma simulação. Ele se atirou no mar quando Breivik abriu fogo contra vários jovens encurralados na praia.

"Para mim, Utoya reúne tanto histórias felizes como as minhas piores recordações", disse Knudsen em entrevista à DW. "Eu estou empolgado por poder voltar. Em 2011, não era certo que voltaríamos. Foi uma longa jornada."

Algumas das cabanas da ilha foram reconstruídas, um pavilhão foi reativado e um grande anel de aço com o nome das vítimas gravado for erguido entre as árvores como memorial.

Algumas instalações, como a cafeteria principal, ainda têm as marcas dos disparos de Breivik, preservadas de propósito como reflexão sobre "o racismo e a necessidade de defender a democracia", explica Jorgen Frydnes, o diretor de projetos de Utoya.

Mas a ideia de retomar o acampamento em Utoya enfrentou resistência nos primeiros anos após o ataque – tanto por parte das pessoas que estiveram lá como das famílias das vítimas. Nos últimos dois anos, o acampamento foi realizado em Gulsrud – uma área continental próxima de Utoya – e teve patrulhamento policial.

Neste ano, a ideia do acampamento voltar à ilha avançou e será um divisor de águas para o país, que ainda se recupera da maior tragédia em seus tempos de paz.

"O clima geral é otimista, mas especial", diz Knudsen. "Existem vários participantes que voltarão porque sabem que é importante não apenas para a nossa organização, mas para todo o país... Eu acho que este é um grande passo. É como o ápice dos últimos quatro anos e de como nós resgatamos nossa rotina e nossa vida política."

Este ano, o acampamento também será histórico pela expectativa de comparecimento recorde. Cerca de mil integrantes da juventude do Partido Trabalhista se inscreveram para participar dos três dias de acampamento de verão, quase o dobro da presença registrada naquele fatídico julho de 2011.

Memorial de Utoya
Memorial com os nomes das vítimas de Breivik em Utoya

A maioria dos jovens registrados para o evento deste ano não estava na ilha com Breivik. Segundo Pedersen, aproximadamente 70% daqueles que comparecerão são novos membros. Essa também é uma das razões pelas quais houve grande interesse em voltar à ilha, "antes que eles [os 30%] ficassem muito velhos para participar".

"Foram quatro anos frenéticos e dolorosos, mas eu acho que isso mostra a força de vontade das pessoas depois do 22 de julho", disse Pedersen em uma entrevista à DW em Oslo. "Nos dias imediatamente posteriores ao ataque nós fomos às ruas com flores e dissemos 'nós não queremos que o atirador defina o nosso país.' Por isso, ainda que seja doloroso, a vida continua e tem que continuar."

Pedersen é um dos vários convidados especiais esperados em Utoya neste fim de semana. Além dele, são aguardados dois ex-primeiros-ministros noruegueses – Jens Stoltenberg, secretário-geral da OTAN, e Gro Harlem Brundtland. Ambos foram os alvos não atingidos por Breivik naquele dia.

O auto-proclamado militante nacionalista acusou o Partido Trabalhista de promover a "colonização islâmica" da Noruega através de suas "políticas favoráveis ao multiculturalismo" e tinha planejado inicialmente decapitar Brundtland na ilha.

Mani Hussaini, sucessor de Pedersen como líder da juventude do partido, pediu que o encontro deste ano se concentre na solidariedade internacional. Em uma carta enviada a seus correligionários, ele enfatizou a importância do encontro para lembrar as vítimas e promover os ideais que foram atacados em 22 de julho de 2011, para mostrar ao atirador que ele não destruiu a sociedade que eles construíram juntos.

"Utoya é o coração da juventude trabalhista, e a ilha tem uma longa e brilhante história", disse Hussaini em entrevista coletiva na quarta-feira na ilha. "Utoya é também palco do dia mais sombrio em tempos de paz na Noruega."

Para ele, restaurar Utoya significa não permitir que a história sombria encubra a história brilhante. "Nós estamos reconstruindo Utoya passo a passo, pedaço por pedaço, desde o ataque terrorista de 2011. Usá-la mais uma vez como sede do acampamento de verão é um passo importante nesse trabalho", disse.

Deutsche Welle

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